O barqueiro do Douro: Tânia Gomes Teixeira e a mística de Gastão em “Caronte”
A fronteira entre o real e o mitológico esbate-se nas margens do Douro, onde Gastão, sucessor do Duque da Ribeira, dedica os dias a uma missão tão solitária quanto solene.
A realizadora Tânia Gomes Teixeira apresenta Gastão, protagonista do filme “Caronte” que se estreia esta semana nos cinemas. O quotidiano de espera do sucessor do Duque da Ribeira transporta-se para uma dimensão poética onde está presente a analogia com o barqueiro do submundo da mitologia grega. Nesta entrevista, a cineasta revela o longo processo de aproximação ao protagonista e a forma delicada como aborda o luto e a perda.
Vamos descobrir uma personagem que acompanhaste ao longo de muito tempo…
O primeiro contacto que tive com o Gastão foi quando ainda estava a estudar, a tirar a licenciatura em cinema e audiovisual. Estava à procura de uma história para fazer uma curta documental que seria uma espécie de trabalho final de curso e uma amiga falou-me do Gastão.
Conhecia o Duque da Ribeira, que já tinha morrido, mas não sabia que havia um sucessor do Duque. Quando percebi que o Gastão existia, a atração por este tema foi imediata e tentei perceber como o poderia encontrar e não foi um trabalho nada fácil.
Porquê?
Na altura ainda consegui filmar com ele três ou quatro dias o que me pareceu sempre insuficiente, mas deu para fazer uma curta, curtíssima, digamos assim. Mas o Gastão não foi uma pessoa fácil, no início. Ainda consegui fazer essa curta, mas depois desliguei um bocadinho da relação com ele. Passado uns tempos, voltei a chateá-lo e disse-lhe que queria fazer uma longa-metragem com ele. Ele disse que sim, mas assim, num tom leviano.
Talvez um ano e meio, ou dois anos depois, quando finalmente consegui um pequeno financiamento para fazer a longa e fui ter com o Gastão para lhe contar, radiante, vamos finalmente fazer isto, ele disse-me que não queria. Foi uma altura difícil de ultrapassar. Disse-lhe que percebia que ele não quisesse, fui para casa, chorei um bocadinho e passado uma semana, voltei para lá e disse-lhe, olhe, se calhar não vai querer filmar comigo, mas eu venho para aqui na mesma e vou filmar o rio, vou filmar a ponte, vou filmar as gaivotas. E assim fiz durante muito tempo, fui para lá com a câmara e filmava tudo, exceto o Gastão, porque ele não queria ser filmado.
Passado uns tempos, descobri que a minha tia tinha andado na escola com uma das filhas do Gastão. Isso e o facto de ele também se andar a habituar à minha presença ali no rio, fez com que cedesse e decidisse fazer o filme. Hoje em dia temos uma relação muito boa, acho que ele aprendeu a gostar de mim. E eu gosto muito dele e ao final de algum tempo acabou por ser uma relação generosa, julgo eu, de ambas as partes, mas sobretudo a parte do Gastão para comigo.

A proximidade foi suficiente para gerar essa maior confiança, ou aconteceu aqui algo mais que o levou a ceder e ser protagonista do filme?
Eu acho que sim, foi a proximidade, o hábito da presença. Os documentários têm isto, não é? É ganhar confiança e para ganhar confiança é preciso tempo. Creio que foi precisamente isso que aconteceu com o Gastão. Costumam dizer nos documentários que só estamos prontos para os fazer quando acabamos de os fazer. Acho que acabou por acontecer um bocadinho isso, esse clichê acabou por acontecer neste caso, também. Foi preciso realmente tempo para o Gastão confiar em mim. Ao fim desse tempo aconteceram coisas bonitas. O Gastão acabou por me abrir a porta de casa para filmarmos lá, algo que acrescentou este tom mais pessoal ao filme. Senão, ele seria só uma espécie de personagem do rio, que é aquilo que o Gastão mostra à maior parte das pessoas que o conhece.
Estamos a falar de Gastão que é o Caronte no teu filme, de certa forma, porque há um imaginário que constróis a partir desta figura da mitologia grega, mas do próprio Gastão que tem esta rotina de dedicar uma vários dias ao rio. A resistência dele poderá ter estado relacionada com a delicadeza daquilo que ele faz? Enfim, com o segredo e o resguardo que isso exige?
