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27 Out 2026

Em “Memórias do Cárcere”, o realizador Sérgio Graciano filmou o escândalo amoroso, entre Camilo Castelo Branco e Ana Plácido, presos na Cadeia da Relação, no Porto, em 1860. É um filme sobre Camilo, é um filme sobre este amor proibido, é um fresco de época, um filme diferente para Sérgio Graciano. Diferente, fazendo a ligação obvia com filmes biográficos recentes dedicados a Mário Soares, a Álvaro Cunhal e, sobretudo, a Carlos Paião, porque vimos esse filme biográfico no verão passado, nos cinemas.

Neste reencontro, alguns meses após termos conversado sobre “Playback” é preciso realçar que ter dois filmes a chegar às salas de cinema no mesmo ano é um privilégio para um realizador português?

É, mas, na verdade, depende dos filmes. Mas, sim, neste caso é um privilégio, é sinal de que pelo menos eu filmo muito e eu gosto muito de filmar. E é bom, acima de tudo, fazer dois filmes tão diferentes e é isso que me empurra para fazer mais e filmes mais diferentes.

O que é que determinou este regresso a Camilo? Tendo em conta que é um filme produzido por Paulo Branco, que tem uma relação enquanto produtor com a literatura portuguesa e internacional. A motivação parte do produtor, ou há alguma motivação específica tua enquanto cineasta?

Parte do produtor completamente. Confesso que nunca me passou pela cabeça fazer Camilo. A herança é pesada, porque vem do Manuel de Oliveira e vem do Ruiz, e é uma herança sempre difícil de lidar. O Paulo tinha muita vontade de filmar mais uma vez o Camilo e seduziu-me com um convite, que depois, apesar de não pensar muito no Camilo, foi irrecusável para mim.

É sempre muito desafiante adaptar o Camilo aos ecrans. Li “As Memórias do Cárcere” antes de começar a filmar e li mais a obra do Camilo, e é inacreditável descobrir este autor que é especialmente cinematográfico e dá muita vontade de filmar.

Fui falando com o Paulo para perceber que filme é que ele tinha na cabeça e gostava de fazer, fomos trocando ideias e assim chegámos a este resultado, mas foi do Paulo a grande vontade para fazer este filme.

Referes abordagens ao universo literário de Camilo no cinema que são de maior impacto: “Francisca” e “O Amor de Perdição” de Manuel de Oliveira. Raul Ruiz tem um filme na história do cinema português que é extraordinário para muitos espectadores, “Mistérios de Lisboa”. Esses filmes orientaram de algum modo o teu olhar, na abordagem às “Memórias do Cárcere”?

Sim, nem que seja porque voltei a vê-los, e obviamente que influencia sempre, não é? Mas o que quis acima de tudo foi fazer um Camilo ligeiramente diferente daqueles que tinha visto, nem melhor nem pior, só diferente. Quis muito humanizar este Camilo, quis que ele tivesse os sentimentos que os homens têm, as emoções que os homens têm e, nesse sentido, afastei-me, creio eu, um bocadinho dos outros, que eram uns super-heróis quase.

Por isso, quando vi os filmes do Ruiz e do Oliveira, tive uma certeza que foi sair um bocadinho daquele Camilo, mas inspirando-me naquilo que estava a ver, e eu acho que este filme, com o devido respeito, toca num bocadinho em cada um deles.

Há uma dimensão interessante, neste regresso à escrita de Camilo, sobretudo à relação com Ana Plácido. “Amor de Perdição” tem essa dimensão determinante na escrita romantizada de Camilo Castelo Branco, mas “Memórias do Cárcere” dá uma dimensão de amor proibido e contrariado pela sociedade do século XIX. Coloca o casal numa dimensão mais parecida, do ponto de vista mitológico, se quisermos, com a história de Inês e Pedro, uma das maiores histórias de um amor proibido. Tens a sensação de que mudas a forma como olhamos para Camilo e Ana Plácido?

Bom, não sei se mudo, mas a verdade é que tento mudá-la. O Carlos Saboga escreveu este guião dando prioridade ao Camilo na cadeia a cruzar-se com estas personagens todas, que conhecemos do livro. Também temos a Ana Plácido, mas achei que tínhamos que carregar um bocadinho mais na Ana Plácido. Então, estabeleci uma relação quase esotérica entre os dois, uma relação que não tinha no que estava escrito, mas decidi mostrá-la quase como se fosse um fantasma a acompanhar sempre um e outro.

Ou seja, esta presença é uma presença muito diferente do resto dos filmes, tanto do Ruiz como do Manoel.

Também os filmes são diferentes, naturalmente, mas eu queria que esta relação fosse mais presente, mais próxima das pessoas, para acabarmos por sentir aquilo que eles dois sentiam enquanto estavam presos.

