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16 Jul 2026

O novo filme do cineasta brasileiro Karim Aïnouz é “Rosebush Pruning”. É uma sátira, colorida e sombria, está em exibição nos cinemas portugueses neste verão, após a estreia no Festival de Berlim, e acompanha uma família bem complexa. Vamos falar disso com o realizador que é convidado do Cinemax.

O Karim está em Portugal a acompanhar as sessões de estreia do filme, que pode ser visto a partir desta segunda quinzena de julho. É muito adequado ver o filme nesta estação, não é?

Acho que sim, é um filme que tem o calor do verão, digamos assim, então eu acho que é uma estação adequada mais do que o outono, eu diria.

Por causa da floração, obviamente, as roseiras são podadas na maturidade, por causa dos tons, por causa da água que se espalha no filme, elementos interessantes de que falaremos detalhadamente mais adiante.

Entretanto tenho de partilhar uma referência para muitos cinéfilos, ao filme do cineasta italiano Marco Bellocchio, que inspira, de certa forma, este poda das roseiras, o “Rosebush Pruning”. O que é que esse filme desencadeia a inspiração para esta nova história?

Há muitas coisas, é bom a gente falar do filme do Bellocchio, porque o filme foi feito no ano em que eu nasci, tem uma coincidência aí que não é pequena, mas isso é um detalhe, uma brincadeira.

O filme, a primeira longa-metragem de Marco é Bellocchio “De Punhos Cerrados”, é de 1965.

O filme desencadeou um debate importante, na época, sobre a revolução, sobre mudanças sociais, sobre privilégios, sobre classe, e eu acho que a gente tentou fazer no “Rosebush Pruning”, pensando um pouco nesse filme como uma espécie de planta baixa, foi muito parecido, como é que um filme pode ser disruptivo do momento que a gente está vivendo, e a gente está falando de alguns temas que são comuns ao filme do Bellocchio, mas de temas que são também absolutamente contemporâneos, que é o acúmulo financeiro, os super ricos, o isolamento dos super ricos, o quão venenoso esse fenómeno todo pode ser.

A última coisa com relação ao filme do Bellocchio é que tem um frescor no filme do Bellocchio, é um primeiro filme, e eu estou fazendo, sei lá, deve ser meu décimo filme, então eu sempre tento, quando qualquer filme que eu estou fazendo, que tem essa espécie de tesão do primeiro filme, essa espécie de pulsão, e essa anarquia que o primeiro filme tem, eu acho que isso contaminou muito a ideia de como que a gente pensou nessa adaptação, e no que essa adaptação tem, uma espécie de aura de anarquia, que ajudou a gente a pensar a história do “Rosebush Pruning”.

A questão da classe é um bom ponto de partida para olharmos o filme, porque este é um filme tão de classe, até nos valores de produção, que privilégio poder filmar com este decor, nestes lugares, com este guarda-roupa, com este elenco, como é que se chega aqui, Karim?

O filme, ele fala exatamente de uma coisa que vem me assombrando muito depois da pandemia, acho que a pandemia chamou a atenção para o nosso isolamento, que depois virou algo que é uma pauta que me assombra mesmo. Como algumas pouquíssimas pessoas,estão acumulando mais e mais dinheiro e como é que essas pessoas se isolam, e oprimem a quem está do outro lado da moeda. Então, eu acho que tudo isso foram coisas que foram inspirando a gente a fazer um filme que tenta traduzir o que é estar nesse lugar.

É um filme que se passa numa casa luxuosa, é uma família americana que vem morar na Europa, mas que, na verdade, continua morando na América, que não interage de jeito nenhum com a cultura local, nem com as pessoas que estão morando na Espanha, o filme é filmado na Catalunha.

E fala do luxo, do luxo da moda, da como essas questões, hoje em dia, é como se a gente pudesse comprar a nossa identidade, quem quero ser, vou ali e compro a identidade de um designer com a do outro.

