“Fuck the Polis”: as viagens melancólicas de Rita Avezedo Gomes
Premiado no Festival de Marselha, o documentário de Rita Azevedo Gomes percorre os santuários de Apolo nas ilhas gregas para confrontar as origens da civilização ocidental com as ameaças do presente.
O documentário “Fuck the Polis” vai até à Grécia, percorre os espaços por onde a realizadora Rita Azevedo Gomes andou, num momento de fragilidade e de confronto com a vida:
É um filme que eu tinha a ideia de fazer desde 2007, está associado a uma viagem que fiz nesse ano à Grécia, foi a minha primeira viagem à Grécia, após ter recebido uma notícia não tão boa, que a minha vida estava por um fio.
Portanto, fui para a Grécia e foi uma experiência de uma viagem tão extraordinária, mas depois era muito difícil fazer um filme sobre mim, falar sobre a minha viagem.
Entretanto, um dia em que almoçava com o João Miguel Fernandes Jorge falei-lhe muito desta viagem, contei-lhe as coisas extraordinárias que me aconteceram no caminho e ele apareceu tempos depois com um conto chamado “A Portuguesa”.
Pensei que era sobre o filme que eu tinha feito anteriormente, afinal era um conto baseado no relato da minha viagem.

Foi o livro “A Portuguesa”, de João Miguel Fernandes Jorge, um relato poético da viagem de Teresa Azevedo Gomes à Grécia, que motivou a cineasta a ir de novo à busca das origens:
A intenção talvez possa parecer um bocadinho pretensiosa, era tentar chegar ao início das coisas e a Grécia é, como se diz, a nossa raiz, o berço da nossa civilização ocidental, que está no estado em que a gente assiste hoje em dia, não é?
É uma série de coisas que se juntam e reparo que, ao longo dos tempos, cada vez que nós, ocidentais, olhamos para a Grécia, a interpretação é outra, a nossa interpretação da Grécia tem várias faces, tem várias caras, desde os românticos. Por isso é que eu recorro aos poemas e quando a gente tem poemas do Byron ou do Kaváfis, vê as camadas de tempo, está um bocadinho presente no filme, mas é uma espécie de junção de muitas coisas.
“Fuck the Polis” é uma viagem com referências literárias e poéticas. O fascínio pelo deus Apolo e pelas ilhas gregas guiou a realizadora. Apesar de saber bem o que pretendia, foi construindo a narrativa fluida, com liberdade e improviso:
Ia tudo sendo feito quase, eu nem digo dia a dia, era hora a hora.A cada momento ia tomando decisões, muitas vezes trocávamos de funções. Todos entram no filme, estamos todos lá na imagem. Ia-se tricotando a coisa à medida que íamos avançando.
Obviamente, tinha uma ideia. Fiz o percurso que fiz em 2007. A minha viagem era orientada por Apolo, portanto eu fui aos santuários de Apolo, de aí estarmos em Delos e depois em Delfos e ia um bocado na peugada de Apolo.
Tenho um grande gosto pelas histórias mitológicas gregas, as metamorfoses do Ovídio. Acho que são espelhos da nossa mundo cá em baixo, todas aquelas coisas entre os deuses e semi-humanos, enfim, é uma espécie de reflexo da humanidade. E, portanto, fui atrás da imagem do Apolo, Deus da música, da cura e da luz.

Na ilha de Delos, Rita Azevedo Gomes percorreu os caminhos de Apolo e acompanhada de uma equipa reduzida:
O filme foi feito com muito pouca gente e algumas das pessoas da equipa são estudantes da escola de cinema Elías Querejeta, de San Sebastián, onde eu tinha estado no final de 2003 e dois deles vieram também juntar-se a esta produção.
Éramos cinco pessoas, uma pequena equipa, os dois alunos da escola e tive a colaboração do Mauro Soares e do João Sarantopoulos, que ainda por cima é de nacionalidade grega e portuguesa, portanto facilitava bastante.
O João Sarantopoulos e o Mauro Soares já tinham trabalhado comigo em condições semelhantes quando fizemos o “O Trio em Mi Bemol”, juntando estas quatro pessoas o Loukianos que conheci na Grécia, em Atenas, na noite da chegada e juntou-se a nós, também.
Em “Fuck the Polis”, Rita Azevedo Gomes faz uma reflexão sobre a sociedade e o paradoxo do mundo:
O filme fala um pouco de nós, da humanidade e da gente estar a ver o mundo a corromper-se a galope quando fomos em filmagem. Chegou-me um artigo da Académie Française, que é a entidade que se ocupa dos estudos arqueológicos em Delos que dizia que daqui a 50 anos Delos estará debaixo d’água e isto, em grande parte, devido ao excesso de turismo em Míkonos, que é o ponto de passagem para Delos, um sítio hiperturístico, barcos e barcos todo o tempo para cá e para lá e está a provocar que Delos se vá afundando.
Estamos a tentar revelar este mistério, o enigma deste sítio arqueológico e, por outro lado, estamos a deixar que se afunde porque temos de ganhar dinheiro à custa dos turistas.
O filme “Fuck the Polis” teve a distinção mais importante do Festival Internacional de Cinema de Marselha em 2025. Receber o prémio foi uma alegria redobrada para Rita Azevedo Gomes:
Foi uma grande alegria porque este filme feito a pulso, não tivemos subsídio embora tivesse tentado submeter o filme a concurso, acho que foram três vezes, mas ao fim do terceiro não, resolvi fazer o filme por mim e avancei. Uma alegria redobrada, não estava nada à espera de qualquer espécie de prémio.
É muito bom ver que há pessoas que se interessam por estas coisas que fazemos, com toda a nossa energia. É muito bom, gratificante e sobretudo reafirma, dá-nos confiança.

Rita Azevedo Gomes explica a escolha do título:
Quando voltei àqueles sítios, Delos, que é um sítio arqueológico que não foi descoberto assim há tanto tempo, que é o sítio onde nasceu Apolo e Artemisa, a irmã gémea – só a história mitológica da ilha é muito bonita e eu vou sempre atrás dessas coisas e realmente está tudo tão difícil, o turismo, as leis de museologia, de conservação, acabam por quebrar estes lugares e isso é comparável a muitas situações no mundo, estamos a dar cabo disto tudo, não é?
Quando li um poema do João Miguel que acaba exatamente ‘e na parede a negro, fuck the polis’, exatamente coincidente ao sentimento em que eu estava de desgosto, telefonei-lhe e disse, olha, posso-te pôr o título do filme? Ele gostou imenso da ideia e eu achei que já não mudava.
Depois dos filmes ” A Portuguesa” e “Trio em Mi Bemol”, Rita Azevedo Gomes realiza agora “Fuck the Polis”, um documentário sobre uma longa jornada de descoberta pelas ilhas gregas.