“Damas”: Cláudia Alves lembra as enfermeiras portuguesas na Primeira Guerra Mundial
O documentário resgata a história negligenciada das enfermeiras voluntárias portuguesas que estiveram em França durante a Primeira Guerra Mundial.
O documentário “Damas” recorda a presença de mulheres portuguesas na Primeira Guerra Mundial como enfermeiras. Uma descoberta que surpreendeu Cláudia Alves. Foi ao preparar o seu filme anterior, “A Vida nas Trincheiras” que a realizadora encontrou no arquivo da Cruz Vermelha Portuguesa o material que a conduziu ao documentário “Damas”.
O tema veio ter comigo. Estava a trabalhar na investigação de uma ficção e também de um documentário, em 2018, precisamente 100 anos depois do armistício. Olho para as fotografias de um álbum pessoal de uma dama enfermeira na Cruz Vermelha Portuguesa e digo, ‘mas isto é incrível, esta história tem de ser contada’.
Desconhecia por completo que as mulheres tinham estado na guerra. Sabia que tinha ido um contingente de soldados portugueses em várias levas, por barco e, de repente, começo a ver que havia mulheres que também tinham ido para a guerra. Achei que muitos outros portugueses também não sabiam. De facto, não havia muita coisa publicada nesse sentido e aguçou a minha curiosidade.
Havia cartas, telegramas, plantas de um edifício, um esboço daquilo que seria um hospital. Uma pessoa que estava no arquivo explicou-me que estas enfermeiras tiveram uma missão muito nobre de construir um hospital. Então, quando começo a ler as cartas, algumas delas ainda manuscritas, e ao sentir um certo tom de queixume da chefe das damas enfermeiras, pensei, ‘aqui já temos os ingredientes de uma história’, os obstáculos, os avanços, porque depois também aparecia a lista daquilo que precisavam para o hospital.
Algumas cartas eram em inglês, porque eram enviadas para a Cruz Vermelha Britânica e depois tínhamos a resposta do Ministério da Guerra. O Norton de Matos respondia, tinha os carimbos.

Durante a Primeira Guerra Mundial, enfermeiras da Cruz Vermelha Portuguesa foram como voluntárias para a França. Tinham como objetivo cuidar dos soldados feridos e construíram lá um hospital. A cineasta Cláudia Alves identificou cerca de 40 mulheres, as damas enfermeiras, e foi à procura das suas histórias de vida.
Encontrei uma listagem dessas mulheres, foram cerca de 39. Identifiquei cada uma das delas. Fui à Liga dos Combatentes e também havia lá fotografias. A primeira ideia era ir à procura das famílias, mas não encontrei assim tantas pessoas. Percebi que, ao fim de 100 anos, não deixamos praticamente rasto. Pensei que daqui a uns anos já há nenhuma memória destas mulheres.
Encontrei uma neta, que é a Luísa Beltrão, neta da dama enfermeira Maria Jesus Beltrão. Curiosamente, tinha aquilo que eu esperava que elas tivessem, que era um diário, um registo das memórias do pai dela. Um documento incrível. Tem as fotografias, ela fez a montagem e ofereceu a cada um dos netos. É um livro e aparece no documentário.
Para construir “Damas”, Cláudia Alves juntou momentos de ficção aos documentos históricos e imaginou uma personagem, a enfermeira Maria Inês Vaz Luiz, o fio condutor da narrativa.
Pensei, quero estar mais próxima delas. Quero um registo mais íntimo. Decidi escolher uma delas, entre as várias de que fui encontrando alguns dados biográficos em jornais da época. Por exemplo, no jornal “O Século”, na revista “Ilustração Portugueza”, existem referências a algumas delas. Uma era tenista, outra cantava o fado. Aí escolho o meu leque como se fizesse um casting de mulheres. Tinham origens diferentes, a maior parte era de Lisboa e de Cascais, mas algumas mulheres vinham do Minho e do Porto.
