“Hamnet”: a paixão e as mágoas de Shakespeare
O novo filme de Chloé Zhao ficciona um episódio trágico na vida do dramaturgo inglês.
Em Hamnet, da realizadora Chloé Zhao, a vencedora do Óscar explora uma nova paisagem de florestas, verdejantes campos e céus sombrios da Inglaterra do século XVI para contar a história de William Shakespeare e da sua esposa Agnes, que enfrentam a morte do filho de 11 anos. Jessie Buckley e Paul Mescal interpretam as personagens principais.
“O que me foi revelado através da Agnes foi uma ternura que não sabia que precisava de aprender e habitar. Essa ternura mudou-me”, disse Jessie Buckley na estreia do filme em Londres. “Fez-me recordar o quão potente e poderoso pode ser o poder da narrativa. De certa forma, estabeleceu uma meta, daqui para a frente, só quero fazer filmes que sejam tão corajosos e humanos como este”, confessou a atriz irlandesa à Reuters.
Paul Mescal, conhecido por “Aftersun” e “Gladiador II”, afirmou que o filme lhe deu a oportunidade de interpretar um homem em processo de amadurecimento. “É a primeira vez que percorro um arco de tempo tão longo com uma personagem — dos vinte e poucos anos até um pouco mais tarde na vida. Foi maravilhoso”, acrescentou.
Zhao, que arrecadou vários prémios pelo seu drama de 2020 “Nomadland”, volta a ser favorita a ganhar os Óscares. “Hamnet” está nomeado em oito categorias, incluindo melhor filme, melhor realização e melhor atriz. Desta vez, Zhao leva o público numa viagem emocional pela vida doméstica de Shakespeare, vista pelos olhos da sua esposa Agnes, retratando-o mais como pai e marido do que como génio literário.
O filme é uma adaptação do romance de Maggie O’Farrell, que recorda que, na época de Shakespeare, os nomes Hamlet e Hamnet eram usados de forma intercambiável.
Passado entre Stratford-upon-Avon e Londres, mostra o jovem Shakespeare a dar aulas de latim para pagar as dívidas do pai e a apaixonar-se pela livre e espirituosa Agnes, descrita pelos habitantes locais como filha de uma bruxa da floresta.
Embora o luto e a dor sejam os temas centrais do filme, revelando como Shakespeare e Agnes vivem o processo de perda à sua maneira, há também momentos de alegria que mostram o dramaturgo como pai.
“É muito diferente, porque aqui não há pores-do-sol. Não há uma ‘hora mágica’ neste filme”, disse Zhao, referindo-se ao estilo que anteriormente lhe valeu o Óscar. “O desafio foi manter-me num só palco, numa única sala, e permanecer comigo mesma, em quietude… É muito desconfortável, mas faz parte do processo.”
“Hamnet” estreia esta semana nas salas de cinema portuguesas.