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31 Ago 2026

Há um assalto que corre mal, um saco do dinheiro que desaparece e todos procuram, e um jacaré furtivo que se desloca na Reboleira. “Jacaré”, a nova longa-metragem de Basil da Cunha integra um ciclo de oito obras, longas e curtas metragens, filmadas ao longo de quase duas décadas na Reboleira.

Basil da Cunha, estamos a falar de um filme que agora está em exibição nos cinemas, depois da estreia, no mês passado, na competição de longas-metragens do Festival de Locarno. Há aqui um mistério para resolver, sem desvendarmos muito do filme gostava de perceber como surgiu a ideia de soltar um jacaré na Reboleira?

Culturalmente é bastante comum no universo dos traficantes ter animais exóticos. Já tínhamos brincado nos nossos filmes com lagartos e outros animais, e como queríamos algo mais impressionante fomos buscar um jacaré.

“Jacaré” também é o nome que no bairro usamos para chamar as pessoas que são trafulhas, que são mentirosas. Como é um filme sobre uma aldeia onde toda a gente começa a desconfiar de toda a gente, e toda a gente pensa que outro é o jacaré, achamos que podia haver um eco interessante entre o animal e essa denominação.

Sem dúvida que isso explica a personagem, o animal que vai habitando a Reboleira e gerando alguma perturbação e comicidade. Foi complicado filmá-lo?

Não, é um animal bastante afável e, na realidade, foi cooperativo, deu-se bem com o que nós precisávamos, que era ter uma ligação entre essas personagens, porque é um filme com muitas personagens que retrata as várias dimensões do bairro e várias mini histórias dentro de uma história maior, onde o pessoal está à procura de dinheiro e precisávamos de uma espécie de coluna vertebral que tivesse aquela força de trazer poesia e comédia, e lá está. Na rodagem correu bem. Fomos filmar em França as partes com o jacaré, porque em Portugal é proibido ter animais exóticos, então filmámos o campo na Reboleira e o contracampo em França.

O jacaré tem também uma carapaça, não é apenas esquivo, traiçoeiro, ardiloso, é também um animal com resistência. Isso é revelador destas pessoas no contexto onde vivem?

Há várias leituras, mas mais do que saber quem que tem o dinheiro, acho que é interessante ver a forma como essas personagens se protegem e tentam sobreviver no meio onde estão.

No fundo, o dinheiro que desaparece e que se procura é, como sucede noutros filmes, de golpada, o motivo, mas aqui não é tão importante quanto isso, é mais importante percebermos as pessoas. Estamos a falar de uma obra rodada na Reboleira com habitantes do bairro. Este é um filme coral mais amplo do que os anteriores. Podemos dizer que é o teu filme mais comunitário?

A minha ambição era reunir as personagens de todos os meus filmes numa última dança, antes de passar para outra fase da nossa caminhada, sempre juntos, mas que vai ser diferente.

E aqui acho que a ideia era conseguir mostrar que há várias realidades dentro do bairro e era preciso fazê-lo através de um filme coral, ou seja, um retrato do bairro com toda a sua complexidade, com várias vozes. O que eu procurei foi dar a entender que um bairro é complexo e tem uma hierarquia, e várias realidades. Acho que o filme mostra um pouco isso, apesar de não ter conseguido, na montagem final, pôr todas as personagens que tinha filmado.

Essa questão da hierarquia é interessante, porque ao ver o filme tive dificuldade em definir justamente a hierarquia. Muitas vezes em filmes deste género há claramente uma estrutura muito bem definida na organização daquilo que as pessoas representam, na distribuição e na forma como as pessoas se organizam. Foi algo que te interessou olhar para estas pessoas que têm um determinado papel, mas estão sempre a romper esse lugar na hierarquia, a desorganizar essa hierarquia, essa ordem?

Sim, como bem disseste é difícil ter uma leitura muito clara dessa hierarquia, porque nas nossas referências, nomeadamente no cinema americano, essa hierarquia é muito mais vincada. Aqui não é o caso e acaba por ser uma comunidade onde todos partilham de um destino comum, como é óbvio.

