“L’Aventura”: o retrato de uma família em férias
O mais recente filme de Sophie Letourneur, propõe uma viagem crua e divertida aos conflitos inevitáveis da convivência familiar em férias.
“L’Aventura” faz parte de uma trilogia imaginada por Sophie Letourneur, na sequência de “Viagem a Itália”. Os dois filmes foram escritos ao mesmo tempo, e tem como base uma ideia da filha da realizadora francesa:
A ideia foi da minha filha Claudine, que em 2016 tinha nove anos. Trabalho em casa, por isso ela ouviu-me falar. Sabe que gravo muitas coisas. Já tinha feito outros filmes, também baseados no princípio da narrativa áudio, ou seja, da recordação sobre a forma de conversa. E disse que queria ter o papel principal no meu próximo filme.
Portanto, tal como o filme, isto também é uma história da procura de um lugar na vida. Afinal, é também a Claudine que procura o seu lugar nesta família reconstituída.
Na verdade, toda a gente procura um pouco o seu lugar neste filme. Foi a minha filha que teve essa ideia, essa vontade de registar as nossas férias à medida que elas se desenrolavam, e de fazer um filme com isso e de se tornar a heroína desse filme.
As gravações originais que a filha fez durante umas férias foram o guião. “L’Aventura” reproduz esse registo:
O filme é mesmo uma reconstituição, palavra por palavra. Naquela época, Claudine tinha nove anos. Agora tem 20 anos. Ela gravou o mesmo relato das nossas férias e foi a partir desse material que escrevi o filme.
Foi ao ponto de, durante o filme, usarmos os auscultadores Nos ouvidos. Ou seja, eu, o Philippe e a Bérénice, que interpreta a Claudine, ouvíamos a montagem áudio dessas gravações que repetimos palavra por palavra. Por isso, são as mesmas gravações reais que temos nos ouvidos e que repetimos.
“L’Aventura” acompanha as férias de verão de uma família na Sardenha, em Itália, a partir das gravações que Claudine fez com a mãe, com o padrasto e com o irmão de três anos, Raoul. Bérénice Vernet, Esteban Melero, e Philippe Katerine compõem o elenco. A cineasta Sophie Letourneur tem uma tarefa dupla, além de realizar, assume o seu próprio papel, o da mãe:
Há tanto tempo que trabalhava neste guião que, na verdade, sabia os diálogos de cor. Por isso, não exigiu qualquer esforço. No fim de contas, também me ajudou a dirigir os outros atores.
Mesmo na minha relação com a Bérénice Vernet, que interpreta a Claudine, com o Philippe, era importante que fosse eu a interpretar a personagem e que também me ocupasse das gravações e das bandas sonoras, porque as conheço tão bem, que, por vezes, quando era complicado para os outros, também conseguia corrigir algumas coisas.

O filme mostra as peripécias de um casal com crianças, o bom e o menos bom que acontece durante as férias e os sentimentos que despertam quando estão todos juntos:
Há uma espécie de ambivalência, digamos, em partilhar coisas em família, porque os sentimentos são tão intensos assim como as mágoas. Quando há amor, inevitavelmente, há sofrimento e quando passamos muito tempo juntos, amontoados uns sobre os outros, nas mesmas divisões, isso cria dramas. Para mim, ficam evidentes as dificuldades das relações afetivas na imagem da família em férias, perfeita, onde tudo corre bem.
Levantamo-nos, descansamos e encontramos o nosso lugar. Não é assim, mas é antes o momento que revela a complexidade quase psicanalítica da relação que temos com o pai, com a mãe, com a irmã, com o irmão, e como tudo isso, no fim de contas, é um emaranhado de conflitos que vamos arrastar por toda a vida.
Sophie Letourneur segue o ritmo de uma road trip, não só ao longo da estrada na Sardenha, mas também é uma road trip emocional que desafia o público a participar nessa viagem:
Por vezes, acho que até é uma road trip um pouco alucinogénia. É verdade que na montagem trabalhei bastante essa particularidade, ou seja, ter um ritmo realista e, ao mesmo tempo, ser um pouquinho diferente. Ou seja, estar sempre um pouco acima da realidade e haver um desfasamento na forma de representar, nas transições, ou nos ritmos da montagem. Interessava-me fazer com que o espectador também entrasse nesta viagem.
Os avanços e recuos na narrativa são intencionais. A realizadora Sophie incluiu os flashbacks logo na escrita do guião:
Desde o início, escrevi o filme com os flashbacks. Esta estrutura estava prevista. Houve ajustes na montagem, claro, mas a estrutura estava prevista. O que fiz, também, foi ir com os meus filhos verdadeiros aos locais e fazer a maqueta do filme.
Costumo fazer isso antes de começar as filmagens. Faço todas as cenas antecipadamente, nos locais, muitas vezes com figurantes e faço uma primeira montagem do filme para ter uma ideia geral. Isso permite-me fazer reconhecimentos do local, mas também aperfeiçoar o guião e não trabalhar apenas no papel.
Gosto de estar já imersa no material para tomar decisões antes das filmagens. Permite-me também fazer um storyboard muito preciso.
Como eu própria atuo no filme, isso facilita o trabalho com a equipa. Já tinha trabalhado essas transições, essas idas e vindas e esses flashbacks na maqueta do filme.
Há uma analogia nos filmes de Sophie Letourneur com a obra de Roberto Rossellini e de Antonioni que reflete a admiração que a cineasta sente por Itália e por estes realizadores italianos:
A minha escolha pela viagem à Itália é curiosa porque, para nós, a Itália é o país do romantismo e, por isso, achei engraçado que o casal decidisse passar quatro dias na Itália para fazer as pazes e, no final, acabasse também por ir a Itália com os filhos e com personagens quase aristocráticas que podem surgir em “L’Aventura”, ou mesmo em “Viagem à Itália”. Mas, para mim, não há temas pequenos, nem temas grandes.
O filme trata de uma história mais aberta do que simples e trivial. A ligação aos filmes dos mestres italianos foi porque considerei interessante confrontar esta simplicidade com a espécie de monstros do cinema considerados como algo de muito elegante. Quando estava a estudar, também, tomei contacto com as suas obras.
Eles foram os primeiros a fazer a mistura entre documentário e ficção, em particular em “Stromboli”, ou em “Viagem a Itália”.
Ao mesmo tempo, são uma referência porque são filmes de que gosto e, ao mesmo tempo, uma construção em oposição ao meu trabalho porque faço questão de filmar a classe média e o turismo de massa, seja o turismo romântico, ou o turismo familiar, mas que andam de férias e essas coisas.
Sophie Letourneur está a preparar o último filme da trilogia. Segue a linha dos anteriores e terá o título “Divórcio em Itália”.
“L’Aventura” teve estreia em Cannes em 2025, na secção Acid. É uma comédia que faz o retrato com humor de uma família em férias a partir do olhar de uma criança. A partir desta semana está em exibição nas salas de cinema portuguesas.