Junto isso tudo e penso, quais dariam uma história mais interessante? Mulheres que pudessem ser uma representação do grupo. E decido criar uma voz que unisse as várias peças do puzzle. Uma voz na primeira pessoa.
Está um bocadinho de mim ali, também. Portanto, juntei nessa personagem tudo aquilo que não cabia, ou não correspondia às outras, porque não quis alterar a biografia das outras mulheres. É através dos olhos desta mulher que vemos as outras. As inseguranças dela, quero ou não ir para a guerra? O que é que os meus pais vão dizer? Todas essas dúvidas surgem através da voz da Maria Inês.

A realizadora Cláudia Alves sentiu também a necessidade de recriar o trajeto das damas enfermeiras. Inclui no documentário filmagens que fez com uma câmara Super 8.
Há um complemento ao arquivo alimentado pela ficção, mas também por um arquivo que recriei através de uma câmara Super 8. Uma vez que estava em França a viver, acabo por filmar em Paris, nos sítios onde elas estiveram e também o trajeto que fizeram.
Enquanto os homens vão de barco, elas fizeram o trajeto por terra até França. Acompanhando o relato de um jornalista da altura, de um repórter, consigo seguir os passos delas até Paris, depois até Boulogne-sur-Mer e Ambleteuse. Portanto, sigo os passos delas e faço o mesmo com a minha câmara. Esse material não está todo incluído, mas há alguns fragmentos e acho que ajuda a colar as várias peças do puzzle, do arquivo, da ficção.
As damas enfermeiras portuguesas estiveram no noroeste de França, onde construíram um hospital em Ambleteuse que começou a funcionar a 9 de abril de 1918, o mesmo dia em que começou a Batalha de La Lys.
A Batalha de La Lys provocou tantas baixas e tantos feridos que não havia já vazão nos hospitais da região e então o hospital abre as portas por necessidade. Essa coincidência dá-se porque já não se podia esperar mais. Estes homens precisavam de serem curados.
O hospital das damas enfermeiras portuguesas em Ambleteuse foi desmantelado em 1919. No presente, nada assinala a presença e a contribuição daquelas mulheres.
Nesse sítio existe um campo de futebol e ao lado do campo de futebol existe um monumento. O monumento homenageia os soldados portugueses. Não homenageia as enfermeiras, mas diz que no local foi construído um hospital de guerra pela Cruz Vermelha Portuguesa.
“Damas” traz à memória a participação ativa das mulheres portuguesas enquanto enfermeiras durante a Grande Guerra. Mas Cláudia Alves quer recordar também todas as mulheres que assumiram outras funções.
Queria falar do papel da mulher na guerra. A mulher, ao participar no esforço de guerra, está a substituir o homem que foi para a frente de batalha. Portanto, não tinha necessariamente de ser enfermeira. Em França e na Inglaterra, foram ocupar o lugar dos homens na agricultura, na distribuição das cartas, foram trabalhar para as fábricas, foram motoristas.
Imagine-se uma mulher no início do século a guiar. Isso era uma função destinada aos homens. Elas vestidas com fato de macaco. Tudo isso foi uma revolução. Seja nas vestimentas, na emancipação, no facto de ganharem um salário.
Isso, para mim, foi também uma parte profundamente importante.
Para conhecer estas mulheres, fui procurar em arquivos estrangeiros. Em Portugal, apesar de também ter havido a ocupação de outras funções, esteve muito mais presente noutros países, em França, em Inglaterra.
Isso permitiu-me chegar à história destas mulheres, também por um olhar estrangeiro, que para mim foi bastante importante.
Cláudia Alves, pretende que “Damas” ajude a manter viva a memória das damas enfermeiras portuguesas e seja um exemplo para as novas gerações.
É muito importante estarmos conscientes destas lutas, não tomarmos estes direitos como adquiridos. É um caminho constante, uma luta constante. Não podemos, aliás, está à vista o que tem acontecido em Portugal e no resto da Europa e do mundo. Os direitos nunca estão completamente adquiridos. Têm de ser preservados.