“18 Buracos Para o Paraíso”: a ilusão do progresso
Conversámos com o realizador João Nuno Pinto e com os atores Margarida Marinho e Jorge Andrade sobre a narrativa que parte da venda de uma herdade alentejana para expor uma realidade fraturada, onde a ironia do título contrasta com a apatia de um país refém do turismo e da perda de identidade.
O filme “18 Buracos Para o Paraíso” tem como cenário o Alentejo, uma herdade à venda, quem sabe para se transformar num campo de golfe.
Depois de realizar as longas metragens “América” e “Mosquito”, o cineasta João Nuno Pinto parte de uma história pessoal:
Parto do princípio de uma história pessoal da Fernanda Polacow, que é a guionista, que também colaborou comigo no “Mosquito”. Parte desta propriedade onde ela cresceu e viveu toda a infância e que agora está à venda e das questões se colocam entre uma grande propriedade que já teve o seu tempo áureo, mas que agora é grande demais para se manter, ou seja, os herdeiros não têm uma ligação afetiva suficientemente forte para conseguirem cuidar, nem financeira, porque é muito caro cuidar, e têm pessoas que lá trabalharam a vida inteira.
O que vai ser feito a estas pessoas quando esta propriedade for vendida? Porque estas pessoas não têm uma palavra a dizer sobre a venda e, no entanto, são diretamente afetadas pela consequência da venda.
Este é o ponto de partida. Entretanto, fomos vivendo todos estes acontecimentos, a falta de água, a especulação imobiliária, a mudança de paradigma daquela paisagem rural, os olivais intensivos, deixar de se produzir certas coisas, ou o abate de sobreiros para pôr painéis solares, ou para fazer campos de golfe quando não há água, tudo isto estava a acontecer à nossa volta.

A narrativa desenvolve-se a partir de dois núcleos familiares:
Nós queremos falar exatamente desta questão da justiça social. O filme faz uma reflexão, o filme não dá respostas, simplesmente mostra uma situação, na verdade mostra três histórias, porque são três pontos de vista perante a mesma história, mas aborda esta questão social que era o que nos interessava.
E dentro de uma perspectiva das famílias e desta família proprietária. Porque mesmo dentro da família há há conflitos, há quem queira vender, porque tem uma visão mais materialista da coisa, que é, isto está tudo a acabar, esta propriedade já deu o que tinha a dar, vai secar tudo, é muito caro mantermos isto, vamos vender. Vamos aproveitar esta oportunidade, isto está cheio de estrangeiros com dinheiro a querer comprar.
E o outro ponto de vista que é a ligação emocional, vamos manter, vamos transformar, vamos lutar por manter isto. Dentro da própria família há diferentes visões, mas depois há a visão de quem lá trabalhou a vida toda e que é afetada por isso.
O filme é dividido em três partes, as duas primeiras histórias são de cada uma das irmãs proprietárias e os empregados estão lá como figurantes, a servir as pessoas, não têm protagonismo.
Na terceira parte isto inverte-se, eles passam a ter o protagonismo da história, e percebemos que, afinal, eles até têm muito mais a dizer do que nós nos lembramos, ou achamos que têm.

“18 Buracos Para o Paraíso” mostra um incêndio a que João Nuno Pinto, atribui um valor metafórico:
Os incêndios têm ali um papel, tanto literal, porque é o que acontece no verão, como metafórico, no sentido desta cobiça que nós temos, enquanto humanidade e como ela nos está a consumir e a destruir aos poucos.
E o que acontece é que nós estamos a viver uma crise climática. Todos os invernos percebemos que temos mais tempestades, temos cheias, nos verões temos cada vez mais incêndios, temos um calor absurdo, em maio já tivemos 37 graus, ou seja, cada vez mais estamos a sentir os efeitos das alterações climáticas. Mas, no entanto, não mudamos nada. Não alteramos uma vírgula do nosso comportamento. Zero.
O filme aborda isto, fala também desta apatia, perante estes factos que estão a acontecer, há uma inércia e uma apatia enorme.
João Nuno Pinto não conseguiu ficar indiferente perante o que está a acontecer no país, em especial a transformação da paisagem e a venda de propriedades a estrangeiros, em particular no Alentejo, região onde reside:
No espaço, se calhar, de cinco, ou seis anos, o panorama à nossa volta mudou completamente. Praticamente não existem propriedades portuguesas, é tudo estrangeiro.
Que Alentejo é este, qu país é este, que estamos a vender todo a estrangeiros. E o português médio, se tiver o azar de ficar sem casa, como estas pessoas do filme, já não conseguem comprar uma casa, nem alugar, porque já não é para eles.
Temos um país que não está virado para os portugueses, está virado para meia dúzia de portugueses que estão a enriquecer, mas para a grande maioria, não. Estamos a viver com mais dificuldades, está mais difícil, está tudo mais caro, o problema da habitação é seríssimo e é isso.
Quando estou a pensar e a fazer um filme, não posso ficar indiferente, olhar à volta e não querer falar disto. É a minha contribuição, é o megafone que eu tenho para poder falar destas questões.
Estamos economicamente reféns do turismo, mas será que isto é o caminho certo? Será que é esta a via mais correta para vivemos melhor? O que queremos é nosso bem-estar enquanto povo, enquanto nação.
Coerente com as questões levantadas no filme, João Nuno Pinto respeitou os valores ambientais durante a realização e não surpreende que “18 Buracos Para o Paraíso” seja a primeira longa-metragem portuguesa a receber o selo de garantia ambiental, Green Film:
Recebemos um selo, o Green Film é uma certificação, é o primeiro filme português a pôr em prática boas práticas de produção. Ou seja, ter uma preocupação de sustentabilidade, de reduzir ao máximo a pegada ecológica na produção do filme, diferente do que se costuma fazer, evitar ao máximo o desperdício.
Primeiro, houve ali muita pedra a partir, para chegarmos lá, mas conseguimos, queríamos mesmo fazer isso para sermos coerentes. Já que estávamos a falar destes temas, queríamos também, em termos de produção, ser coerentes na forma como fazíamos o filme.

