“Histórias Paralelas”: Asghar Farhadi e a vida dos outros
O realizador iraniano recupera um segmento do "Decálogo" de Kieślowski para filmar as personagens de dois apartamentos onde se misturam realidade e ficção.
Os limites morais para a criação artística inspirada em vidas privadas são colocados em causa no filme “Histórias Paralelas”, de Ashgar Farhadi, apresentado na competição oficial do Festival de Cannes.
A história é inspirada num dos episódios do Decálogo, a obra de curtas e médias metragens do polaco Krzysztof Kieślowski sobre os dez mandamentos bíblicos. Farhadi volta ao mandamento “Não cometerás adultério”, para uma nova abordagem sobre questões morais em torno da criação artística e não só:
“De início, o que me interessou no filme do Kieślowski foram as questões morais sobre o cinema em geral. Talvez de forma inesperada o que acabou por ficar no meu filme foi mais o aspecto social. Não está mencionado e não é sequer algo óbvio, mas para quem se interessar há questões sociais que podem ser analisadas.”
O realizador iraniano volta a sair do lugar de conforto da sua cultura para filmar numa outra língua e num outro país. Já tinha sido assim no filme “Todos Sabem”, de 2018, passado em Espanha com Javier Bardem e Penélope Cruz. Agora, Farhadi escolheu filmar em França, com um elenco onde constam Isabelle Huppert, Virginie Efira, Vincent Cassel e até Catherine Deneuve.

Sylvie, uma escritora interpretada por Isabelle Huppert, observa a vida do apartamento em frente enquanto imagina as personagens de um novo romance. Um jovem que está temporariamente em casa da escritora encontra o esboço do livro e, quando olha para as pessoas da casa, do outro lado da rua, vê uma realidade que julga estar a acontecer.
Asghar Farhadi entende que a linha de separação entre real e ficção é muito ténue, assim como os limites morais para escrever um livro ou, porque não, fazer um filme sobre a vida privada de alguém:
“Acho que não deve haver limites. Toda a gente deve ser livre para usar a imaginação. Mas há responsabilidade e há ética. Se alguém apresenta a sua versão, a sua narrativa como a única que existe, a única que é real e tem que ser considerada, isso não é justo.
Para mim, a relação entre a realidade e a imaginação é como se fosse um circo. A realidade dá inspiração e depois mistura-se com a imaginação e o resultado é uma ficção. E isso tem impacto, depois, na realidade.”
“Histórias Paralelas” é também uma reflexão sobre a forma como se constrói o imaginário de um criador. Asghar Farhadi podia ter feito um filme na primeira pessoa, mas preferiu mergulhar no universo de uma escritora com uma certa apetência para o caos, que encontra o rumo de uma nova história. É um argumento complexo:
“Estou ciente disso. Se tivesse escolhido ficar num lugar que já conheço, seria mais confortável. Seria fazer algo mais simples, que já conheço e sei como desenvolver, mas decidi que a personagem principal é uma escritora com uma mente aberta que vive no caos, só para nos lembrarmos do estado do mundo. Por isso, não podia escrever a história de forma linear, com uma sucessão de causas e consequências. Foi um risco que achei que tinha de tomar nesta fase da minha carreira. Sei que isso pode significar opiniões muito diferentes sobre este filme, mas precisava de fazer isto.”

As palavras de Sylvie descrevem um mundo que parece real aos olhos do jovem Adam, que decide confrontar as personagens, ou melhor, os vizinhos da frente, com a narrativa do livro que está a ser escrito. É aqui que o filme, “Histórias Paralelas”, ganha uma complexidade nem sempre fácil de entender. A história imaginada para o novo livro acaba por tornar-se incómoda e afetar os protagonistas.
Quase 40 anos depois de Kieślowski ter prolongado a curta-metragem do sexto mandamento, “Não cometerás adultério”, Asghar Farhadi encontra possibilidades para voltar à mesma história. Não espanta, por isso, que a banda sonora de “Histórias Paralelas” seja a mesma que foi composta para o filme de Kieslowski com a assinatura de Zbigniew Preisner.
A exposição da vida privada, a contaminação do real pela ficção e a forma como, tantas vezes, o cenário, do cinema ou da televisão parece atrair as nossas atenções são temas atualizados à volta das personagens e dos dois apartamentos onde desfilam real e não real.

As “Histórias Paralelas” do título são, afinal de contas, as histórias que todos nós podemos imaginar sobre as vidas dos outros num tempo em que os domínios público e privado parecem tantas vezes confundir-se:
“Todos espreitam as vidas uns dos outros constantemente, pode ser um pouco negativo, mas estamos sempre a observar os outros. É algo que temos como hábito de criança. Com o tempo, vamos perdendo esse hábito, mas, de certa forma, temos de manter esse olhar como forma de nos relacionarmos com o mundo à nossa volta.
Atualmente, temos centenas, milhares de diferentes narrativas sobre o mesmo facto, a mesma realidade. Cada um tem a sua própria imaginação e a sua própria forma de pensar. a sua própria narrativa, e temos de tentar encontrar um acesso à realidade através dessas narrativas.”
A distância entre um livro, que provém de memórias e traumas, e a história de dois irmãos e da mulher de um deles pode ser afinal muito curta e contaminada por muitas interrogações.
Asghar Farhadi desafia a plateia a questionar até que ponto as narrativas que nos rodeiam podem alterar a nossa percepção da verdade, num tempo em que as verdades construídas e as falsas realidades parecem inundar as nossas vidas.