Então a questão de classe é muito presente no filme, a questão de vingança de classe também é muito presente no filme. É uma coisa que me interessa, então eu acho que isso veio como uma espécie de semente fundadora do filme, fez com que a gente tenha um figurino exuberante, muito das peças que estão no filme são peças dos acervos dos grandes designers, da Chanel, da Dior, enfim, de várias marcas que são marcas, mas enfim, a moda também é tratada aqui com muito senso de humor. O filme tem um senso de humor que é importante a gente falar e tem, de fato, um elenco do qual eu tenho muito orgulho, muito carinho, um elenco de atores de um calibre global, americanos e ingleses. Para mim era muito importante trazer a língua inglesa para o filme, a língua mais colonial possível, então todo mundo fala inglês, mas porque na verdade é fruto de uma história colonial, e também de trazer atores que pudessem um pouco me ajudar a cruzar essa fronteira do cinema de arte.

O filme é uma saga de família, que se tivesse sido feito em uma língua que não era o inglês e com atores que não eram globalmente conhecidos, eu me pergunto qual teria sido o alcance dele, se a gente teria agora falando desse filme nesse momento. Ele tem um alcance de público, que é a ambição de qualquer filme, desse especificamente, pela escolha desse elenco, mas evidentemente que também não é só uma escolha estratégica, acho que são artistas ali que tem uma espécie de irreverência e uma espécie de provocação magnética com o público, que eu acho importante, passando por quase todos eles, um filme que tem atores de nova geração, atores que são atores mais consagrados, mas era muito importante que o luxo que a gente está falando do filme também contaminasse tanto o elenco quanto todos os outros elementos.

A questão do elenco, sendo o Karim um cineasta brasileiro, mas também a trabalhar na Europa, é muito interessante. Sobressai a Elle Fanning, pode parecer óbvio, mas sobressai. Há algo que queiras dizer sobre os atores com quem trabalhaste, aquilo que eles te deram, as dificuldades que possam ter criado, embora estejas habituado a filmar em inglês. “Firebrand”, por exemplo, outro filme recente e de época, também foi uma produção que se enquadra nesse contexto mais internacional, anglo-saxónico, mas gostaria de te dar espaço para deixares alguma nota sobre os atores…

Esse filme é um pouco um pulo no abismo, é muito arriscado, divertido, mas ao mesmo tempo tem uma história muito ousada, então trabalhar com esses atores foi muito divertido, porque acho que eles também queriam se divertir.

A gente não sabia exatamente qual era o tom, o filme mistura sátira com um certo realismo, então tinha um desafio ali para os atores que é muito instigante e que foi muito delicioso assim pensar nesse elenco que se tornou uma espécie de conjunto – o filme é uma história de uma família com um personagem xterior à família, que é a personagem da Elle Fenning, a Martha, namorada do filho mais velho dessa família.

A gente se deu a mão e falou, ‘isso aqui é uma família, isso aqui vai ser uma história que a gente vai contar, onde a gente está um pouco descobrindo’. É como se a gente tivesse pego um número grande de estrelas cinematográficas e fossem juntos fazer uma peça de teatro, quase assim, o filme tem um elemento teatral, um elemento de artifício, foi muito divertido, não me lembro de momentos, lembro-me de momentos muito prazerosos. Foi a primeira vez na minha vida que eu trabalhei com sátira. Há uma cena do filme que eu sou muito orgulhoso dela, que está aí nas redes, acho que é uma cena de um almoço, e foi a primeira vez da minha vida que eu tive que parar uma filmagem, porque estava rindo muito alto atrás do monitor ali perto do set.

Eu acho que a marca registada deles é a curiosidade, é um elenco muito aventureiro, assim, então isso foi muito bom. A Elle Fanning, como você falou, realmente é extraordinária ali. Ela me contou uma vez que começou a estar em set de cinemas com quatro anos,  então ela tem uma compreensão, do espaço, dos gestos, tem uma cena no filme que pra mim também foi um aprendizado enquanto diretor, é uma cena que eu acho que tem quatro páginas de roteiro, são 4, 5 minutos de cena, onde quase todas as falas são do Calum Turner e ela reage às falas dele com um olhar, assim, então eu acho que tem um refinamento e uma maneira tão mágica, assim, de dialogar sem a linguagem, que eu acho que ela foi aprendendo ali e disso ela tem um talento incrível, então foi um presente, poder estar com ela num filme e eu acho que ela é um dos personagens mais surpreendentes, talvez, da história, sem querer aqui contar nada de mais, é um elemento estranho, digamos assim, também perturbador.

