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“Algumas Coisas que Acontecem ao Lado de um Rio” é o novo filme de Daniel Soares, realizador português que está de regresso ao Festival de Cannes, de novo na competição principal, onde tinha exibido “Bad for a Moment”, distinguido com uma menção especial do júri das curtas-metragens.

Como está a ser esta segunda presença em Cannes? Está a ser muito diferente da primeira participação?

Está a ser muito bom. Acho que existe uma diferença, na primeira vez estás um bocado às cegas. Estás mais a reagir ao que está a acontecer. Desta vez, já sei mais ou menos para o que vamos e consigo, desfrutar um pouco mais.

Também é um festival diferente do ponto de vista profissional. Pensando nos projetos que tens a seguir, este é um espaço de oportunidade?

Sim, vais sempre conhecendo algumas pessoas, mais até programadores, vais conhecendo e trocando algumas ideias. Mas não é algo que não procuro ativamente. As coisas vão acontecendo organicamente, sobretudo.

Vamos percorrer a narrativa do teu filme, tentando não desvendar algumas das situações. É um regresso a um lugar, a um território mais interior em Portugal que já tinhas filmado na tua primeira curta-metragem. Nesse sentido, é um filme menos urbano. É claramente um filme de verão. Um filme que imaginas durante as férias grandes, nas margens das praias fluviais e dos rios portugueses.

Sim, já tinha filmado na zona dos meus avós maternos, na Guarda, esta foi a altura de regressar, inicialmente à área de Sever de Vouga, só que depois, nessa procura de décores, fomos afastando-nos cada vez mais na realidade porque encontrávamos outras praias fluviais que funcionavam melhor para o filme. Foi, também, uma descoberta das praias fluviais, na verdade. Foi muito agradável juntar uma coisa à outra.

Fazes esse percurso para a descoberta dos locais, observando também as pessoas, os veraneantes. Tenho curiosidade em perceber isso.

Havia um argumento, mas quando faço um filme há sempre uma tradução das palavras para a linguagem da câmara, ou seja, acho que é aí que está o verdadeiro trabalho de cinema em si. Ao mesmo tempo, são sobretudo os decores e os lugares que depois influenciam onde colocar a câmara, ou até mudar uma história por causa dos lugares, ou pelas pessoas, ou por veres alguma coisa acontecer e, de repente, incluíres isso no argumento.

Tudo isso faz parte. É quase como se de cada vez que estás a fazer um take novo, mesmo antes de trazeres a câmara já estás a imaginar alternativas, opções, coisas que possas fazer ali. Isso é fixe. Gosto desse processo.

A região centro, concretamente no distrito da Aveiro, Sever do Vouga e Arouca, tem dezenas de praias fluviais interessantes. Foi complicado encontrar os lugares ideais, tinhas muitas opções, ou foi simples?

A ideia era filmar em rios diferentes que depois unimos no filme. Isso também é uma coisa que podes fazer no cinema, podes fazer parecer que estamos num só lugar ao longo do rio, mas, na verdade, a nível de produção houve ali um trabalho de mescla de vários lugares.

No filme há algo a flutuar no rio e, para isso funcionar, tinha de haver sempre uma certa corrente, não podia ser demasiada e não podia ser muito fraca. Encontrar isso não foi fácil, mas de resto foi muito agradável.

Tudo começa com um grupo de jovens que pretende fazer um vídeo para publicar nas redes sociais durante as férias. Essa é a tua primeira observação, como nos situamos num determinado espaço e o habitamos, aquilo que queremos mostrar, o que isso também revela da nossa intenção, correto?

Sim, a ideia era um pegar nesses fenómenos das redes sociais onde jovens tentam ir ao limite da vida e da morte. Tinha alguma dificuldade com a escrita então quis fazer um filme que fosse livre, em que qualquer plano seja um plano que eu desejo muito filmar e não ter nenhum plano de transição de A para B. Comecei a apontar várias cenas e depois de um ano a apontar cenas, vi que havia ali algumas ligações e foi-se criando uma história de forma muito orgânica, desta vez.

O rio serve claramente de unidade e durante aquele quarto de hora em que desenvolves a narrativa é construída em quadros ligados pelo rio. Há algo que acontece, mas é basicamente o rio que passa e personagens muito diversas, de certa forma deslocadas daquele espaço, não há uma verdadeira ligação entre as pessoas que estão a aproveitar o dia, numa floresta e na margem do rio, não há uma verdadeira descontração. O teu foco foi, a partir daí, observar como vivemos um espaço descontraído, que implica uma desaceleração, mas isso não acontece, porque há sempre uma ansiedade crescente, não é?

Eu também sinto muitas vezes esta dificuldade de estar verdadeiramente presente e acho que vivemos nessa geração com tantas coisas a acontecer, com tanto conteúdo que nos é colocado à frente dos olhos quase sem opção de olhar para o lado, inclusive mortes e imagens a que antes não estavas tão exposto. Hoje, muitas vezes pegas no telefone e já estás exposto a essas imagens e muitas vezes é um reflexo pegar no telefone e abrir aquilo e só depois percebes ‘já estou outra vez com o telefone na mão’.

É uma doença geral que existe, só que como toda a gente o faz, é normal, mas se víssemos uma só pessoa a fazer isso, estar no telemóvel, sei lá, 10 horas por dia, ficaríamos muito preocupados, mas como quase toda a gente o faz normaliza-se.

Ou seja, a ideia veio daí, também, como encontro uma verdade dentro desse filme para não ser só uma sátira, ou um filme só cínico, como tu entras nisso e como trazes humanidade colocando-te tu próprio nesses personagens.

  • tiago alves
  • 22 de Maio de 2026, 10:29

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