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22 Out 2026

“O Pecado Mora em Cima” é o novo filme de Rui Pedro Sousa, produzido por Sónia Resende. É uma comédia portuguesa, mas inspirada numa peça de teatro espanhola, de Cesc Gay, que também realizou para o cinema o filme “Sentimental”, que foi um sucesso de bilheteira.

Já foi adaptada nove vezes ao cinema noutros tantos países, Itália, França, Coreia do Sul, Alemanha, Suíça e, mais recentemente, nos Estados Unidos, com o título “O Convite” e realização de Olivia Wilde.

Rui e Sónia, qual é a vossa versão preferida, de entre todos os remakes?

Sónia Resende: Obviamente o nosso.

Rui Pedro Sousa: Tenho de ir atrás do que diz a produtora, mas claro que sim. Tirando o nosso, diria que sou um apaixonado pelo filme alemão-suíço, que acabou por ser um pouco onde eu e o Pedro Negrão, o diretor de fotografia, fomos buscar mais inspiração a nível visual, a nível de estética para o filme. Foi aquele que achei mais cinematográfico, por assim dizer, para o espectador.

Os projetos são semelhantes, mas, no fundo, apresentam especificidades culturais e de relacionamento, de cada país. Em que momento te pareceu interessante filmar dois casais que se conhecem, vivem no mesmo prédio e apimentam, essa relação de vizinhança. Em que momento te pareceu evidente que isto podia funcionar em português, mas com dois casais luso-brasileiros?

Sónia: Efetivamente, se isto está a ser recriado em tantos países é porque é um tema que necessita ser falado e adaptado a várias culturas. Portanto, trazê-lo para Portugal também fazia sentido.

Depois, como é que fomos à questão dos atores brasileiros? Nós temos um mercado cinematográfico e a nível dos espectadores muito pequeno e o cinema está também com a escassez que temos visto nos últimos tempos e, portanto, quisemos ser mais ambiciosos e ir além fronteiras.

Temos um país que fala a mesma língua que nós e também temos uma comunidade brasileira muito grande em Portugal. Portanto, não era de todo atípico não conhecermos alguém na mesma rua, ou no mesmo prédio, que fosse brasileiro. Partiu muito dessa premissa, já que temos de retratar vizinhos, vamos também retratar aquilo que é uma realidade na nossa sociedade, que é ter alguém imigrante, e nomeadamente brasileiro, também na nossa rua, no nosso prédio.

Antes de aprofundarmos as linhas narrativas, proponho que os casais se apresentem, ou seja, estamos a falar de um casal português, Inês Aires Pereira e Pedro Carvalho, que conhece um casal brasileiro, os vizinhos brasileiros no mesmo prédio, Marisa Orth e Miguel Falabella.

É a primeira vez de Miguel Falabella e Marisa Orth num filme português. Como foi trabalhar com esta dupla que se conhece muito bem de outros contextos, nomeadamente da comédia televisiva “Sai de Baixo”, que acontecia em palco. Como foi dirigi-los?

Rui: Deixa-me falar deste processo de trabalhar com eles em três fases. A fase do Rui pequenino que assistia ao “Sai de Baixo” e incrivelmente apaixonado por aquelas personagens, principalmente pela Magda e pelo Caco Antibes.

Depois há a segunda fase em que a Sónia, já com este projeto na cabeça, diz ‘vou falar com estes dois atores’. Eu digo, ‘não vais conseguir nada’. E a Sónia lá conseguiu.

Por fim, há o dia em que, finalmente, os posso abraçar no set de filmagens e confesso que estava nervoso. Já dirigi muitos atores, por exemplo, no ‘Revolução Sem Sangue’ eram 30, 40 atores. Aqui estamos a falar de quatro, onde dois eram estes titânicos atores que eu acompanhava desde pequenino.

E tinha este nervoso assim comigo, aqui na pele. Depois de privar com eles, ver que eles abraçaram também estas personagens de uma forma tão querida, tão real, tão verdadeira. E saber que eles estavam disponíveis para trabalhar comigo estas personagens, deixou-me à vontade.

Todo o processo foi incrível, porque não só lhes disse vocês têm de ir daqui para ali e dizer as vossas falas, mas partilhando ideias e outras opções conseguimos criar ali um ambiente em que, em prol do filme, fomos arranjando soluções diárias para construir a história.

Para eles, foi uma oportunidade de fazer esta adaptação para o Brasil, imagino eu. É quase como se tivéssemos aqui a versão brasileira do filme.

Sónia: É verdade. E torna-se curioso que “O Convite”, que saiu entretanto em julho, está a ser um sucesso no Brasil. Nós não sabíamos, quando nos propusemos a fazer este projeto, eles não tinham sequer a noção de que o remake americano iria ter o sucesso que está a ter no Brasil. Portanto, agora, até o nervoso deles de como é que o público brasileiro vai reagir, é maior porque há um termo de comparação.

Falavas de um filme que apimenta a história mais do que adaptações anteriores, exibidas também em Portugal, como por exemplo o “Sentimental”, podes explicar porquê?

Sónia: Numa primeira circunstância, porque é o primeiro filme em que estamos a misturar duas nacionalidades. E Portugal e Brasil só podia dar algo explosivo, diria eu, não é? São dois povos que têm tanto de semelhante como de diferente e aquela essência latina, quando se fala também da questão de sexualidade, obviamente que é mais apimentada.

