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09 Jun 2026

“Dois Procuradores” recua à União Soviética de 1937, durante as purgas conduzidas por Josef Stalin. É a história de um jovem advogado do regime que recebe uma carta escrita por um prisioneiro político e se confronta com uma realidade que desconhecia.

O papel é do ator Aleksandr Kuznetsov:

A personagem principal é um jovem procurador, um jovem advogado que acabou de se formar na Faculdade de Direito. Tem uns 23 ou 24 anos. Recebe a missão de descobrir o que se passa na prisão da sua cidade natal, porque recebe, por acaso, a carta de um dos prisioneiros.

Essa carta escrita com sangue é quase o enredo de um filme de suspense e terror. Ele vai à prisão e tenta chegar à cela do prisioneiro que a escreveu.

É como uma história de Kafka e Orfeu e o Inferno é ir buscar todas as Eurídices, quase como uma tragédia grega no teatro, quando ele descobre um mal muito maior do que aquilo que lhe ensinaram na Universidade e tenta resolvê-lo como um jovem ser humano normal.

Na Rússia as pessoas têm medo, com razão, de falar sobre o Gulag, de falar sobre campos de concentração para prisioneiros políticos, porque ainda não sabemos se será considerado crime falar sobre isso e se por isso se vai para a prisão.

Aleksandr Korniev é o jovem procurador soviético que decide investigar os abusos cometidos pela polícia:

Não é um soldado, é um rapaz, muitas pessoas pensam que é ingénuo, mas, na verdade, não é assim, é como um jovem samurai que acredita nos erros das pessoas, acredita que não existe um mal maior, caso contrário torna-se uma situação ao estilo de “O Senhor dos Anéis”, em que é preciso destruir o anel, há um demónio, é como se fosse preto e branco.

É preciso acreditar que somos todos humanos, que existe uma sociedade, que as pessoas cometem erros e é preciso corrigi-los. Ele acredita nisso e começa a agir com base nessa filosofia. Obviamente muitas vezes morre-se, porque as pessoas são más. Portanto, a sua personagem é como um rapaz assustado que, na verdade, é corajoso o suficiente para preservar e agir contra o seu medo. Não é a história de um demónio destemido, é a história de um homem muito assustado, mas que precisa de lutar pelas pessoas que estão na prisão.

O filme, inspirado no romance biográfico do preso político, físico e escritor russo, Georgy Demidov, desenrola-se durante as purgas estalinistas da União Soviética:

O livro foi escrito por Demidov, o homem que esteve nessa prisão política e na mesma cela da minha personagem, Korniev. Escreveu-o como uma homenagem à pessoa que morreu nessa prisão, um jovem advogado recém-saído da Faculdade de Direito. 

É tudo verdade, é como um filme biográfico. Ele foi torturado, houve um grande julgamento em que foi forçado a confessar que era líder de uma organização terrorista, na esperança de que o libertassem, mas mandaram-no de volta para a prisão e mataram-no lá.

O realizador bielorruso Sergei Loznitsa e parte do elenco, onde se inclui o ator Aleksandr Kuznetsov, são perseguidos pelo regime de Putin. As filmagens decorreram numa prisão desativada em Riga, na Letónia:

Rodámos lá porque, às vezes, Riga parece mesmo a Rússia e fica na Europa.

Todos nós, atores e realizador, estamos no exílio, porque nos manifestámos contra o presidente Putin e contra a guerra, por isso não foi possível rodar na Rússia. Com todo o prazer o teríamos feito, se não houvesse guerra e não fôssemos perseguidos. E Riga é um grande centro da indústria cinematográfica.

A Kristen Stewart filmou um filme lá, o Jude Law também fez um filme lá, filmámos numa prisão a sério, que agora está abandonada, mas esteve a funcionar até há uns 10 anos quando a fecharam. Por isso, era um espaço muito frio, cheirava muito mal, ainda se conseguiam ver as inscrições feitas nas paredes pelos detidos.

Morei em Lisboa três anos. Identifico-me com Portugal.

