Khrzhanovsky leva o aguardado “DAU” a Veneza após polémica com a Ucrânia
Uma epopeia de 195 minutos acompanha a vida do físico Lev Landau. A estreia em Veneza encerra duas décadas de um projeto artístico criticado pela Ucrânia como "propaganda russa".
Um filme rodado numa época em que a guerra entre a Rússia e a Ucrânia parecia impensável chegou finalmente a Veneza, com o realizador Ilya Khrzhanovsky a apresentar “DAU”, um projecto desenvolvido ao longo de 20 anos e que tem suscitado fascínio e controvérsia.
O Governo ucraniano contestou a decisão de exibir o filme de língua russa no Festival de Cinema de Veneza, argumentando que não deveria ser apresentado num dos mais prestigiados eventos cinematográficos do mundo enquanto Moscovo prossegue a guerra.
Khrzhanovsky, que renunciou à cidadania russa em 2024, afirmou que a sua oposição à invasão foi clara desde o início e acrescentou que esperava uma vitória de Kyiv. “Comecei a filmar este filme numa altura em que era absolutamente impossível imaginar qualquer tipo de guerra entre a Rússia e a Ucrânia”, afirmou na conferência de imprensa em Veneza.

Ao longo de mais de três horas, “DAU” recorre a um vasto elenco de atores, cientistas, artistas e intelectuais para contar a vida do físico soviético Lev Landau, vencedor do Prémio Nobel e conhecido como “Dau”, cuja vida incluiu feitos científicos, prisão, trabalho no programa nuclear soviético e uma vida sexual marcada pela promiscuidade.
Inicialmente concebido como a biografia convencional do génio atormentado que morreu em 1968, o projeto evoluiu para uma vasta experiência artística que deu origem a vários filmes, livros e exposições.
Para concretizá-la, Khrzhanovsky supervisionou a construção, na cidade ucraniana de Kharkiv, de um enorme cenário inspirado no instituto de investigação soviético onde Landau trabalhou, produzindo centenas de horas de filmagens entre 2008 e 2011.
O realizador conta que deixou depois o material praticamente intocado durante mais de uma década. “Comecei este filme há 20 anos”, afirmou. Depois, “convidei outra personagem para o meu elenco principal, a personagem mais importante: o tempo”, acrescentou.
Khrzhanovsky afirma que os anos decorridos entre as filmagens e a montagem alteraram profundamente a sua compreensão do material. “O tempo também mudou a minha própria percepção de… como posso falar sobre isto e como posso montar”, explicou, comparando a montagem com a forma como a memória transforma continuamente a compreensão que as pessoas têm dos acontecimentos e das experiências.
Ao contrário dos filmes mais experimentais que emergiram do universo de “DAU” e foram exibidos em Berlim em 2020, o filme em competição em Veneza é uma epopeia histórica que acompanha a vida de Landau tendo como pano de fundo uma União Soviética frequentemente cruel e brutal.

O papel principal é interpretado pelo conhecido maestro de origem grega Teodor Currentzis, que não esteve presente em Veneza. Currentzis tem sido alvo de atenção desde a invasão da Ucrânia por não ter criticado publicamente o Presidente russo Vladimir Putin e por manter relações profissionais com a Rússia.
Questionado sobre o assunto, Khrzhanovsky recusa condenar o silêncio do maestro. “É a escolha dele, não fazer essa escolha, e a minha escolha fazê-la”, afirmou.
A dimensão do projeto e os seus métodos pouco convencionais acabaram muitas vezes por se sobrepor à própria obra. Para Khrzhanovsky, o longo processo de criação fazia parte do propósito do filme. Comparando “DAU” a um edifício concebido para durar, em vez de uma estrutura destinada a uma utilização temporária, afirmou esperar ter criado algo capaz de resistir à passagem do tempo.
“A arte não pode mudar o mundo”, explica. “Mas talvez possa, por vezes, transmitir alguns sentimentos e emoções e mais energia para algumas pessoas sobreviverem espiritualmente e emocionalmente nos dias bons e nos dias sombrios.”
“DAU” é um dos 21 filmes que competem pelo Leão de Ouro de Veneza, que será entregue no sábado.
FOTOS: Phenomen Berlin e Andrea Avezzù – Cortesia Archivio Storico La Biennale di Venezia