Depois, há aqui outra circunstância, que é, quando se falou da questão de ter brasileiros no nosso projeto, eu e o Rui, sempre que fazemos um filme, gostamos de pôr sempre um pouco de justiça social em cada projeto.

Foi assim com o “Revolução Sem Sangue”, em que acabamos por fazer justiça aos cinco mortos de abril. Aqui também, apesar de falar por si só de um tema tão importante, como as relações de hoje em dia, umas mais conservadoras, outras mais abertas, e qual funciona melhor, ou não, havia aqui um tema que também deveríamos abordar na comédia, que é a questão da imigração. É um tema tão fraturante na sociedade que a cultura também tem esta missão de tentar sensibilizar, de tentar mostrar.

E fizemos um bocadinho essa tarefa, também. Quem vir o filme vai ver que, tanto nas partes mais cómicas, em que brincamos com os vários trejeitos que tem a língua numa nacionalidade e na outra, mas também nas partes mais de drama. Há bocadinho falavamos que era uma comédia, nós diríamos que é mais um drama-comédia. Porque nas partes mais dramáticas, também se sentem as mágoas que os próprios imigrantes têm por estar cá e como são integrados, ou não integrados.

Sendo que há aqui também uma desconstrução de preconceitos que tem a ver com o facto de o casal português ser mais atrevido.

Rui: Tentámos também virar o tabuleiro ao contrário. Porque muitas vezes se associa que o povo brasileiro aqui é assim e o povo português é assado. Nós tentámos mostrar as coisas de  outra maneira, mostrar que este casal brasileiro, sim, já teve o seu fogo outra hora, já foi muito íntimo noutra hora. De repente, surge o casal mais novo, o casal português, do andar de cima, que está em festas constantemente e que vem, de forma inusitada, trazer de novo essa chama que eles perderam. Mas, não querendo revelar muito, este casal mais velho também há-de ensinar algo ao casal mais novo.

É sempre o casal mais velho que fica desconfortável, essa é uma das premissas da peça escrita pelo catalão Cesc Gay.

“O Pecado Mora em Cima” é uma comédia, um género que nunca tinhas filmado e num espaço fechado, é um filme de estúdio, a ação acontece num apartamento criado num estúdio da RTP, no Centro de Produção Norte. Isso colocou-te perante desafios novos, enquanto realizador?

Rui: Enquanto realizador, sim, e creio que a Sónia, a nível de produção, também terá muitos desafios interessantes a expor, porque antes de ir à realização, fazer um filme implica pré-produção, produção e pós-produção em cinco, seis meses, ainda mais em Portugal, sem apoio estatal…

Antes de começar a rodar, estava convencido de que seria mais fácil do que foi o “Revolução Sem Sangue”, mas para a minha surpresa, um dos meus ídolos, o Spielberg, sempre diz que o que mais gosta é chegar ao set de rodagem, ter o seu plano, mas depois, com os atores, descobrir um novo plano… A câmara vai estar aqui, vai estar ali…

E eu estava convencido que o “Revolução Sem Sangue”, onde tínhamos muitos cenários, estávamos numa cozinha, depois íamos para a rua, depois para o tanque, depois para outra casa, estava convencido de que seria um processo muito mais difícil do que estar duas semanas no mesmo cenário, mas não, acaba por ser mais desafiante, mais difícil, até mais entusiasmante, estar num espaço pequeno, com quatro personagens.

Poderia perfeitamente sentá-los ao sofá, durante uma hora e meia a conversar, e o filme estava feito. O desafio foi perceber, não, temos de aproveitar todo o espaço. Eles falam na cozinha, no corredor, à janela, dentro do quarto. Isso foi um desafio. Como realizador, nunca tinha passado por ele e foi um desafio muito enriquecedor até para o meu futuro como cineasta e foi também incrível poder beber ainda mais dos atores e das suas sugestões.

No fundo, encontrando soluções que, para o Miguel Falabella e a Marisa Orth, são soluções de teatro, que eles também experimentaram no palco, porque o filme é, de certa forma, um filme de palco, e isso foi um desafio de produção, imagino.

Sónia: Sim, certamente. Tivemos o privilégio de ter o espaço do Centro de Produção Norte da RTP para montar toda a casa, basicamente era um T1 que tivemos que montar e ter a equipa ali confinada praticamente durante duas semanas e tal.

Isso, obviamente, causa alguns inconvenientes de produção. Eu dizia muitas vezes que  parecia quase a casa de Big Brother. Estávamos muitas horas fechados, durante muito tempo, dez horas pelo menos, com intervalos pelo meio, todos fechados e a trabalhar para o mesmo, sem luz, sem nada.

Depois havia outra questão. Estávamos a filmar entre junho e julho, e a estreia nos cinemas estava marcada para 15 de outubro.

Portanto, o filme tinha mesmo de estar pronto. Mesmo ao lado do estúdio, do cenário da casa, havia uma equipa que já estava a trabalhar na pós-produção, ou seja, no final do dia, o os editores já tinham a cena do dia anterior preparada e tanto o realizador como o diretor de fotografia, ao final do dia de filmagens, iam-se lá sentar a ver se tinha corrido bem.

  • tiago alves
  • 22 de Outubro de 2026, 11:36

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