É difícil fazer este tipo de adaptações porque há sempre muitas leituras, toda a gente acaba por ser próxima do Camilo e da sua obra. Eu, tentei puxá-lo um bocadinho mais à terra, tendo estes momentos quase esotéricos e fazer com que as pessoas se identificassem mais com esta história de amor, que foi o que também quis contar neste filme.

No centro da história, o casal Camilo, interpretado por Albano Jerónimo, e Ana Plácido, interpretada por Maria João Bastos. Como é que eles aceitam estas personagens?

Para já são dois atores que trabalham muito e que recebem muito bem. Quando digo que recebem muito bem é que podemos propor, podemos encaminhar, que eles vão sempre tentar fazer o melhor com aquilo que lhes vou dando.

O Albano é um ator camaleonico. Conseguimos recordar pelo menos cinco ou seis papéis dele em que está completamente diferente. A Maria João não fica longe do Albano, também é uma excelente atriz. São muito trabalhadores e, como muito trabalhadores que são, quiseram fazer um filme com uma qualidade superior, pretensões à parte.

Acho que conseguimos um trabalho muito sério e muito honesto e eles dois, particularmente, porque o fazem exemplarmente. Eu acho que o Albano e a Maria João estão incríveis a fazer o filme.

Além dos atores, há um espaço, um cenário que também é personagem, um edifício que conhecemos, com outro uso, hoje, na cidade do Porto, que é a Cadeia da Relação. O espaço levantou problemas, imagino eu, para filmar a cela, encontraste uma solução? Descobriste-o agora, na preparação do filme? Já o tinhas visitado anteriormente?

Visitei a Cadeia da Relação, claro, mas não tinha visitado o que filmámos. Idealmente, faríamos lá o filme, mas é impossível de filmar. Está transformado num museu, muito moderno, hoje em dia.

Tivemos de pensar, numa alternativa. Fomos para uma fábrica de cerâmica em Alvarães. Quase longe da época, mas tinha a dimensão que quisemos dar a este filme, porque pudemos jogar na fábrica da maneira que quiséssemos e fazer as celas da maneira que nos dava jeito na organização do nosso filme. Acabou por ser um décor inacreditável.

A Isabel Branco, que fez a direção de arte, imprimiu ali aquilo que pretendíamos, que era um enclausuramento, mas com algum espaço. Tem espaço, mas, por outro lado, dá a sensação de que as pessoas estão ali apertadas.

A prisão dividia-se entre os quartos da Malta, onde estavam as pessoas que tinham mais posses e as outras celas, onde estão as pessoas mais pobres. E o nosso Camilo está num desses quartos. E a Isabel interpretou isso lindamente, acho que imprimimos mesmo aquilo que queríamos para o filme.

Esse é um ponto interessante em termos de produção, porque, obviamente, procuras instalar a narrativa na cadeia e defini-la neste período histórico. Até porque a cela onde Camilo esteve, independentemente das alterações do próprio edifício da cadeia, enquanto museu, era exígua para filmar, imagino?

Era muito difícil, era apertado. A cadeia tinha mais uma organização circular.

Estamos a olhar para Camilo preso neste edifício e vivendo um amor proibido e atormentado com Ana Plácido. Esse instante da vida e da relação dos dois abriu um imaginário muito interessante para trabalhar o filme, que é um imaginário literário, de certa forma, não é?

É. Acho que o Camilo era um escritor brilhante, mas há muitos escritores brilhantes, não só portugueses, mas também estrangeiros.

Lembro-me muito do Edgar Allan Poe, do Dickens, do Doyle, que são escritores de meados do século XIX que agarravam todos as mesmas narrativas e histórias. O Poe é um bocadinho mais fantástico, mas acho que o Camilo também tem esse universo fantástico. E quis também imprimir um bocadinho desse universo fantástico no filme. A prisão acaba por ser um retrato da nossa sociedade do século XIX. Acho que isso aí funciona muito bem.

Podemos colocar o filme, em função do que estás a dizer nessa galeria de filmes de época que remetem para o século XIX e para condições sociais muito específicas desse tempo. Charles Dickens acaba por ser a melhor referência?

Sim, na verdade, acaba por ser também a mais terrena delas todas, mas é a melhor referência. Eu quis retratar a sociedade portuguesa de meados do século XIX. E é um bocadinho à imagem daquilo que o Dickens costumava escrever. Foi exatamente isso que eu pensei também. Respirar um bocadinho desses autores e fazer da nossa história, a nossa história portuguesa, claro.

Aqui, Camilo é, claramente, uma personagem muito carnal, muito apaixonada. Revela-se também, enquanto escritor. Acaba por ser uma personagem mais humana, podemos resumir assim?

Sim, é verdade. É uma personagem muito mais humana. Confesso que não estava tão habituado a ver o Camilo tão perto de nós como este Camilo, que eu, pelo menos, tentei construir.

  • tiago alves
  • 27 de Outubro de 2026, 16:10

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