Guerra no cinema francês: o caso Vincent Bolloré
A contestação à crescente influência do multimilionário Vincent Bolloré no panorama cultural francês subiu de tom durante o Festival de Cannes, com a administração do Canal+ a ameaçar cortar relações com mais de seis centenas de criadores que acusam o empresário de pretender impor uma agenda de extrema-direita.
O Festival de Cannes transformou-se no palco de um duro confronto ideológico e financeiro que divide a indústria cinematográfica francesa. A controvérsia estalou no início do festival após a publicação de um manifesto no diário Libération, assinado por cerca de 600 profissionais do setor, no qual se denuncia a influência considerada tentacular de Vincent Bolloré.
A reação do Canal+, empresa controlada pelo magnata através da Vivendi, foi imediata e drástica. Maxime Saada, que lidera a estação televisiva, aproveitou o tradicional almoço dos produtores para anunciar que o canal recusará trabalhar no futuro com os subscritores do documento, recusando colaborar com quem rotula a empresa de “criptofascista”.
Entre os signatários que enfrentam este boicote encontram-se figuras de relevo do cinema francês, tais como as atrizes Juliette Binoche, Adèle Haenel e Blanche Gardin, os atores Swann Arlaud e Jean-Pascal Zadi, o realizador Arthur Harari e o documentarista Raymond Depardon. O coletivo, que se apresenta sob a designação “Zapper Bolloré”, acusa o empresário bretão de liderar um projeto civilizacional reacionário através dos seus canais de televisão e das suas chancelas editoriais. Os subscritores alertam para um risco iminente de uniformização das obras cinematográficas e de um controlo ideológico sobre o imaginário coletivo.
O pomo da discórdia estende-se igualmente à vertente económica. O grupo Canal+ é o principal investidor privado no cinema em França, tendo assumido o compromisso de injetar um montante mínimo de 480 milhões de euros no setor entre 2025 e 2027. Adicionalmente, em outubro de 2025, a empresa adquiriu 34% do capital da UGC, a terceira maior rede de salas de cinema do país, com a perspetiva de deter a totalidade das ações até 2028. Esta concentração de poder gera alarmismo entre os produtores e distribuidores, que admitem a quase impossibilidade de viabilizar projetos de grande envergadura sem o aval financeiro do operador televisivo.
Perante a escalada de tensão, o presidente do Centro Nacional do Cinema e da Imagem Animada (CNC), Gaëtan Bruel, procurou desdramatizar a tomada de posição de Maxime Saada, classificando-a como uma reação a quente e não como uma decisão irrevogável. Em declarações prestadas à rádio France Inter, Bruel lamentou o gáudio e o aprofundamento das clivagens num momento em que o setor deveria demonstrar unidade. Embora reconheça que as ameaças beliscam o princípio fundamental da liberdade de expressão e o direito à crítica, o dirigente máximo do CNC defendeu o historial do Canal+ na promoção da diversidade cultural e desvalorizou a probabilidade de um boicote efetivo.
Por seu turno, o coletivo “Zapper Bolloré” reagiu em comunicado, emitido por intermédio da agência AFP, sublinhando que as declarações da administração do Canal+ apenas validam os receios expressos no manifesto, questionando a real independência da estação face ao acionista maioritário.
Esta crise no setor audiovisual surge na esteira de uma rutura semelhante na prestigiada editora Grasset, também sob a alçada do império de Bolloré. A destituição do administrador cessante Olivier Nora e a sua substituição por Jean-Christophe Thiery, um homem da confiança do multimilionário, motivou a saída de mais de duas centenas de autores franceses. O protesto internacionalizou-se recentemente, com larga maioria dos escritores estrangeiros do catálogo da Grasset, incluindo a Nobel da Literatura Han Kang, a anunciar a decisão de não submeter mais manuscritos à editora, recusando a instrumentalização política do seu trabalho.
Vincent Bolloré tem-se mostrado imune às críticas do setor cultural, que chegou a classificar, nas páginas do Journal du Dimanche, como o ruído de uma pequena casta que se julga acima de tudo.