“15/18”, a adolescência perante a saúde mental
O francês Cédric Kahn retrata o quotidiano e as fragilidades de 12 adolescentes num serviço de psiquiatria.
O realizador Cédric Kahn queria há muito dedicar uma longa-metragem à psiquiatria. “A certa altura, isso assustou-me. Assumiu muitas formas diferentes”, contou numa entrevista à AFP. “Mas, quando cheguei aos adolescentes, alguma coisa se desbloqueou e consegui falar sobre o assunto.
Perante um tema tão trágico e difícil, via também a possibilidade de fazer um filme muito orgânico, muito vivo, com alguma luz”, explica o realizador, de 60 anos, que apresenta a sua 14.ª longa-metragem. “O argumento baseia-se inteiramente nos relatos dos miúdos. O que os levou até ali? Escolhemos aquilo que nos pareceu mais interessante e complementar”, detalha Cédric Kahn.
O filme retrata 12 jovens, todos com diferentes problemas de saúde mental e provenientes de contextos sociais e familiares diversos. Entre eles está Lucia, interpretada por Malou Khebizi, de 17 anos, que sofre de perturbação de personalidade borderline e está habituada a passar períodos internada no serviço. Ali reencontra Eloïse, interpretada por Zoé Monpart, internada há quatro meses devido a perturbações alimentares. Quando um novo paciente, Enzo, interpretado por Kenji Peyran, também é internado, o frágil equilíbrio do serviço é perturbado.
Malou Khebizi, de 23 anos, era a única actriz — juntamente com Patience Munchenbach — que já tinha trabalhado no cinema. “Era esse o conceito do filme: escolher pessoas que nunca tivessem representado”, sublinha Cédric Kahn. Vários atores foram descobertos em castings realizados na rua, ou à porta de escolas secundárias, entre eles Zoé Monpart e Kenji Peyran.
“Não procurávamos apenas atores; procurávamos também afinidades de carácter”, afirma Cédric Kahn. “Queria manter alguma coisa de muito espontâneo, de muito verdadeiro, na representação”, acrescenta.
“Espero que o filme toque a minha geração”, diz Malou Khebizi. “Somos uma geração extremamente fragilizada, desde logo pelo estado do mundo”, mas também pela crise da Covid-19 e pela omnipresença das redes sociais, sublinha a atriz revelada em “Diamant brut”. Os temas relacionados com a saúde mental “são muito abordados na minha geração”, acrescenta.
Cédric Kahn afirma ter conversado com cada um dos jovens atores antes de os contratar. “Perguntava-lhes: ‘Isso assusta-te? Tens algum preconceito?'”, conta o realizador. “Eles tinham muito poucos preconceitos negativos. Para eles, é algo completamente normal. (…) Todos conheciam jovens do seu círculo próximo que tinham passado por períodos difíceis. E isso não lhes causa qualquer problema”, relata Cédric Kahn, que considera existir aqui uma diferença importante em relação à sua geração.
O filme deixa entrever a esperança e um caminho de recuperação para estes adolescentes em sofrimento. “Acredito que o cinema tem a responsabilidade de criar luz. Um filme que se limitasse a constatar o desastre, para mim, não teria cumprido a sua função”, conclui o realizador.