Ao mesmo tempo, conseguimos ler que a realidade de uma mulher não é a mesma que a do homem e que nesses grupos de homens, a velha guarda e os jovens que estão a tentar subir nesse mundo também encontram pontos onde não se entendem. Também há personagens fora dessa corrida que acabam por estar ligados a essa história devido ao jacaré, que são somente pessoas que gostam de beber, comer e rir e que porventura acabam presas na história. Então, sim, é uma realidade portuguesa dos nossos bairros, diferente dos outros países.

As personagens que vemos fazem justiça a quem desempenha esses papéis?

Acho que sim. Sempre escrevi para pessoas que depois se tornavam personagens. Este filme é uma homenagem ao bairro e a todas essas personagens. Tenho a sorte de poder contar com lendas do bairro que nunca tinham entrado nos filmes anteriores e essas histórias também mereciam ser contadas. E acho que o que nós procurávamos, que era tornar as pessoas da comunidade em heróis de cinema, está conseguido.

Tentamos fazê-lo através de um cinema que eu defino como, apesar de ser exigente e político, ser um cinema que não dá as costas ao cinema popular. Então, esse filme tem um bocadinho disso, tem uma vertente se calhar mais, entre aspas, comercial. É um filme mais luminoso, mais alegre, uma espécie de filme de ação, de comédia. Não sei muito bem, mas acho que é um filme também que procura brilhar em palcos onde os nossos filmes ainda não tinham pisado. E acho que é importante chamar mais público para ver esse filme.

De heróis, disseste-o, mas também anti-heróis, não é?

Sim, os meus heróis também vão ser anti-heróis. São os personagens que eu acho mais humanos. Numa primeira abordagem, pode parecer um filme de gangsters, de bandidos, mas muito rapidamente percebemos que os nossos bandidos têm todos falhas e são muito humanos.

Quem viu os teus filmes anteriores, as curtas-metragens e as longas-metragens que foste filmando na Reboleira, bairro que habitas desde 2008, há quase duas décadas, foi percebendo que eles celebram uma cultura, um bairro muito afro e fazem-no no contexto do cinema português. “O Jacaré”, especificamente, pela complexidade que tem, pela densidade, pela coralidade que apresenta, enquanto filme mosaico, também do próprio espaço urbano, podemos considerá-lo como o filme ‘Blaxploitation’ do cinema português? É adequado ou é excessivo?

Não, acho que é uma excelente referência. Aliás, acho que o Melvin Van Peebles, que é o pai do Blaxploitation, realizou um filme, “Sweet Sweetback’s Baadasssss Song”, que, de certa forma, provocou o aparecimento de realizadores como o Spike Lee, e acho que nós estamos a tentar carregar essa herança à nossa maneira, na Europa, em Portugal, na nossa comunidade, fazendo referência àquilo que esse cinema carregou, que era a ideia de fazer um cinema político e popular.

É também política a atitude e a decisão de filmar, durante este tempo, todo um bairro que está em transformação? O bairro que vemos agora, que fomos vendo noutros filmes e que é determinante na construção visual, na dinâmica, no movimento de câmara e de ação, esse bairro ainda é aquilo que “O Jacaré” nos mostra, ou a transformação é tão rápida e tão violenta que ele já mudou?

Não, na realidade já tinha mudado. Eu tinha escrito para outros sítios e outras pessoas. Durante a rodagem, já tinha perdido 90% dos décores que tinha imaginado. Trabalhei quatro, cinco anos a pensar o filme num sítio e, de repente, esse sítio já não existia, tive de adaptar não só a maneira como pensava filmar o espaço, como também tive que adaptar-me porque certas pessoas foram expulsas, outras foram presas…

Enfim, o filme que imaginei e sonhei, em cinco anos sofreu muitas alterações, derivado ao facto do bairro estar a ser destruído e de as pessoas estarem a ser expulsas, e mais coisas da vida. Nesse aspecto tivemos de redesenhar bastante o bairro. No fundo, tivemos que reconstruir, através do cinema, uma vida que já não existia, ou seja, tudo aquilo que nós vemos, a movimentação, as festas, a vida na rua, no momento em que estávamos a filmar já não existe, então tivemos que ir buscar pessoas que já não estavam no bairro para fazer reviver o bairro durante o tempo da rodagem.

