James Gray: “Paper Tiger” é crítica à natureza transacional dos Estados Unidos
Na apresentação em Cannes do drama sobre uma família envolvida com a máfia russa em Nova Iorque, o realizador criticou a perda de valores éticos na sociedade norte-americana e defendeu a necessidade de recuperar a complexidade humana no cinema.
O realizador e argumentista James Gray afirmou aos jornalistas em Cannes que “Paper Tiger” constitui uma crítica à natureza frequentemente “transacional” dos Estados Unidos.
O drama com Adam Driver, Scarlett Johansson e Miles Teller, acompanha uma família comum que acaba envolvida com a máfia russa em Nova Iorque e encontra-se em competição pela Palma de Ouro, o principal prémio do festival.
Gray afirmou ainda que a chamada “crise da masculinidade” — tema recorrente nesta edição de Cannes — não é propriamente nova. “Sófocles já falava disso há 2.500 anos”, observou.
“O que é recente é a ideia do homem forte sem falhas. Isso é dos últimos cem anos. É disso que precisamos de nos afastar e voltar à complexidade do que significa ser humano. Foi isso que tentei fazer”, declarou.
O cineasta acrescentou que o filme critica também a lógica excessivamente mercantil da sociedade norte-americana: “Tal como o atual presidente dos Estados Unidos, que é um sintoma daquilo de que estou a falar. Totalmente transacional. Só pensa em como ganhar mais dinheiro”, afirmou. “Este ethos torna-se tudo. E o que faz isso às nossas almas? Se dissermos aos jovens que não importa serem boas pessoas ou não… deixamo-los à deriva.”
Segundo Gray, foi por isso que decidiu ambientar o filme em meados da década de 1980: “Foi o início do momento em que o mercado se tornou Deus.”
Único protagonista de “Paper Tiger” presente em Cannes, Adam Driver foi chamado a comentar assuntos laterais, nomeadamente as alegadas tensões com Lena Dunham durante as filmagens da série televisiva “Girls”.
O ator norte-americano recusou comentar, as alegações sobre comportamentos agressivos, afirmando apenas: “Não tenho comentários a fazer sobre nada disso. Estou a guardar tudo para o meu livro”, disse em tom de gracejo.
Lena Dunham, criadora, realizadora e atriz da série, acusou o ator de “Star Wars” de ter sido brusco durante a primeira cena de sexo entre ambos. Segundo escreveu no seu novo livro de memórias, Driver “atirou-me de um lado para o outro”. Dunham esclarece que não se sentiu violada, mas sim que tinha “perdido a autoridade enquanto realizadora”. Noutra ocasião, Driver terá atirado “uma cadeira contra a parede ao meu lado” após se irritar por ela se ter enganado nas falas durante um ensaio, insultando-a repetidamente.
A popular série “Girls”, exibida ao longo de seis temporadas até 2017, acompanhava uma jovem escritora egocêntrica e a sua relação tóxica e intermitente com o namorado, Adam, interpretado por Driver. A produção parecia frequentemente espelhar aspetos da própria vida de Dunham.
Envolvida na rodagem da nova versão de “O Exorcista”, Scarlett Johansson não pôde estar em Cannes, mas enviou uma declaração lida por Gray durante a conferência de imprensa.
“Sinto-me afortunada por ter feito parte de uma história tão profundamente enraizada no que mais importa: a ligação humana, a identidade e a forma como os nossos valores evoluem entre gerações”, escreveu Johansson. A atriz acrescentou ainda que o filme revela “consideração e sensibilidade pela condição humana em cada plano”