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Em “Natal Amargo” Pedro Almodóvar revela que há muito a esconder num exercício de ficção biográfica, tal como sucedia em “Dor e Glória” onde António Banderas interpretava um alter ego do realizador propondo uma reflexão sobre memória e passado. Desta vez, em “Natal Amargo” há um realizador bloqueado que procura uma narrativa na realidade que o rodeia, nas pessoas que conhece, encadeando exercícios de ficção do real e do pessoal.

Em Cannes para apresentar a nova obra na competição do festival francês, Almodóvar falou precisamente das semelhanças entre filmes e não recusa que possam parecer um díptico autobiográfico:

Sim, com efeito, “Natal Amargo” e “Dor e Glória” podem parecer um díptico em que nunca, como neste momento, falei sobre a mim mesmo. Em “Dor e Glória” referíamos especificamente à paralisia que vive o criador por questões físicas. Foi operado às costas, tem muitas dores, isso incapacita-o e vive de um modo angustiado. Em “Natal Amargo” a dor é moral, é uma dor psíquica que se vive do mesmo modo, com agonia, e reconheço-me absolutamente na personagem do filme. É uma dor que também é insuportável, consequência de atravessar uma crise criativa.

Esta crise impede-o de encontrar inspiração e decide voltar-se para ele próprio, olhar para si mesmo e olhar em redor a partir de dentro. Isso transforma o filme num relato de autoficção. O problema, um dos temas importantes deste filme, é que o narrador é um ser muito egoísta. Quando tem uma ideia suscitada por alguém que conhece, não pergunta nada a essa pessoa, nem a tem em consideração, só considera a ideia que o leva a escrever.

Pela parte que me diz respeito, uma vez terminado, espero não ter perdido ninguém, e se soubesse que fiz mal a alguém, tomando-o como referência para alguma personagem, não faria o filme. Mas a natureza do criador é egoísta e às vezes pode ser perigosa para quem o rodeia.

Há um debate moral com limites que não estão definidos e dependem exclusivamente da sensibilidade ética do criador.

A questão da culpa, que pode existir no processo criativo, na escrita de uma história real, é igualmente assumida por Almodóvar:

Existe a culpa porque há uma consciência da forma como o processo de escrita. Em qualquer caso, quando me inspiro em algo que me rodeia, tento misturá-lo com muita ficção, de modo que a pessoa real ou outras pessoas nunca se identifiquem. Não faço um retrato como se faz, por exemplo, em França, na autoficção. Em França é um género com grandes obras-primas, mas que retratam épocas e pessoas.

No meu caso, inspiro-me em alguns detalhes e depois misturo com elementos de ficção. De qualquer forma, há uma responsabilidade. O que acontece é que a criação é muito misteriosa e muito poderosa e, quando sinto este impulso criativo, não consigo deixar de seguir este caminho sem saber onde vou chegar.

Este é um filme pessoal de Pedro Almodóvar, num tempo em que a realidade impõe desafios tremendos aos artistas:

No meu caso particular, sem julgar ninguém, acho que o artista deve falar da situação em que vivemos. Parece-me um dever moral. Não julgo quem não o faz, mas o silêncio e o medo são sintomas péssimos. São sintomas da desvalorização da democracia. Como tal, acredito que o criador, a partir da sua pequena tribuna, do lugar onde está, deve falar do pior que nos acontece e a cada dia acontecem coisas mais terríveis.

Eu, particularmente, acho que somos obrigados a falar delas. E, também, sobretudo como europeus, estamos obrigados a transformar-nos numa espécie de escudo contra esses monstros como Trump, Netanyahu ou o russo.

Estamos obrigados porque aqui, sim, obedecemos a leis internacionais. Na Europa, sim, há leis. E então, Trump deve saber que há um limite para todos os seus delírios e loucuras e que a Europa nunca lhe vai prestar vassalagem.

A banda sonora, novamente composta por Augustin Almodóvar, o irmão de Pedro, é acompanhada por temas de Chavela Vargas. As músicas da cantora e atriz mexicana reforçam a sensação de abandono que percorre o filme:

Chavela era uma grande mestra do abandono. Dedicou-se a cantar a dor de ser abandonada e converteu os espetáculos numa espécie de missa onde, quando ele abriu os braços, realmente cabia todo o público e todo o cenário lá dentro. Então, foi uma aprendizagem muito, muito emocionante e muito, muito singular, porque Chavela, que teve uma vida muito agitada e muito boémia, a qual, afortunadamente, sobreviveu. Falava disso em cada canção. Cantava a dor e o abandono. Por isso, coloco essa canção no momento da separação das personagens. Mas, ao mesmo tempo, havia algo muito positivo porque ela dedica a canção, tal como no filme, parece que está a cantar ao teu ouvido, mas, ao mesmo tempo, está a transmitir que me enganaste e que fizeste algo errado numa relação. Isso merece ser vivido. Há que viver essa dor.

  • Tiago Alves
  • 29 de Setembro de 2026, 14:43

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