Cinemateca Portuguesa e Doclisboa dedicam retrospetiva inédita a Lino Brocka
A obra do realizador filipino, marcada pela crítica à ditadura de Ferdinand Marcos e pela defesa das minorias, ganha destaque a partir de julho com a exibição de cópias restauradas.
A Cinemateca Portuguesa e o festival Doclisboa organizam uma abrangente mostra dedicada ao cineasta filipino Lino Brocka. O ciclo, intitulado “Lino Brocka – Matem o Artista Nacional”, constitui uma das maiores retrospetivas do autor a nível mundial e apresenta grande parte da sua filmografia de forma inédita em Portugal, incluindo cópias recentemente restauradas.
A programação arranca a 17 de julho, às 21h45, na esplanada da Cinemateca, com a projeção de “Bona”, obra de 1980 que expõe os mecanismos da exploração social e da ilusão através da obsessão de uma jovem por um ator. O evento principal decorrerá em outubro, integrado no Doclisboa 2026, com o apoio da Embaixada das Filipinas em Portugal.
Em “Bona”, a interpretação da atriz Nora Aunor fixa um dos momentos mais relevantes do cinema filipino, ilustrando a crónica dos cidadãos marginalizados e a urgência dramática que caracterizam o percurso de Brocka.
Na criação do programa colaborou o artista e realizador filipino Khavn De La Cruz, investigador da herança cinematográfica de Brocka.

Catalino «Lino» Ortiz Brocka, que viveu entre 1939 e 1991, dirigiu cerca de sete dezenas de títulos em pouco mais de vinte anos de carreira. Transitou entre o circuito comercial e o cinema de autor, equilibrando o melodrama e o realismo cru. Os seus argumentos focaram-se na pobreza urbana, nas desigualdades económicas e na violência quotidiana de uma sociedade em mutação.
Durante a ditadura de Ferdinand Marcos, Brocka assumiu um papel ativo na resistência cultural e utilizou as suas produções como ferramentas de intervenção cívica e de denúncia política.
O cineasta, homossexual, transpôs também a sua vivência pessoal para as telas, abordando temáticas queer num contexto de forte repressão estatal. Longas-metragens como “Manila in the Claws of Light”, de 1975, “Insiang”, de 1976, “Jaguar”, de 1979, “This Is My Country”, de 1984, e “Macho Dancer”, de 1988, circularam com regularidade pelos principais festivais internacionais e consolidaram a influência do autor na cinematografia contemporânea.