São três irmãos os proprietários da herdade.
A atriz Margarida Marinho tem o papel de Francisca, a irmã que vive na casa e é ceramista:
Francisca é uma mulher que é um animal ferido, é uma mulher que vive em solidão, na casa da família. É lá que trabalha, é lá que come, é lá que vive. Sendo que o trabalho dela é um trabalho muito solitário e não propriamente comercial. Vai fazendo umas peças ou outras de cerâmica.
Digamos que a relação com a sua família nuclear é praticamente inexistente. O filho cortou, criou um bloqueio à sua própria mãe. Ela não tem companheiro. Portanto, a sua subsistência está ligada à terra e àquela casa.
Aquela casa, para além de ser a casa que a abriga, a casa que a acolhe, é também uma personagem. Acaba por ser uma personagem. E no caso dela, no dia em que a casa desaparecer, ela morre com ela.
Os conflitos familiares vão-se acentuando ao longo do filme. A personagem de Margarida Marinho representa a resistência à venda da herdade, a recusa à transformação do território:
Há uma contenda com os irmãos. E essa relação com o lugar vai sendo desvendada ao longo do filme. Vai-se percebendo que as diferentes posições em relação à venda da casa vão também evocar as dores de cada um relativamente à forma como foram criados, como foram educados. E a relação entre eles.
Estabelecem-se relações de poder, estabelecem-se relações de dominação e a Francisca, nesse aspecto, não tem propriamente grandes armas. Por isso, tenta lutar com todas as suas forças para demover os irmãos da decisão que eles dominam, por serem maioria.

“18 Buracos para o Paraíso”cruza também a vida dos três irmãos proprietários da Herdade e a filha da empregada mais antiga da casa.
Jorge Andrade interpreta Lourenço, o irmão que pressiona a venda da Herdade sem se preocupar muito com o destino dos empregados. O ator refere a universalidade do filme e da personagem que interpreta como um exemplo do egoísmo e de falta de empatia que atravessa a sociedade atual:
A personagem é contada pelas minhas irmãs. O filme está estruturado em termos de histórias. Quem conta uma versão de uma história tem uma determinada perspectiva, outra irmã tem outra perspectiva e, finalmente, a versão da empregada que é filha da senhora que nos criou.
O Lourenço é um agrobeto que vive na cidade, já não tem nada a ver com aquele passado. Os pais já morreram há muito tempo. Tem aquela casa em ruínas e ele só pensa em vendê-la para satisfazer as suas necessidades económicas e, sobretudo, não quer ter nada a ver com a trajetória apocalíptica que aquele tipo de propriedade leva.
Quer o melhor para si, pessoalmente, e não olha a meios. Chega a ser pateta.
É bastante irónico, não é? A forma como ele tenta resolver as questões. A falta de sensibilidade para com a situação em que ele se encontra, ou de empatia para um com o outro é que, se calhar, lhe confere, aquilo que cada vez vemos mais presente no nosso quotidiano. As pessoas serem bastante egoístas e não perceberem o outro.
Enquanto família, nós estamos completamente desestruturados. O relacionamento com aquele passado e com a nossa história comum, com aquelas pessoas que fazem parte daquele contexto da casa, também já não é o que era.
Não podemos sustentar aquela propriedade tal como ela está e existe a oportunidade de alguém estrangeiro a comprar e a questão ética aqui conta muito pouco.
É um momento em que, também a nível mundial, se vivem estas alterações climáticas que estão tão presentes no dia a dia, mas nós não nos coibimos nada de satisfazer as nossas necessidades, por mais justas que elas possam ser, de vendermos um local completamente árido e seco para fazer um campo verde para jogar golfe.
A insensibilidade da minha personagem que olha para aqueles que estão mais vulneráveis é digna de uma obra shakespeariana e, nesse sentido, é universal e uma história que extravasa fronteiras.
Há ironia em “18 Buracos Para o Paraíso”, uma ironia que se reflete logo no título que o realizador, João Nuno Pinto, escolheu:
Surgiu já depois do filme montado quando percebemos que o filme tinha demasiada personalidade para o título original que nós tínhamos, e o filme tem uma camada de ironia que quisemos que transparecesse também no título que fala desta ilusão, os 18 buracos estão ligados ao golfe. Mas é esta ilusão de que ao transformar aquilo num campo de golfo, vamos atingir a felicidade. Vamos chegar a um lugar bom, ao paraíso. Mas tem essa ironia, porque é uma ilusão. Não vamos chegar lá.
“18 Buracos Para o Paraíso”, um filme sobre um país em transformação, vítima do turismo e das pressões imobiliárias, estreia esta semana nas salas de cinema.