Quando a rodagem parou foi muito triste para nós, porque durante dois meses foi fantástico, estávamos a viver o bairro como era antigamente e, de repente, voltámos ao bairro naquilo que ele é agora, ou seja, um sítio muito mais vazio e com menos vida, porque pessoas que eram peças fundamentais do bairro e que faziam o bairro já não estão lá e sítios que eram fundamentais para a vida do bairro também já desapareceram.

Desse ponto de vista, o filme está cá, obviamente, tal como os anteriores, para perpetuar isso. Daqui a uns anos pode ser visto pela primeira vez como uma espécie de cápsula do tempo, haverá espectadores que vão olhar para ele fazendo essa viagem, mas imagino que isso, sendo satisfatório, te deixe também com outros sentimentos. Como te sentes em relação a essa mudança que foste vivendo, de resto, habitando também o bairro para além do cinema?

Já estive mais triste, no sentido em que este filme, para mim, é uma celebração alegre do bairro e é isso que eu vou guardar. Já me conformei com o facto de as coisas mudarem e aquilo que nós vivemos quando tínhamos 20, 30 anos já não vamos voltar a vivê-lo no futuro e vamos viver outras experiências maravilhosas, talvez em outro espaço, mas a nossa caminhada de cinema vai continuar.

O que é certo é que temos filmes para recordar paredes, casas, caras, pessoas que já não estão lá e isso é o nosso legado. É importante para as pessoas do bairro e também para que a história se mantenha viva e agora nós temos de continuar a fazer a nossa caminhada. Ainda temos muito para fazer no cinema, acho que isto é só o começo e vamos dar início a uma nova fase.

Isso pesa na decisão de mudares? Deixa de ser possível filmar ali da forma que foste filmando?

Não só, acho que é um ciclo que estamos a terminar e estamos a reclamar agora outro lugar e queremos fazer outras coisas, queremos fazer filmes de super-heróis, queremos fazer filmes de terror, queremos fazer filmes diferentes e acho que chegou o momento.

Os atores chegaram ao nível de maturidade e de experiência que já permite isso e eu também, porque fomos crescendo juntos, e agora queremos mais e queremos coisas diferentes, porque fomos evoluindo e estamos com vontade de mergulhar com tudo no mundo do cinema de género, sem abdicar da dimensão política dos nossos filmes. Mas acho que chegamos a uma fase da caminhada onde queremos outra coisa.

No fundo, há um passo em frente e uma nova etapa para inaugurar nos próximos filmes que realizarás. Como é que estás a organizar as pessoas com quem estás habituado a filmar, a forma como elas vão participar e onde é que as filmarás depois da Reboleira deixar de ser o cenário natural do teu cinema ao longo destes anos todos?

Neste momento, eu vivo lá e algumas pessoas não estão muito longe, estão no Zambujal, enfim, estão à volta, então vamos ensaiando, vamos fazendo coisas, estamos a preparar uma série neste momento para a RTP, estamos a preparar o tal filme de super-heróis que são dois projetos de época também.

Passam-se nos anos 90, ou seja, são projetos em que vamos poder filmar umas partes na Reboleira, outras na Cova da Moura e acho que a nossa família de atores também vai crescer ao pisar outros terrenos, outras zonas, e vamos tentar integrar essas pessoas no nosso mundo e acho que vão ser recebidas de braços abertos pela nossa família de atores, que vão poder ajudá-las a perceber o nosso método de trabalho.

Acho que é um espaço mental que é importante guardar mais do que um sítio físico. Acho que a nossa comunhão vai além do espaço físico e a prova é que conseguimos reunir quase toda a gente e muita gente já não morava lá e acho que ninguém vai sentir isso no filme. Conseguimos reproduzir o bairro da forma como ele era quando ele ainda brilhava.

  • tiago alves
  • 31 de Agosto de 2026, 17:58

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