Esta é uma família ampla, temos aqui um pai, um homem cego, e irmãos que vivem nesse espaço muito confortável, fechado, que se exprimem através de marcas, de modas, de referências muito de classe e a Elle Fanning vai criar aqui uma perturbação nesse equilíbrio das relações.

Para quem nos ouve e lê é importante, quando for ver o filme, dar atenção à cena do almoço em que a personagem de Elle Fanning é apresentada à família, porque isto que o Karim revelou permite ver essa cena com outro olhar.

A questão da luta de classes, não passa, neste contexto, por algo recalcado no passado familiar, até porque enquanto filho único esta não é propriamente a tua família? Correto? Podemos marcar essa distância?

Certamente não. Para o bem e para o mal podemos marcar essa distância, certamente.

Aqui, a revolta que acontece num filme sobre classes e que acentua isso de uma forma muito exagerada e muito exuberante, é estruturada em torno do papel do patriarca e é esse papel que temos que questionar, para entrarmos nas linhas temáticas do filme?

É, é engraçado, quando você falou aí do filme de inspiração que é o filme do Bellochio, a grande mudança que a gente fez foi tirar o personagem central da história do filme do Bellochio, que era uma matriarca, e transformá-la num patriarca. Então, o filme fala do abuso desse patriarca dentro da própria família, é um filme que fala de incesto, que fala de abuso de poder, que fala de envenenamento, eu diria.

Até porque também, entre os irmãos, no elenco familiar, só temos uma rapariga, uma irmã, uma mulher.

Que é a Riley Keough, que tem o papel da Anna, então, o que era muito fascinante para mim era entender as consequências do abuso, não só do abuso sexual, mas do abuso de poder que o patriarca tem em relação à sua família e como que isso os mantém presos ali.

Então, é uma família que é completamente isolada e vive em torno desse patriarca, que é um patriarca cego, inclusive, então, ele é cego em todos os sentidos, no sentido metafórico, o poder dele é cego, a atuação dele tem a ver com a cegueira dele.

Então, ele é um filme superlativo, eu diria, mas o que eu acho fascinante dessa história, por isso que eu decidi que era uma história que precisa ser contada, é que ela também tem um lado que me interessa muito.

Eu acho que, como brasileiro, a gente tem uma coisa, a gente é meio otimista patológico, a gente está sempre vendo algo de positivo no negativo, e para mim o que foi muito gostoso e interessante de contar essa história é que você tem, de fato, uma história que é pesada. A história desse pai, que é um pai inspirado em muitas pessoas que a gente tem lido nas revistas e nos jornais nos últimos anos, mas ao mesmo tempo eu acho que é um filme que fala muito de esperança.

O amor da personagem da Martha pelo Jack, é o que faz com que esse estado de coisas comece a se estilhaçar.

O filme tem isso, todos os filhos são um pouco crianças de 13 anos no corpo de alguém de 30, então eles são essas crianças que nunca cresceram, e o personagem do Callum Turner, que é o irmão do meio,  quando se apaixona por alguém ele também questiona o estado de prisão que eles vivem dentro dessa família.

De um lado sim, o filme fala de questões que a gente está vivendo hoje no quotidiano, que são muito assombrosas mesmo, mas ao mesmo tempo tem uma ironia em relação a isso e uma possibilidade de redenção, eu diria.

O que nos leva para a paleta de cores, obviamente o vermelho carregado das rosas que são cuidadas e podadas, remetendo para o título, e o azul do Mediterrâneo que inunda o filme em determinado momento. E aqui temos, nesta paleta, duas definições, uma sangrenta de poder masculino, e o azul eventualmente como o elemento água mais feminino. Podemos interpretar assim?

