“NAZA”: a máquina da morte
O filme dos jornalistas Yuval Abraham e Rachel Szor apresentado em Veneza centra-se em testemunhos de soldados israelitas que estabelecem paralelos entre o Holocausto e as operações militares em Gaza.
As mortes em massa de civis estavam regularmente integradas nas decisões de seleção de alvos militares israelitas em Gaza, segundo um documentário apresentado quinta-feira no Festival de Cinema de Veneza, que contesta as versões oficiais sobre a guerra.
“NAZA”, realizado pelos jornalistas israelitas Yuval Abraham e Rachel Szor, recebeu o título de um termo utilizado pelo exército israelita para designar o número previsto de “baixas colaterais” nos ataques aéreos e baseia-se nos testemunhos de oficiais dos serviços de informações e soldados.
“Havia mortes em massa à escala industrial”, afirma um dos oficiais numa série de entrevistas anónimas.
As autoridades de saúde de Gaza afirmam que mais de 73 mil palestinianos foram mortos na campanha militar de Israel, desencadeada pelo ataque do Hamas a Israel em Outubro de 2023, que provocou cerca de 1200 mortos.
Israel afirma ter feito todos os esforços para evitar baixas civis e acusa o Hamas de utilizar os civis de Gaza como escudos humanos em zonas densamente povoadas, uma acusação rejeitada pelo Hamas.
O filme apresenta uma versão diferente.
“Mostramos no nosso filme um sistema de seleção de alvos que, por definição, visa pessoas em espaços civis, nas suas casas de família”, afirmou Abraham à Reuters. “Por vezes podem ser 500 NAZA (…) a destruir aldeias inteiras ou bairros inteiros.”
Oficiais dos serviços de informações israelitas descreveram um sistema assistido por inteligência artificial que identificava alvos através de dados recolhidos de milhares de telemóveis pirateados. Segundo os testemunhos, a deteção da expressão “o papá está em casa” num telemóvel de uma criança seria suficiente para desencadear um ataque aéreo.
Os depoimentos descrevem também a morte de civis em zonas declaradas pelo exército israelita como interditas, incluindo as proximidades de centros de distribuição de ajuda. A localização dessas zonas não era comunicada aos residentes, afirmou um dos oficiais: “Têm de aprender com sangue.”
As Nações Unidas afirmaram no ano passado que mais de 400 palestinianos foram mortos enquanto procuravam obter ajuda. Israel reconheceu que civis tinham sido afetados nos centros de distribuição e afirmou ter alterado as suas regras de empenhamento.
Vários dos oficiais entrevistados comparam o que testemunharam com padrões históricos de desumanização e abordam paralelos entre as acções de Israel e o Holocausto nazi. “É uma ligação que vem dos soldados”, afirmou Abraham. “Numa situação em que vemos tantas vezes como a memória do Holocausto é utilizada para justificar as acções de Israel em Gaza, é muito importante retirar uma conclusão mais universal.”
As Forças de Defesa de Israel não responderam de imediato ao pedido de comentário da Reuters sobre o documentário.
Todas as entrevistas foram filmadas à noite, em telhados de Telavive, enquanto imagens da destruição em Gaza são mostradas apenas brevemente no final. Os realizadores afirmaram que queriam sublinhar o contraste entre a vida quotidiana na capital comercial de Israel e a devastação que ocorre a cerca de 60 quilómetros de distância.
“Queríamos mostrar como a vida continua em Telavive”, afirmou Szor, que venceu um Óscar com Abraham no ano passado pelo documentário “No Other Land”, sobre as demolições israelitas na Cisjordânia. Acrescentou que muitos israelitas não sentem empatia pelos civis palestinianos. “Grande parte da sociedade israelita que diz abertamente que não há pessoas inocentes em Gaza.”
Muitos dos que participam no filme pertenciam a unidades de elite e não correspondem ao estereótipo de radicais ideológicos. “Por vezes descrevem-se como sendo de esquerda”, afirmou. “E talvez sejam as pessoas responsáveis pelo maior número de mortes.”
Abraham, um dos jornalistas que assina o filme, duvida que Israel responsabilize alguém pelas mortes de civis sem pressão externa. “Espero que haja justiça e responsabilização pelos crimes. (…) Depende de responsabilizar as pessoas e da vontade política dos Estados Unidos e da União Europeia”, afirmou.
“NAZA” é um dos 21 filmes que competem pelo Leão de Ouro de Veneza, que será entregue no sábado.