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23 Jun 2026

O centenário da independência de Moçambique é assinalado nos cinemas nacionais com a estreia de “Ku Handza”, o novo filme de André Guiomar, um documentário que retrata três histórias familiares de sobrevivência. Benjamin, que tenta juntar dinheiro para organizar o aniversário do filho. Filimone, de visita à família entre missões de guerra e, desta forma, acompanha o crescimento das filhas. E Eulália, que acaba de dar à luz o sexto filho, mas vê-se obrigada a regressar ao trabalho num aterro sanitário, o último reduto do que a sociedade considera dispensável.

André, “Ku Handza” foi rodado numa região que conheces bem, mas o filme demorou vários anos a ser concretizado…

Foi preciso reunir estas histórias, descobrir estas famílias, descobrir as dinâmicas entre elas que fizessem sentido no mesmo filme. Também, obviamente, a espera prolongada por financiamento, que demorou a chegar e fez com que tivesse de alterar à posterior as histórias que tinha selecionado, porque a vida continuou. Inclusive uma das histórias, uma das personagens que queria ter filmado morreu poucos meses antes da rodagem, ou seja, tive de voltar a Moçambique, refazer as histórias e a ligação entre elas, testar várias dinâmicas até chegar à conclusão de que o filme eram estas três histórias, em concreto.

Conhecemos André Guiomar da produtora Olhar de Ulisses, baseada no Porto, e de um documentário, “A Nossa Terra, O Nosso Altar”, exibido recentemente nos cinemas, filmado no bairro do Aleixo, no Porto. Estamos a falar de uma realidade cinematográfica totalmente diferente, que te interessa, que foste trabalhando e investigando, durante vários anos. Vale a pena explicar o que significa a expressão usada no título, “Ku Handza”, que acaba por ser uma metáfora para aquilo que contas no filme.

Exatamente. “Ku Handza” significa o esgravatar da galinha à procura de comida para entregar aos filhos. É muito curioso porque esta expressão é repetida diariamente na rua, ouve-se de forma muito comum ao primeiro cumprimento do dia. ‘Bom dia, como estás?’ A primeira coisa que ouvimos, normalmente, é algo do género ‘ku handza’, ou ‘tchova’, ou seja, estou a empurrar, ou estou a esgravatar, ou estou sempre a fazer qualquer coisa para tentar puxar a vida para a frente.

Isso é um modo de vida, um modo de sobrevivência que também indica um estrato social bastante baixo e com muita miséria. Faz com que se moldem as perspectivas futuras, os sonhos ficam mais cortados, mais curtos.

Uma das coisas curiosas que descobri nesta investigação que ia fazendo nos fins de semana é que a última pergunta que fazia às pessoas era sempre ‘qual é o seu sonho para o futuro’. A resposta era sempre a mais difícil de todas. A maioria das pessoas não conseguia responder porque não sentia que tinha perspectivas assim tão longínquas. Uma pessoa que está a vender fruta na rua ficava confusa e eu perguntava ‘mas você quer uma loja, sonha ir para um hipermercado’ e a pessoa dizia ‘eu só quero ter fruta na próxima semana’.

Aquele território corta muito os sonhos às pessoas nesse sentido, ou seja, quando estamos programados, desde que nascemos, a sobreviver ao próprio dia, a viver de uma manga que tiramos de uma árvore à hora do almoço e de umas couves que conseguimos ao final do dia do quintalzinho que vamos desenvolvendo, isso faz com que as perspectivas futuras se vão reduzindo a um espectro muito diário.

O filme estreia nesta data, 51 anos após a independência de Moçambique. Acabou por ser um bom acaso? O filme estava pronto?

Estava pronto, a data não era impossível, embora seja uma altura com muitas estreias, sabíamos que corríamos esse risco de ter poucas salas e de muita atenção dada a muita coisa, mas a verdade é que a data é importante. Foi um pedido que fiz aos produtores e acabamos por conseguir programá-lo para esta data.

Como é que o o filme é visto e percebido em Moçambique do ponto de vista da exibição e do encontro com os espectadores?