Podemos, é engraçado, como diretor, você vai fazendo o que está no papel, o que passa a ser imagem, e depois que o filme foi lançado, essa pergunta me veio algumas vezes, com relação à água principalmente, e eu confesso que esse filme tem uma coisa bonita que eu adorei fazer como diretor, é que são coisas que estão ali, mas que eu não necessariamente planejei, é como se o inconsciente tivesse imposto aqui.

A água apareceu, uma piscina redonda apareceu, foram escolhas que a gente foi fazendo, acho que tinha algo tão forte na história, que essas escolhas foram sendo feitas de maneira muito intuitiva, mas certamente eu acho que a cor vermelho, eu acho que o sangue, eu acho que certamente a água e a cor azul, e uma vontade grande, eu me lembro quando estava pensando de como você transpõe o que está na página para o que vai ser o filme, eu fiquei me lembrando muito, sei lá, do “Chapeuzinho Vermelho”, do “João e Maria”, dos contos dos irmãos Grimm e dos contos do Anderson, que são contos sobre coisas assombrosas, mas que são feitos, alguns com aquarela, outros são feitos para crianças. Este filme não é feito para criança, mas eu acho que há ali uma vontade de a gente poder também falar de assuntos dos quais a gente tem uma fatiga enorme de falar, porque já estão quase exauridos.

Falar de Epstein hoje em dia é um negócio que é necessário mas ao mesmo tempo é quase como se a gente tivesse se cansado, o que é um problema, a gente não pode se cansar de falar desses temas.

E o filme muda completamente a abordagem de algo que nos cansa…

Exatamente, e eu espero que ele seja mais magnético do que cansativo.

Acho que estamos a traduzir isto sem desvendar muito através das referências cinemtográficas. Há outras que é preciso encarar, obviamente os tons e o significado dos tons e dos elementos cénicos, o guarda-roupa, a figuração de Pedro Almodóvar…

Ah, meu Deus do céu, eu sou um super fã dele, não só de agora, cada vez que tento fazer cinema e penso continuar a fazer cinema, ele me inspira enormemente, então eu diria de duas coisas com relação ao Almodóvar.

A primeira é que a gente tem alguém na nossa equipe que é a Bina Daigeler, uma figuranista alemã baseada na Espanha que já trabalhou com o Almodóvar, que é genial e foi realmente um sonho trabalhar com ela. Tem um senso de humor que é também muito bonito.

Falámos do Bellocchio, como uma das grandes inspirações desse filme, mas uma das grandes inspirações desse filme são os três primeiros filmes do Almodóvar. Foram filmes com uma irreverência, um senso de humor e um senso de alegria ao mesmo tempo, um senso de crítica social… eu fico pensando em “Pepi, Luci, Bom y otras chicas del montón” que é um filme que ele faz ali logo depois da carreira nas curtas-metragens, fico até arrepiado de falar disso, porque tem mais do que qualquer coisa esse senso de vitalidade e de ironia que os filmes dele tem e sempre tiveram, mas ao mesmo tempo sem nunca renunciar a um cinema que é absolutamente bem próximo do coração.

Quando vi o filme pensei no Yorgos Lanthimos e, especificamente, no “Sacrifício de um Cervo Sagrado” com a Nicole Kidman. Pode parecer um disparate, mas este filme também se insere no chamado novo cinema grego.

Sem dúvida, na verdade, o meu grande colaborador desse filme é o Efthimis Filippou, que é o roteirista que vem colaborando com o Yorgos desde o começo. Certamente ele pisca o olho para o novo cinema grego, que começa ali na década de 2000 e, sobretudo, com uma espécie de senso de humor que é muito, muito preciso. Ele tem um senso do absurdo que, uma das coisas mais divertidas de fazer nesse filme foi brincar com a possibilidade do absurdo.

  • tiago alves
  • 16 de Julho de 2026, 18:48

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