Talvez, sim. É realmente uma questão de resistência, mas também de fazer as pazes com a decisão dos outros. Já disse isto, o Gastão é uma espécie de herói ali na Ribeira, uma espécie de herói local. Mas se virmos realmente as coisas, o Gastão é antes uma espécie de anti-herói, porque se ele quisesse realmente salvar as pessoas, estaria na parte de cima da ponte a dizer às pessoas para não se atirarem.
A forma como vejo o Gastão traz-me uma espécie de aprendizagem desta forma de fazermos as pazes com a decisão dos outros, que é uma coisa muito difícil de fazer, aprendermos a não controlar aquilo que os outros fazem, mas ainda assim, intervir e ajudar, que é ir buscar os corpos para que as famílias, essas sim, as sobreviventes do suicídio, possam passar por um saudável processo de luto. O Gastão passou, ele próprio, por uma situação destas.
Queria chegar aí, Tânia. Conta aquilo que te parecer razoável.
O filme não é de todo explícito neste assunto, como, aliás, não é muito explícito na questão. O filme é realmente um retrato deste homem que passa os dias na Ribeira. A irmã do Gastão escolheu precisamente uma altura em que sabia que ele não estaria lá para se atirar da ponte. Eu acho que isto faz com que o Gastão faça o que faz, ainda com mais propriedade sobre o assunto. Ele já fazia isto antes, mas agora passou a saber ainda melhor o quão significativo é termos um corpo para velar.

Aquilo que lhe aconteceu ao Gastão deu um novo sentido ao que ele faz. À forma como ele vive o rio e como lhe dedica esse tempo infinito à espera.
Ele passa mesmo muito tempo lá. Vive em Gaia, todos os dias acorda e vai de mota para a Ribeira do Porto, onde aliás já viveu. E passa todos os dias lá. O único dia que não passa lá é o domingo, dia em que almoça com a família, porque a família exige que ele faça isso. Mas a vida do Gastão é realmente esta, é estar na Ribeira, à espera.
Creio que existe sempre esta camada de esperança de que um dia possa resgatar alguém com vida. Já aconteceu, mas julgo que foi só um caso. A principal missão dele é realmente resgatar os corpos e devolvê-los aos familiares.
De alguma forma, esta coreografia de gestos, de ir buscar um corpo, de o levar para a margem e devolvê-lo à terra, pareceu-me sempre, desde o início, muito semelhante à figura mitológica do Caronte, o barqueiro do submundo que levava as almas dos recém-mortos de uma margem até à outra, até à margem do submundo dos mortos, para sempre.
Pareceu-me óbvio, de imediato, fazer a analogia entre estes dois barqueiros, também para conferir um tom mais poético e leve a um tema que é, por si só, pesado.
Portanto, há uma parte no filme que é ficcionada e assumidamente figurativa. Que é, aliás, protagonizada pelo André Gil Mata, também ele próprio realizador, e pela Tânia Ruivo. Nesta parte do filme há uma espécie de sub-narrativa, que é o Caronte ir buscar um corpo.
Do ponto de vista da construção, essa dimensão imaginativa, poética e ficcional é muito distinta daquilo que costumamos ver numa chamada docuficção. Porque, por vezes, os elementos da ficção claramente alimentam o real. Aqui quiseste criar duas dimensões, podemos colocar a questão dessa forma?
Absolutamente. Sim, a parte de ficção está completamente definida no filme, até em termos estéticos. Não existe propriamente um tom de cor que muda, nem nada que se pareça, mas existe uma espécie de movimento de câmara que é mais sutil, se quisermos, na parte de ficção. E não é preciso, julgo eu, explicar o que é ficção.
E representa isso mesmo, os gestos que são semelhantes, mas também uma espécie de inconsciente que eu imagino para o Gastão. Portanto, também é uma docuficção nesse aspecto, porque é a minha visão sobre este homem. Não quer dizer que seja a verdade absoluta, mas é a minha visão dele. E essa parte da ficção é materializada não só nestas partes com o André e com a Tânia, mas também nos momentos que escolhi filmar com o Gastão.
Para mim, ele é muito este homem solitário que passa os dias no rio e na Ribeira. Se calhar, na vida real, ele não é assim tão solitário, porque acaba por ter sempre a família.
Quis retratar aquilo que ele é a maior parte do tempo e a forma como eu o vejo. Que é este homem, este lobo do mar, como se chama aliás o barco dele, chama-se “Lobo do Mar”. E é assim muito que eu o vejo, uma espécie de lobo solitário do rio, em vez de ser do mar.

