O Estado Novo devora o seu criador em “Pai-Nosso: Os Últimos Dias de Salazar”
Mais de meio século após a queda da cadeira que ditou o fim político de António de Oliveira Salazar, o realizador José Filipe Costa recria o teatro de aparências montado no Palácio de São Bento, onde um homem debilitado continuava a acreditar que governava o País.
A curiosidade do que aconteceu a Salazar depois de cair da cadeira levou o José Filipe Costa a realizar o filme “Pai-Nosso: Os Últimos Dias de Salazar”:
As pessoas têm ideia de que a vida de Salazar acabou com a queda da cadeira, mas prolongou-se porque ele fez um hematoma, foi operado, fez um AVC e depois ainda viveu quase dois anos.
O cineasta José Filipe Costa encontrou as respostas no diário do médico pessoal do ditador:
Li algures que havia um diário publicado do médico pessoal, Eduardo Coelho. O diário estava cheio de revelações sobre esse período em que São Bento se tornou uma espécie de palco de um teatro feito para ele próprio acreditar que ainda era Presidente do Conselho, quando quem governava era Marcelo Catano.
O filme de José Filipe Costa recria aos dois últimos anos de vida de Salazar. A residir no palácio de São Bento, sem saber que já não governava e tendo por companhia as três criadas e a fiel governanta Maria.
Em “Pai-Nosso: Os Últimos Dias de Salazar”, interessava a José Filipe Costa olhar para o dilema das personagens:
O que me interessa aqui são os dilemas destas personagens, os dilemas, os paradoxos e as contradições em que elas vivem.
O realizador quis fazer uma ficção séria e realista sem esquecer que Salazar foi um ditador:
Isto é o experienciar um bocadinho o que é aquela bolha em São Bento. Cabe ao espectador ir fazendo os seus julgamentos. Não me interessava muito criar um Salazar plano. Um Salazar a preto e branco.
Sempre houve esta coisa de terem Salazar, esta figura tutelar, este pai da nação que nos salvou disto e daquilo, mas também nos meteu numa guerra colonial e manteve o país numa grande pobreza.
Nos anos 60 era o país mais pobre da Europa Ocidental. O analfabetismo, o alcoolismo… Vendo como era a vida naquele tempo é uma ficção, mas foi-se tornando uma ficção muito séria.
Porquê? Porque nos alimentamos de muita coisa. Falei com a filha do médico analista do Salazar, era um moçambicano a quem o Salazar dizia que só a ele confiava as suas veias. Falei com o próprio filho do médico, falei com o Fernando Dacosta que foi uma das pessoas que conviveu com Maria de Jesus e que escreveu o livro “Máscaras de Salazar”.
Várias cenas no filme recordam situações verdadeiras da vida do ditador:
É importante dizer algumas coisas. Por exemplo, que o telefone do médico esteve sob escuta, que os boletins foram censurados que, por exemplo, os ministros do Malawi foram visitá-lo e depois os polícias, cá fora, estragaram a película porque achavam que ele tinha sido fotografado.
As coisas estão lá, por exemplo, o embaixador a pedir-lhe para ir até Londres, a entrevista que ele dá ao jornalista francês em que o jornalista francês lhe pergunta, algo cinicamente, ‘e então, por exemplo, se Marcelo Catano quisesse estar no seu governo o que acha?’ E ele diz que é uma possibilidade. Essa entrevista foi publicada no L’Aurore, que era um jornal de direita francês com a manchete “Salazar Ainda Crê Que Governa” e foi apreendida em Portugal.
Ou seja, era o fascismo a devorar o seu próprio criador e era a criatura a devorar o criador, porque acho que há uma violência enorme no fascismo que às vezes aparece nas coisas do dia-a-dia e que eu acho que está, de alguma maneira, nos está a assombrar hoje.
As atrizes Carolina Amaral, Cléia Almeida e Vera Barreto interpretam as criadas. Jorge Mota interpreta a figura de Salazar. Quando pensou realizar o filme, José Filipe Costa pensou logo em Catarina Avelar para o papel da governanta Maria de Jesus:
A primeira escolha foi Catarina Avelar. Acho-a incrível. E toda a gente sentiu isso, eu acho. As criadas, foi um casting e dá-se o caso de que todas elas já tinham trabalhado em conjunto.
O Salazar… Conheci o Jorge Mota e o António Durães na Casa do Alentejo, com a Sofia. Olhei para o Jorge Mota e pensei ‘é um bocadinho novo’ para o papel, mas há qualquer coisa. E pronto. É muito difícil encontrar atores com esta idade para fazer esta personagem. É difícil.
Depois da realização do documentário “Prazer, Camaradas”, José Filipe Costa estreia-se numa longa-metragem de ficção.
Considera que “Pai-Nosso: Os Últimos Dias de Salazar” conta uma história universal e é um filme atual:
Eu, ao fazer um filme do passado, sinto que estou a fazer um filme do presente, porque estou a pensar aquele passado agora. Estou a dar-lhe uma determinada característica a partir daquilo que nós somos hoje. E eu acho que os filmes também vão mudando, digamos assim, de leitura, vão sendo vistos de determinadas maneiras conforme os tempos, as situações, os contextos.
Para mim também é uma história universal, de poder. Uma pessoa que diz que não quer o poder, que é modesto, mas que está sempre agarrado ao poder. Que foi responsável por um aparelho repressor, de censura, de prisão política, de mortes, de tortura.
Ao mesmo tempo, é esta pessoa que parece serena, que não gosta de falar para as grandes multidões. Tudo isto é muito hipócrita, eu acho.
Para José Filipe Costa, o filme mostra bem o que era o Estado Novo:
Para mim, esta história é muito sintomática do que foi o Estado Novo. Esta história de silêncio. O que eles fizeram foi não desmontar aquela mentira. E nós temos de desmontar, para não deixar acontecer, porque temos esta memória coletiva de que foi um período negativo. E agora vêm dizer, ‘ah não, ao final não foi assim tão negativo’. Isso é atirar a areia para os olhos.
Após estrear no Festival de Cinema de Roterdão, de ter passado por festivais em Portugal, “Pai-Nosso: Os Últimos Dias de Salazar” chega às salas de cinema nacionais, a 28 de maio de 2026, no dia em que se assinala o centenário da Revolução de 1926 que instaurou a ditadura militar e conduziu Salazar ao poder.
Inspirado em factos, é um alerta para o que o fascismo em Portugal não volte a acontecer:
Vão ver algo de uma maneira que não conhecemos muito bem, mas que é muito importante para nos percebermos como país, como comunidade. Compreendermos este, medo, os silêncios, alguma passividade, que, provavelmente, culturalmente, é muito nossa, o deixar andar, o não mexer as águas, e convidaria as pessoas a verem este filme para perceberem até que ponto isto nos marcou, para nós sermos assim também.