Saltar para o conteúdo principal

14 Jul 2026

Para adaptar o poema de Homero, escrito há cerca de três mil anos, o realizador Christopher Nolan, vencedor do Óscar por “Oppenheimer” e responsável pela trilogia “O Caveleiro das Trevas”, apostou numa produção em grande escala.

Com uma duração próxima das três horas, “A Odisseia” foi filmado em seis países, entre os quais Grécia, Marrocos e Itália, incluindo várias sequências em alto-mar, recorrendo exclusivamente a câmaras IMAX, um formato de película que oferece uma resolução excecional, mas implica exigências técnicas muito superiores às do cinema convencional.

O orçamento total de produção é estimado em cerca de 250 milhões de dólares.

Recorrendo à estrutura narrativa não linear que caracteriza grande parte da sua filmografia, visível em obras como “Inception” e “Memento”, Nolan acompanha o difícil regresso de Ulisses (Matt Damon) à ilha de Ítaca. Enquanto o herói enfrenta uma viagem marcada por inúmeros obstáculos, Penélope (Anne Hathaway) e o filho, Telémaco (Tom Holland), tentam resistir à pressão dos pretendentes ao trono.

Ao longo da viagem, Ulisses enfrenta o Ciclope, a ira dos deuses, a feiticeira Circe e a crescente desconfiança dos companheiros. À medida que o prestígio conquistado como vencedor da Guerra de Troia se desvanece, surgem dúvidas cada vez mais profundas sobre as suas decisões e sobre o recurso à violência.

“As decisões que toma nem sempre são as mais acertadas, o que faz dele uma personagem muito imperfeita e muito humana”, afirmou Matt Damon à AFP, durante a antestreia do filme em Paris. “É precisamente por isso que continua a tocar o público, como acontece há três mil anos.”

Christopher Nolan reconhece que, antes de iniciar o projeto, tinha apenas um conhecimento superficial da “Ilíada” e da “Odisseia”, mas percebeu rapidamente o enorme potencial cinematográfico da história.

Ao contrário de “Tróia” (2004), de Wolfgang Petersen, centrado na Guerra de Troia com Brad Pitt no papel de Aquiles, ou de “O Regresso” (2024), protagonizado por Ralph Fiennes e Juliette Binoche e focado numa abordagem mais intimista ao regresso de Ulisses, Nolan opta por uma epopeia de grande dimensão para retratar os vinte anos de errância do rei de Ítaca.

O realizador estabelece ainda paralelos entre Ulisses e protagonistas de obras anteriores da sua filmografia. Tal como o Batman de “O Cavaleiro das Trevas”, o rei de Ítaca transforma-se progressivamente num herói solitário, confrontado pela tentação da vingança. E, à semelhança de Robert Oppenheimer, consumido pela culpa decorrente da criação da bomba atómica, Ulisses debate-se com o peso moral de ter desencadeado a destruição de uma civilização ao abrir caminho ao massacre dos habitantes de Troia.

“O que me interessava era a ideia de uma pessoa que carrega a culpa de ter mudado o mundo, e não necessariamente para melhor”, explicou Nolan.

O cineasta considera ainda que “A Odisseia” constitui uma reflexão intemporal sobre os valores que sustentam a convivência humana. “O respeito pelos indivíduos e pelos seus direitos é o que define a civilização”, afirmou. “É um princípio fundamental que está na base da democracia e dos direitos humanos. Quando começamos a esquecê-lo, tudo começa a desmoronar-se.”

Os clássicos gregos no cinema

É de 1911 e dos primórdios das imagens em movimento a primeira adaptação cinematográfica da obra de Homero. Trata-se de uma curta-metragem que sintetiza a história em pouco mais de 10 minutos, o tempo disponível num rolo de película. Foi realizada por Giuseppe de Liguoro, pioneiro do cinema italiano na época em que o epicentro da sétima arte ainda estava na Europa.

Se quisermos explorar este sub-género de adaptações ao cinema de obras da literatura grega do período clássico, numa espécie de guia para acompanhar a “A Odisseia”, de Christopher Nolan, não será má ideia começar por “Ulisses”, uma co-produção italo-americana de 1954, com Kirk Douglas como protagonista, ao lado de Silvana Mangano e Anthony Quinn. O filme também simplifica bastante a obra original, mas foi durante décadas a referência cinematográfica da epopeia homérica.

Entre as décadas de 50 e 60 os “peplum” italianos, trouxeram histórias populares, ambientadas na Antiguidade clássica, com personagens heroicas, mas com pouco ou nada a ver os textos clássicos.

Num lado mais sério, os anos 60 e 70 trouxeram adaptações cinematográficas mais próximas dos originais, preocupadas com a dimensão humana, literária e política.

O grego Michael Cacoyannis, realizador do bem conhecido “Zorba, o Grego”, assinou uma trilogia baseada em Eurípides, que, ainda hoje, é uma das abordagens cinematográficas mais respeitadas da Antiguidade clássica. Começou com “Electra”, de 1962, seguido de “As Troianas”, de 1971, e terminou com “Ifigénia”, de 1977. Comum aos três filmes é a presença da atriz grega Irene Papas, em elencos onde também encontramos nomes como Vanessa Redgrave, ou Katharine Hepburn.

Ainda no âmbito das longas-metragens que privilegiam a dimensão humana e política dos textos clássicos é obrigatório mencionar dois filmes de Pier Paolo Pasolini, “Édipo Rei” (1967), inspirado no texto de Sófocles, e “Medeia” (1969), a partir do mito e da obra de Eurípides com a prima donna da ópera Maria Callas. E, claro, Theodoros Angelopoulos, um dos mais influentes cineastas gregos, e o seu “O Olhar de Ulisses”, de 1995, com Harvey Keitel. É uma reinterpretação moderna da obra de Homero… transportada para as guerras na ex-Jugoslávia e para o cerco de Sarajevo.

Num registo diferente, convirá relembrar “Jasão e os Argonautas” (1963), e ainda, “Choque de Titãs” (1981) que será, talvez, o último grande épico mitológico sem efeitos digitais….aqui o destaque vai sobretudo para as criaturas animadas em stop motion por Ray Harryhausen que marcaram e inspiraram gerações de cineastas.

Nas décadas seguintes, as histórias inspiradas na era clássica andaram um pouco arredadas do cinema. O género reapareceu em 2004, com “Tróia” , de Wolfgang Petersen, o filme com Brad Pitt e Eric Bana que adapta livremente a Ilíada, lançado no mesmo ano em que estreou “Alexandre”, de Oliver Stone, a ambiciosa biografia de Alexandre Magno.

Outra evolução surgiu com “300” (2007), ao adaptar a banda desenhada de Frank Miller sobre a Batalha das Termópilas num formato muito estilizado, e com “Imortais” (2011), fantasia inspirada em Teseu e nos deuses do Olimpo.

  • CINEMAX - RTP c/ AFP
  • 14 de Julho de 2026, 18:57

+ conteúdos