Esta fusão entre o homem real e a figura mitológica, que é obviamente Caronte, o barqueiro dos mortos na mitologia grega, demonstra outra coisa. Há uma densidade mitológica muito profunda neste lugar específico que é o Porto. Porque não há outro lugar assim, não há outro lugar onde Caronte exista, no nosso imaginário, em Portugal?
A parte figurativa do filme também é filmada no Rio Douro, mas quis que o cenário do Caronte fosse um bocadinho mais alargado. Acabámos por filmar em Miranda do Douro. É o mesmo rio, mas num sítio completamente diferente em que as margens são íngremes e brutas, digamos assim.
Quis que o percurso do Caronte fosse desde esse sítio íngreme, agreste, bruto e passasse depois, a meio do filme, para o cenário do Gastão. E há um momento em que eles quase se cruzam, aliás. E que o Caronte acabasse num cenário aberto em que parece que o rio desagua no mar.
Portanto, este percurso todo do Caronte não poderia ser noutro rio, senão no Rio Douro, porque é o cenário do Gastão. É, de alguma forma, mitológica, deste ponto de vista que começa num sítio muito virgem ainda. O Caronte, aliás, veste sempre uma capa, que é a capa tradicional do traje de Miranda do Douro. E usa também o valboeiro, que é um barco típico da zona de Valbom, portanto, também, mais uma vez, o Rio Douro.
Eu acho que o tom mitológico, além da personagem, está sobretudo no rio. Poderíamos dizer em qualquer rio, até pela simbologia do que é um rio. Uma água que está sempre a correr, nunca vemos a mesma água duas vezes, está sempre em movimento, lava e leva. Mas este, especialmente, por ser também o rio do Gastão.
Ouvindo-te a descrever esse percurso que é a estrutura do filme quase sinto que reforças uma impressão que eu tive de que o filme permite abrir uma porta entre dois mundos. De certa forma, através do modo como imagina o mundo a partir de algo muito concreto é uma espécie de porta de passagem. Não sei se concordas com essa ideia?
O tema do suicídio, como se sabe, é um tema frágil e tem de ser tratado sempre com muito cuidado. A comunicação social sabe isso muito bem, por exemplo. O meu objetivo nunca foi que o filme fosse sobre quem se atira. Nem sequer tenho ferramentas, ou conhecimento, para trabalhar num tema tão complexo, nunca foi sequer filmar um resgate, nunca quis isso. Às vezes as pessoas perguntavam, então já conseguiste ver, já conseguiste filmar? Não, e não quero. O objetivo nunca foi realmente esse.
Ainda assim, esse tema é uma espécie de afluente do filme, porque é impossível falar do Gastão e fazer um retrato poético dele sem tocar neste tema. Portanto, ele está lá, mas não é o principal. Também nunca quis que este filme fosse tão pesado quanto o tema em si é.
Portanto, a única forma que encontrei de fazer isto de forma mais leve foi conferir-lhe alguma poesia. Na imagem, julgo eu, na forma de narrar o filme e também na banda sonora do JP Coimbra, que eu acho que encaixa perfeitamente no filme.
Como é que o Gastão se relaciona com aquilo que viu no cinema?
O Gastão já viu o filme e gostou. Apesar de não ter outro filme sobre ele, além deste e da curta que eu fiz, está relativamente habituado a entrevistas, entrevistas escritas e filmadas para a televisão.
Acho que ele acaba sempre por responder da mesma forma a muitas perguntas, porque já está habituado, decorou uma série de formas de se proteger e de responder às coisas. Por isso mesmo, não quis pô-lo em tom de entrevista. Quis fugir um bocadinho a isso e ele quase não fala no filme. Mas acho que ele se relaciona bem e gosta de se ver e gostou do filme. Pelo menos foi esse o feedback que tive dele que também estará presente na estreia no Porto.
“Caronte”, de Tânia Gomes Teixeira, estreia esta semana nas salas de cinema.
Caso necessite, pode procurar apoio e aconselhamento junto das seguintes organizações:
Linha Nacional de Prevenção do Suicídio – 1411
SOS Voz Amiga | diariamente das 15h30 às 00h30 | 213 544 545 | 912 802 669 | 963 524 660
Conversa Amiga |diariamente das 15h00 às 22h00 | 808 237 327 | 210 027 159