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“Cresci num país totalitário nos anos 80, onde a liberdade não era garantida”, afirma o realizador húngaro Laszlo Nemes, de 49 anos, que há muito se interessava pela figura de Jean Moulin, resistente francês morto a 8 de julho de 1943 após ter sido torturado pela Gestapo de Klaus Barbie, em Lyon.

“O que podemos fazer ao seguir Jean Moulin é medir o preço da liberdade, cujo significado infelizmente se perdeu no Ocidente”, acrescenta o cineasta, profundo conhecedor da História de França, país onde viveu e estudou.

Afastando-se do modelo clássico da biografia cinematográfica, o filme acompanha os poucos dias de 1943 em que Jean Moulin, regressado de Londres, se desloca a Lyon para tentar unificar as fações rivais da Resistência.

“Nesse momento, Moulin está sozinho e sente-se abandonado”, explica o realizador, tocado “pela forma como as grandes vozes humanistas acabam tantas vezes profundamente sós”.

Jean Moulin acaba preso pela Gestapo. O filme centra-se no confronto sufocante com Klaus Barbie, interpretado por Lars Eidinger, que o submete a tortura para o obrigar a revelar os líderes da rede da Resistência. Moulin recusa sempre falar.

Laszlo Nemes assume ter transformado estas duas figuras em encarnações “da medida do bem e da tentação do mal”.

“São duas forças que coexistem dentro de nós e, se não aceitarmos também a obscuridade presente nas civilizações humanas, arriscamos sucumbir-lhe”, afirma o realizador, que já tinha explorado os limites da condição humana em “O Filho de Saul”, sobre o calvário de um prisioneiro judeu húngaro em Auschwitz.

Com “Moulin”, apresentado na competição principal do Festival de Cannes, Nemes procura igualmente devolver protagonismo a uma figura da Resistência frequentemente eclipsada pela sombra de Charles de Gaulle.

“Moulin continua a ser uma figura relativamente abstrata porque existe provavelmente uma dificuldade em encarar o sacrifício que fez.”

Segundo o realizador, o destino de Jean Moulin levanta “questões antropológicas fundamentais”. “Do que é capaz o ser humano? Creio que temos diante de nós um vasto leque de acções e caminhos possíveis, e a História contém todas as possibilidades. O melhor e o pior.”

A ascensão das democracias iliberais e da extrema-direita preocupa-o, embora considere a recente derrota eleitoral de Viktor Orbán no seu país um motivo de esperança. “É como se a Hungria tivesse quebrado um feitiço maligno e voltado a ser uma comunidade nacional”, afirma o cineasta, interrogando-se sobre o alcance deste renovado impulso democrático. “Quando uma oligarquia governa, tentando conduzir-nos para o caos, para a corrupção, para uma certa forma de mal e de perversão de nós próprios, será possível sair disso em conjunto?”

Laszlo Nemes admite não ter respostas definitivas nem certezas. Mas sabe o que realizadores como ele podem fazer: “Resistir à uniformização do cinema.”

  • CINEMAX - RTP c/ AFP
  • 19 de Maio de 2026, 12:04

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