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17 Mai 2026

“A Providência e a Guitarra” tem como ponto de partida um conto com o mesmo título do escritor escocês Robert Louis Stevenson, autor dos clássicos “A Ilha do Tesouro” e “Flecha Negra”. Foi a riqueza da linguagem que agradou mais ao realizador João Nicolau:

Este conto é uma das primeiras coisas que o Stevenson publicou, portanto, podemos chamar-lhe um conto de juventude, se quisermos.

Fiquei fascinado pela descrição detalhada, bastante rica e até quase fantasiosa do personagem Léon Berthelini e, por outro lado, pela riqueza e gozo da linguagem que o Stevenson verteu e de que o tradutor para português também fez a sua versão com bastante propriedade e inspiração.

Ao contrário dos meus filmes anteriores, que tinham diálogos mais lacónicos, neste quisemos arriscar escrever um português mais truculento, quase barroco, na parte do passado, que é um passado indefinido – eles usam quatro frases para dizer “obrigado” – portanto os próprios personagens também se divertem com a linguagem. Mais até do que o tema, foi a forma que me cativou e que me levou a querer explorar a narrativa do Stevenson.

João Nicolau dá uma dimensão de aventura ao filme “A Providência e a Guitarra”. Os protagonistas são León e Elvira, um casal de artistas:

O filme acompanha as peripécias de um casal de artistas ambulantes que chega à vila de Covarronca e veem-se confrontados com a má disposição do comissário da polícia, que dá uma autorização verbal e depois exige uma autorização escrita. Todas essas peripécias duram uma noite na vila de Covarronca e são acompanhadas num registo que namora, de certa maneira, com a comédia musical, com o drama rocambolesco, mas que procurei seguir, sobretudo na forma de filme de aventuras.

A narrativa oscila entre um passado indefinido, algures na transição entre os séculos XVIII e XIX, e o presente. Os saltos no tempo acontecem de forma inesperada:

Não me quis prender a um rigor histórico. Procurei na atividade dos artistas ambulantes aquilo que é de certa forma universal e intemporal, e creio que esses ecos com o momento presente são evidentes. E, na verdade, não foi isso que me levou a construir as partes de contemporaneidade.

O filme faz esta espécie daquilo que eu chamo ‘os flashbacks do futuro’, isto é, quando o filme dá um salto no tempo não o prepara o espectador para isso. Vamos conhecer os mesmos personagens interpretados pelos mesmos atores, Pedro Inês (o Léon Berthelini) e a Clara Riedenstein (a Elvira Berthelini). Estamos fazer um flashback, a acompanhá-los no momento em que se conhecem, no momento em que se apaixonam um pelo outro. Digamos que é como se a história dos personagens andasse para trás, enquanto o filme dá um salto na temporalidade para a frente.

O argumento de “A Providência e a Guitarra” foi escrito em conjunto pelo realizador João Nicolau com Mariana Ricardo. O cineasta coloca no passado os artistas saltimbancos e imagina um grupo de rock para o presente:

As canções da banda punk rock dos “Desgraça” no momento contemporâneo funcionam mais como própria descrição do universo que o Leão Bertelini e os primos vivem atualmente.

O álbum dos “Desgraça” chama-se “Híbridos Agónicos”. Portanto, há toda uma realidade em constante mutação, em constante contaminação de várias esferas e esse disco e as duas canções que eles apresentam no tempo contemporâneo são um pouco a resposta deles a isso.

A canção funciona como a ferramenta que o casal Bertelini tem, quer seja para se anunciar, para se fazer valer e, em certos momentos, é quase uma arma, não é? Como na serenata ao Comissário, em vez de mandarem uma pedra à janela, resolveram acordar a vila com uma canção.