Tratei o filme com duas camadas. Uma mais direta e uma camada paralela que influencia as histórias das três personagens, que são temas maiores, digamos assim, que influenciam a vida da pessoa que quer organizar um aniversário para um miúdo e não tem aquela margem de dinheiro para o fazer, porque o câmbio alterou.

Isto para dizer que acho importante que um país bastante invisível aos nossos olhos esteja no espectro de atenção nesta data. Estas pequenas histórias merecem atenção e humanizam a perspectiva que temos. Sinto que a minha segunda casa é em Moçambique, porque habitei três anos seguidos em Moçambique e, nos últimos dez, voltei para lá dois, três meses por ano, constantemente. Tenho filmado muito, conheço muitas famílias e o mundo do cinema permite-nos entrar nos países de outra forma, porque o lado documental, sobretudo, é um lado muito íntimo, muito familiar, pelo menos o meu tipo de cinema, e isso faz com que tenha uma relação muito próxima com o sul moçambicano.

Sinto que conheço muita gente, muitas equipas e fui conhecendo e sabendo muitas histórias. Por isso, o filme também tem esse toque político esse querer, o objetivo de pensar na atualidade de Moçambique, porque o próprio cinema moçambicano, considero-o um bocadinho antigo, pela falta de realizadores que na nova geração não existem. Acho que esse trazer o olhar para a atualidade, pensar nas coisas que estão a afetar as pessoas, também são importantes no lado documental e cinematográfico.

E como foi recebido lá, um filme concretizado por alguém que vem de fora, mesmo que seja residente, inclusive com filmes anteriores que também já foram filmados em Moçambique.

Não há exibição em Moçambique neste momento..

O filme fica invisível?

É possível. Estamos a tentar algumas televisões moçambicanas, mas a metodologia de compra de filmes é inversa, lá as pessoas pagam para ter espaço numa televisão, ou seja, torna a coisa complicada.

A exibição não existe neste momento, a única sala comercial que existia comercial deixou de funcionar há três ou quatro anos e, portanto, neste momento há a Embaixada Portuguesa e o Centro Cultural Franco-Moçambicano que são espaços onde, provavelmente, vamos fazer uma projeção, mas é curto, é muito curto para chegar a algum lado.

Estamos a tentar ir a um festival na África do Sul para levar as três personagens, porque era importante vermos o filme em conjunto numa tela grande. E achamos que, sobretudo, o que aconteceu nas nossas curtas, que pode vir a acontecer neste filme, é atacarmos as escolas no sentido da educação, de projetarmos o filme para as turmas. Isso correu muito bem nas curtas-metragens, na altura do “Pele de Luz” tivemos sessões maravilhosas, onde, inclusive, juntamos escolas do interior profundo, bastante pobre, com poucas condições e trouxemos-las a Maputo, à escola portuguesa, que é a escola mais rica e depois provocámos ali um intervalo, onde todos se conheceram, trocaram impressões sobre o filme e sobre a vida em geral e essas sessões foram bastante memoráveis. Penso que pode ser uma das soluções para a exibição do filme.

É importante referir isso porque é algo de que não temos noção. Há aqui também um fascínio ao olhar para narrativas documentais  contemporâneas que nos chegam de Moçambique, protagonizadas por moçambicanos, histórias bastante reais, porque percebemos que há uma pureza na disponibilidade das pessoas para participar.

Mais do que tudo, há uma vontade que se ganha com o trabalho de muitos anos em conjunto com estas pessoas, ou seja, não são desconhecidas para mim e isso influencia a forma como eles se dão à câmara.

Há uma série de condições, na verdade, porque depois também há o facto de reduzir a equipa ao mínimo indispensável, sou eu e o Rui Namburete, que é um diretor de som maravilhoso moçambicano. O produtor está sempre no carro, mais lá fora, mas eu acho que a chave, mais até do que a natureza própria do moçambicano, que é muito à vontade, também tem a ver com o facto de trazer as personagens para o nosso lado de criação artística, ou seja, fazer com que eles percebam a sua própria história, a importância que ela tem para mim, narrativamente, e fazer com que isso seja uma criação em conjunto. De repente eles relaxam, entendem e deixam-se levar pela narrativa, por algumas pequenas indicações de ‘agora desce a montanha’, ou “vai aqui pela esquerda’, mas não muito mais do que isso, porque começa a ser um diálogo, mais do que uma ordem da minha parte.