Aleksandr Kuznetsov lamenta que, decorridos 100 anos, esteja tudo igual na Rússia:

É consequência da falta de uma educação para a democracia. Na Rússia e noutros países com ditadores, este trabalho nunca foi feito. Por isso, o que aconteceu há 100 anos, aquelas prisões políticas com milhões de pessoas torturadas, continua a ser uma realidade.

Tenho amigos na prisão, na Rússia, especialmente devido à guerra. Qualquer pessoa, qualquer estudante que cante uma canção, em ucraniano, nas ruas da Rússia, tem cerca de 80% de hipótese de ir para a prisão durante vários anos.

Nada mudou, nunca fizemos nenhum filme sobre isso, porque temos medo. Na Rússia as pessoas têm medo, com razão, de falar sobre o Gulag, de falar sobre campos de concentração para prisioneiros políticos, porque ainda não sabemos se será considerado crime falar sobre isso e se por isso se vai para a prisão. É como um círculo vicioso.

Nunca se fez nada porque a União Soviética era tão grande e durou até cerca de 1991. A partir daí houve uns 10 anos de caos total. Houve um bom período, a partir, digamos, do início do milénio e depois, acabámos por entrar numa guerra.

Não tivemos tempo para refletir sobre o porquê de ter prisões políticas daquela dimensão. E por isso, se não se fizer o trabalho educativo, acaba por ser o mesmo. O que está a acontecer na Rússia é ridiculamente idêntico ao que aconteceu há 100 anos.

A intenção do cineasta Sergei Loznitsa, quando realizou “Dois Procuradores”, foi confrontar o presente com o passado de um país dominado pelo medo e pela repressão. É o que sugere o ator Aleksandr Kuznetsov:

Este filme mostra que deixámos escapar alguma coisa e não vamos melhorar enquanto não percebemos o que esteve errado durante estes anos.

Não basta ganhar a guerra, ou mudar o presidente e a autocracia. Não se pode simplesmente pôr fim a isso sem fazer uma investigação muito, muito aprofundada sobre como isto durou tanto tempo. Portanto, a força não vai ajudar aqui. É preciso educação e ela não foi feita como deve ser porque estava tudo proibido. Ainda hoje é proibido falar sobre prisões políticas e acho que esta é a principal razão pela qual o realizador Sergei Loznitsa decidiu fazer este filme, porque é a própria contribuição para a educação, para a revolução das mentes.

Aleksandr Kuznetsov, que tem origens russas e ucranianas, assume-se contra as políticas de Putin e opõe-se à guerra na Ucrânia:

Sou metade, metade. Sou russo e ucraniano. Tenho os dois passaportes e falo as duas línguas. A minha mãe é ucraniana, o meu pai é russo. Vivi na Ucrânia durante 19 anos, mas sinto-me russo em termos culturais, porque cresci com a literatura russa, os filmes, a música russa, a cultura russa.

Também adoro a cultura ucraniana, mas é como se fosse menos minha. Porém, apoio a Ucrânia neste caso específico da guerra. E, acima de tudo, sou contra Putin, em primeiro lugar, pelas repressões, porque ele oprime o seu povo, mata o seu povo, coloca-o na prisão, e isso é absolutamente inaceitável.

Viveu durante três anos em Lisboa, é português de coração, quer voltar a viver em Portugal e realizar aqui o segundo filme:

Sou português de coração. É o meu país preferido, especialmente Lisboa. Adoro mesmo este país. É como se fosse o meu lar, a minha casa. Morei em Lisboa três anos. Identifico-me mesmo com Portugal. Lisboa é uma das poucas cidades capital com oceano.

Gostava de ir de mota, passear até à Caparica, ir até à Praia de Carcavelos. Tenho saudades de todas as coisas simples. E às tascas, constantemente.

Adoro cidades pequenas. Adoro pessoas simples. Gostava de pedir uma tosta-mista logo às oito da manhã e beber um abatanado. Sinto falta de comer canja, gosto muito. Sinto falta de uma bifana, de um prego. Sinto falta dessas coisas.

Adoro a simplicidade da vida. Sinto-me seguro em Portugal. Estou a pensar em realizar o meu segundo filme aqui, porque é o meu país de coração.

  • Margarida Vaz
  • 09 de Junho de 2026, 09:02

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