Numa abordagem de comédia musical, as canções escritas por João Nicolau e por João Lobo integram de forma orgânica a narrativa. A primeira preocupação foi a escolha de atores capazes de cantar e tocar:

Ao contrário dos meus filmes anteriores, o “Technoboss” e o “John From”, em que fiz castings enormes até estar perfeitamente convencido de que as pessoas escolhidas eram as certas e que podiam representar o filme, neste foi um casting bastante mais dirigido porque exige mesmo que os atores e atrizes possam tocar e cantar em direto todas as músicas. Quer as do tempo passado, que são geralmente guitarra, voz e um acompanhamento de percussão, quer as músicas dos “Desgraça”, que são a formação clássica do rock, bateria, teclas, guitarra, baixo e voz. Foram todas tocadas e captadas em direto. Isso para mim era uma condição essencial para me libertar no meu trabalho enquanto realizador.

Escolhi o Pedro e a Clara, ou seja, o casal Leão e Elvira, não escolhi primeiro um e depois o outro, escolhi pensando já no casal.

Clara Riedenstein, Pedro Inês, Jenna Thiam, Isac Graça, Américo Silva, Rui Reininho e Miguel Lobo Antunes são alguns dos atores que acompanham o elenco na estreia de Salvador Sobral como ator num filme de ficção onde não canta, esclarece o realizador:

Só faz um acompanhamento, a dada altura, isso foi um desafio. Já conhecia o Salvador antes de começar a fazer o filme e ele sempre me falou num certo desejo que tinha de desafiar a representar um papel que fosse absolutamente fictício. Ele tinha alguma experiência com câmaras e filmagens, mas que geralmente são para filmá-lo a ele enquanto pessoa pública que é.

Neste caso, fizemos um pequeno casting, divertimo-nos os dois, achámos que poderia ser e acabei por desafiá-lo a fazer um papel que é quase o oposto do que o Salvador é na vida e acho que foi um excelente trabalho. Gostei bastante de trabalhar com ele e com o resto do elenco a quem eu faço aqui o meu agradecimento.

Castanheira de Pera, Loures e Lisboa são alguns locais para onde passou a rodagem de “A Providência e a Guitarra”:

Acabou por ser possível filmar no conselho de Castanheira de Pera, a vila fictícia de Covarronca é, na verdade, uma construção de várias aldeias desse concelho, sendo depois também misturado com outros décores que não conseguimos encontrar lá. Por exemplo, o “Triunfo do Arado”, a taberna, é na zona de Torres Vedras, aquela espécie da alameda onde conhecem o Stubbs, é o Parque Municipal de Loures.

Quando passamos para a Lisboa contemporânea não só o estilo de representação muda, muito mais perto do naturalismo, a linguagem, digamos, muito cuidada e algo lúdica, do passado passa para uma realidade que reconhecemos mais contemporânea e menos cuidada. Se há partes de Lisboa que são ruas mais ou menos anónimas, também me apeteceu mergulhar o Leão nas voltas que ele dá em espaços mais icónicos da cidade, como seja a Fonte Luminosa, ou a Calçada da Bica, ou o Parque Eduardo VII.

“A Providência e a Guitarra” foi o filme de abertura do Festival de Cinema de Roterdão, uma obra em que o cineasta João Nicolau traz a dimensão do que é ser artista:

Agora que já começo a ganhar alguma distância do filme, creio que a honra acaba por ser, digamos, um dos aspetos mais trabalhados no filme. Mais do que a caracterização rigorosa do que seria o trabalho dos artistas ambulantes nessa altura interessou-me as consequências práticas que a postura ética dos Berthelini trazia, quer para a sua vida social, que está bem patente no encontro com o comissário da polícia, ou quando encontra este estudante de Cambridge a quem tentam desviar dos estudos financeiros, na própria relação entre eles, como casal, quer na própria relação com eles próprios, em que se põem dúvidas, em que se questionam. E as consequências práticas dessa postura ética, obviamente, trazem a questão da honra.

Foi um pouco esse desafio que quis lançar ao espectador, poder refletir, divertindo-se sobre essas questões.

Depois das longas-metragens “A Espada e a Rosa”, “John From” e “Technoboss”, João Nicolau realiza “A Providência e a Guitarra” e conquista o Prémio de Melhor Realização no Indie Lisboa 2026, com um drama rocambolesco que é, também, uma forma de comédia musical.

  • Margarida Vaz
  • 17 de Maio de 2026, 11:59

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