Referias há pouco a ausência de produção cinematográfica moçambicana no presente, mas há uma história, há obviamente um legado. É um caminho que fazes com esse sentido de responsabilidade para encher um vazio, ou isto é demasiado pretencioso?

Não, diria que é real, ou seja, porque eu falo com muitos jovens  realizadores moçambicanos que fizeram uma ou duas curtas ali na escola e que neste momento estão sem saber o que fazer e sinto que eles olham para o meu cinema, como olham para o cinema do Ico Costa, como olham para o cinema do Sol de Carvalho.

Estava a pensar no Ico Costa que, também a partir de Portugal, foi encontrando condições baseadas em Moçambique para fazer uma série de filmes.

Sim, maravilhosos e ainda por cima noutro território, o que é ainda mais interessante, porque estamos a trabalhar em territórios diferentes, com dinâmicas muito diferentes. Conheço ambos e gosto muito de Inhambane, que é onde o Ico filma grande parte dos seus filmes. É um sonho de terra.

Mas eu trabalhei sempre muito ligado a Maputo e por isso conheço mais aquela região, mas eu sinto que um moçambicano ter a possibilidade de ver um filme sobre uma história que acontece ao seu lado, na carteira ao lado, ou na pessoa com quem trabalha ao seu lado, ou na pessoa que está na rua e por quem ele passa todos os dias e tornar aquilo cinematográfico também mostra que com muito poucos meios que ele tem, infelizmente, é possível ter esperança. Não é possível, apesar de tudo, fazer as coisas de uma forma profissional como nós queremos.

E o financiamento em Moçambique tem sido muito escasso e são valores ridículos, mas eu acho que com esta sinergia com outros países, Portugal, África do Sul, etc., às vezes aparece um ou outro realizador e realizadora que tem vindo a tentar desbravar um bocadinho esse novo campo do que é o cinema de agora em Moçambique.

Falávamos do Ico Costa e dos filmes dele. Mostram-nos, sobretudo, uma juventude que tem sonhos muito europeus, face à globalização, face às  ferramentas digitais, que permitem aspirar a outra coisa, como aconteceu no contexto português. Também partilhas essa ideia com o teu olhar mais abrangente?

Acredito que sim, por mais que tenhamos sempre carinho por alguns acontecimentos históricos, muito neste caso da FRELIMO, que eu estudei com muita profundidade ao fazer a série em que tive de trabalhar durante três anos, mas a verdade é que há uma falta de rotatividade democrática que, felizmente, ainda vamos tendo cá.

Sinto que um país não consegue estar 50 anos encostado ao mesmo partido, por mais que, do lado de lá, a visão de solução não seja a mais fácil possível, mas acho também que isto é uma mistura sempre de duas coisas, as coisas são sempre muito mais complexas do que nós achamos e sinto essa incapacidade de Moçambique se rejuvenescer economicamente, socialmente e culturalmente, e até estrategicamente dentro do seu território, mas também sinto, tal como sempre, que Moçambique sofre de muitas pressões externas, porque tem muitas coisas apetecíveis e isso faz com que, por exemplo, esteja até hoje a acontecer uma guerra no Norte que ninguém entende e que ninguém consegue explicar, ou que tentam não explicar e que é muito abafada.

Da mesma maneira que ponho o Benjamim a falar sobre os câmbios que também são influências externas que ele não entende e que a Eulália acaba por sobreviver do que nós achamos que são os restos e o que dispensamos das nossas vidas e trazemos problemas ambientais para cima da mesa, mais uma vez.

Isto é tudo muito difícil e calhou àquelas três personagens terem nascido naquele país em particular e, mesmo assim, terem uma dignidade e uma cabeça levantada muito grande, mas cada um tem a sua forma de lidar com os seus problemas e eu gosto de achar que aprendo sempre como lidar com os meus, olhando para as personagens que tento escolher, porque admiro-os muito. É impossível não ver a Eulália sem relativizar no meu dia-a-dia os meus pequenos problemas.

  • tiago alves
  • 23 de Junho de 2026, 09:08

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