“Aqui”: regresso a Cannes de Tiago Guedes com uma exigente adaptação de J.M. Coetzee
Quatro anos após "Restos do Vento", Tiago Guedes regressa ao festival com uma produção em castelhano que fala de infância e remete para o D. Quixote de Cervantes.
O realizador português Tiago Guedes está no Festival de Cannes para estrear o seu último filme. “Aqui”, adapta a trilogia de Jesus, da obra do escritor sul-africano J.M. Coetzee, Prémio Nobel da literatura em 2003. Falado em castelhano e com um elenco espanhol, “Aqui” integra a secção não competitiva Cannes Première. Conta a história de um homem que procura a mãe de um rapaz órfão com quem se cruzou.
É a segunda presença de Tiago Guedes em Cannes após “Restos do Vento”, em 2022.
Gostaria de ter uma impressão tua sobre o processo de adaptação e as dificuldades que surgiram, considerando a dimensão da obra e o que conseguiste reter no filme?
Estamos a falar de três livros que têm quase 800 a 900 páginas. Sabíamos, à partida, que ia ser um desafio grande fazer disto um filme só. Tivemos de selecionar muitas coisas, escolher bem o que era essencial. E acabámos por descobrir este caminho que acabou por ficar no filme.
Não foi doloroso?
Foi. É sempre. Ficou muita coisa boa de fora porque os livros são muito densos, muito completos de conceitos, de noções, de cenas incríveis, mas que não cabiam, isso era claro.

Focas a narrativa mais na criança e no seu crescimento num lugar imaginado, sem identidade, sem tempo, onde um refugiado adota um miúdo e ele cresce. É interpretado por dois atores, em idades diferentes, entre a infância e a adolescência.
O que te levou a captar esse momento da narrativa?
Primeiro, esse é o fio condutor dos livros. É a criança, o David. E a relação com este pai que não é pai, a tentar educar, a tentar adaptar esta criança ao mundo, à realidade quando ela vive no seu universo, no universo em que as crianças todas vivem, que é o universo da imaginação e da singularidade.
Então, vives muito neste confronto de como um adulto está a tentar condicionar essa visão e essa singularidade. E era um tema que me interessava muito. Esse acaba por ser o fio condutor ao qual me agarrei.
A infância permite exprimir o imaginário próprio de uma criança muito interessada pelo D. Quixote de Cervantes. Nesse sentido, podemos dizer que agora, ao ver o filme, deslocamos um pouco o olhar da obra de Coetzee e focamos o olhar no D. Quixote?
Não faço ideia, porque o Quixote também está nos livros. Ele já o refere lá, mas aqui adquire outra presença, até porque surge logo no início e nos livros surge mais adiante.
Claramente, para o Coetzee, este David e o Simon, o pai que o está a tentar educar, são claramente uma figura do Quixote e o Sancho. O realista a tentar chamar à razão a liberdade do pensamento, da imaginação. Portanto, acho que estão os dois muito conectados. Eu acho que, quando falamos na língua e no espanhol, que a importância do Cervantes e desse livro em particular foram fundamentais também para o John escolhesse que as personagens dialogassem em espanhol.
Além da questão da educação e da liberdade criativa de uma criança, há também uma ideia muito forte sobre o papel dos pais e a constituição da família. A família como um espaço muito aberto, porque a criança não encontra os pais, a determinado ponto é ela que se coloca neste lugar de dizer ‘eu sou o órfão, vocês não são os meus pais’, que é um lugar de autoridade. Mas é também um filme sobre a paternidade…
Sim, a minha conexão com o primeiro livro, em 2013, foi sobre isso. Sobre o que estou a fazer ao educar os meus filhos, como posso ser melhor nesse sentido. Ou seja, levantou-me imensas questões sobre o que é o papel de educar alguém neste mundo.
O que prejudicamos, o que ajudamos. O que prejudicamos quando achamos que estamos a ajudar, quando estamos a tentar adaptá-los ao mundo, se não estamos a abafar a sua singularidade. Tudo isso é um assunto para o qual não tenho respostas concretas, mas é um assunto que me preenche muito a cabeça e as preocupações que tenho relativamente a esse cuidado. Qual é a melhor forma de agirmos? Porque condicionamos tanto a imaginação?
