De Gaulle e Bardot na 27.ª Festa do Cinema Francês
De 1 a 11 de outubro, a Festa do Cinema Francês regressa a Lisboa para celebrar o cinema francófono.
Começa a 1 de outubro a 27.ª Festa do Cinema Francês com a estreia nacional de “De Gaulle: Resistência” (La Bataille de Gaulle: L’Âge de fer), de Antonin Baudry, exibido no cinema São Jorge, o primeiro de dois filmes sobre o futuro líder do país no pós-guerra. Nesta primeira parte, o realizador debruça-se sobre derrota francesa em 1940 e a partida do General de Gaulle para Londres, onde inicia a batalha política para manter viva a ideia de uma França Livre. Com Simon Abkarian como protagonista, o filme é, sobretudo, o retrato de um homem obstinado e contraditório ainda longe do herói nacional que a História consagraria.
A segunda parte, “De Gaulle: Liberdade” (La Bataille de Gaulle: J’écris ton nom), será igualmente exibida na Festa, retomando a narrativa em 1942, para seguir os últimos anos da guerra até à libertação de Paris, em agosto de 1944, e o regresso a França.
Este ano, a Festa do Cinema Francês alarga a secção competitiva a todos os países francófonos. Como resultado dessa aposta na diversidade das cinematografias que partilham a língua francesa surgem primeiras e segundas obras oriundas da República Democrática do Congo, em coprodução com a República Centro-Africana; coproduções entre França e Polónia; e ligações entre Quebec e Gana. Os seis filmes em competição revelam uma cinematografia francófona cada vez mais plural, onde as coproduções assumem um papel fundamental na emergência de novas vozes, olhares e talentos.
O crescimento ocorre também nos espaços a utilizar pela Festa. Além dos habituais Cinema São Jorge e Cinemateca Portuguesa esta edição alarga a presença ao Cinema UCI El Corte Inglés.
Na competição pelo Prémio de Melhor Filme da 27.ª Festa do Cinema Francês, vão estar seis obras que chegam à Festa depois de passarem por alguns dos mais importantes festivais internacionais. Estreado em Un Certain Regard, em Cannes, “Congo Boy”, de Rafiki Fariala, valeu a Bradley Fiomona Dembeasset o prémio de Melhor Ator. Um retrato caloroso e profundamente humano, que encontra poesia no caos das zonas em guerra.
“Du fioul dans les artères”, de Pierre Le Gall, cruza realismo social e intimidade numa história de amor entre dois camionistas. “Adieu monde cruel”, de Félix de Givry, filme que encerrou a Semana da Crítica de Cannes, transforma uma história de fragilidade adolescente num conto terno e luminoso.
Apresentado na Quinzena dos Realizadores, “L’Espèce explosive, de Sarah Arnold”, mistura noir rural, investigação policial, humor negro e psicadelismo numa comédia. Do Canadá chega “Paradise”, de Jérémy Comte, estreado na Berlinale, um filme que filme aproxima as noites vibrantes de Accra aos silêncios gelados do Quebec para explorar a solidão, a vulnerabilidade e os mecanismos de sedução online.
A fechar a selecção, “La Frappe”, de Julien Gaspar-Oliveri, com Diego Murgia e Bastien Bouillon, é um drama familiar cru e perturbador que aborda o trauma através do silêncio e das suas marcas invisíveis.
A 27.ª Festa do Cinema Francês, associa-se ainda à retrospetiva dedicada a Brigitte Bardot apresentada pela Cinemateca Portuguesa – Museu do Cinema. Atriz cuja carreira atravessou algumas das grandes transformações do cinema francês dos anos 50 e 60, em pouco mais de duas décadas, Bardot trabalhou com realizadores como Roger Vadim, Louis Malle, Jean-Luc Godard, ou Henri-Georges Clouzot, como protagonista de comédias, dramas, ou filmes de aventura.
Serão exibidas quase duas dezenas de filmes que percorrem diferentes momentos da carreira de Brigitte Bardot e revelam a diversidade de realizadores, géneros e personagens que marcaram o seu percurso.
Destaque para “Et Dieu… créa la femme!, realizado por Roger Vadim, então marido de Bardot. Estreado em 1956, lançou-a definitivamente como estrela internacional. Em “Vie privée”, de Louis Malle (1962), Bardot interpreta uma personagem ficcional inspirada na sua experiência, num retrato da fama e da perseguição incessante dos paparazzi. Com “Le Mépris” (1963), de Jean-Luc Godard, o realizador joga precisamente com essa imagem pública: na extraordinária arquitetura da Casa Malaparte, Bardot torna-se simultaneamente mulher, atriz, objeto de desejo e imagem cinematográfica. Finalmente, “Viva Maria!” (1965), outro filme de Louis Malle, coloca-a ao lado de Jeanne Moreau, outra grande atriz do cinema francês e, de certa forma, a sua antítese, numa exuberante comédia aventurosa em forma de um western passado numa América Latina imaginária.
Depois do arranque em Lisboa, a Festa do Cinema Francês segue viagem pelo país e leva a programação a mais de 15 cidades de norte a sul, entre outubro e novembro.