A narrativa decorre num local imaginado, um local de abrigo para refugiados, onde se constrói uma nova sociedade. Há aqui também linhas de aceitação, como sucede na relação do pai e da mãe adotada, digamos assim, com a personagem do David. Nos tempos em que estamos, essa temática interessou-te?
Não é bem uma terra de refugiados. A ideia de que eu gosto é a ideia de que é um mundo onde todos chegam como estrangeiros, e aí, sim, como refugiados, porque chegam sem nada e têm de iniciar as suas vidas. E isso fala com o nosso tempo.
Mas o que eu acho interessante é que este é um mundo em que isso acontece de uma forma natural e não existe essa questão de stresse com essa chegada. Toda a gente chega de todo o lado e esse mundo utópico que ele constrói ali um bocado é-me particularmente interessante. Nós sabíamos que não tínhamos muito espaço no guião para abordar todo esse lado dessa sociedade que ele cria. Nos livros, é muito mais completo.
De certa forma abdicas disso, não é?
Sim, abdico, tenho de abdicar, e não foi fácil porque havia cenas lindas e ricas e coisas muito interessantes, mas foi claro que não cabia. Não íamos conseguir contar tudo.

O que também é determinante para expandir esse espaço e local de ação são obviamente os edifícios, os cenários de um filme que, pela língua, somos levados a achar que acontece em Espanha, mas não foi assim, pois não. Podes desvendar algo sobre isso? Sobre o mistério dos lugares?
Os lugares são 90% Portugal, mas são sítios muito pouco conhecidos. São sítios que fui descobrindo.
Houve coincidências muito felizes. Dou-te um exemplo, o edifício inicial dos refugiados era uma referência que tinha descoberto na net. Era o meu briefing para as pessoas que iam ajudar a procurar, era aquele edifício. E, nessa busca, esse edifício apareceu. Achava que já tinha sido destruído e existe ainda no Porto, estava meio decrépito, mas foi espetacular perceber que o que eu tinha como intenção, encontrei. Portanto, isso foi um ponto de partida.
Depois, houve várias colagens. Construímos o mundo com vários espaços, no Porto, em Alvarães, onde é que foi mais? No Vimeiro. Lisboa, recantos dos Olivais que estão ali metidos.
O espaço urbano que vemos no filme, que parece Espanha, em boa verdade, mas se calhar estamos a ser sugestionados, é, por exemplo, nos Olivais…
Sim, aquele prédio final no território. É um recanto mesmo nos Olivais.
Isso é muito interessante. Acho que quem vir o filme em Espanha, os nossos colegas críticos, vão sentir que o filme é filmado em Espanha. Isso leva-me a uma outra questão. Gostava de perceber qual é a tua expectativa aqui no Festival de Cannes. Este é um ano em que o cinema espanhol tem uma boa presença com três filmes na Seleção Oficial. Não tenho memória em 20 anos de trabalho no Festival de um ano assim. De repente, o “Aqui” surge também na Seleção Oficial sendo um filme falado em espanhol. Estás com boas expectativas para a distribuição internacional, nomeadamente em Espanha e nos territórios latinos, que falam castelhano?
Confesso que ainda não tive tempo, porque estive a acabar o filme, para pensar muito nisso. Mas tenho dois tipos de curiosidades distintas.
Ainda ontem houve alguém do México que veio perguntar-me ‘isto vai para o México, isto devia ir para o México’. Acho que faz todo sentido tentar-se todos os mercados de língua espanhola, obviamente. Ao mesmo tempo, há uma curiosidade, que é esta dimensão do estrangeiro. Porque a língua que te dá a sensação que eles estão a falar espanhol para ti e para mim, é que estão a falar uma língua que não é a tua. Como é que isto é interpretado e recebido em Espanha? Ainda não tive a oportunidade de falar com os atores sobre isso, estou muito curioso de perceber o que isso quer dizer.
Agora, acho que o filme tem potencial para ser visto, e ainda por cima temos dois protagonistas que são enormes em Espanha. Temos o Manolo e a Patrícia que são, neste momento, grandes nomes em Espanha. Mais as descobertas dos miúdos, portanto, acredito que exista uma recetividade. Agora, ainda não pensei muito no que é que isso quer dizer ou o que isso possa significar.