“Os Miseráveis: A História de Jean Valjean” – um simbolo de redenção e humanidade
O realizador Éric Besnard e o ator Grégory Gadebois falam do processo de reconstrução da personagem a partir dos capítulos iniciais da obra literária de Victor Hugo.
O filme “Os Miseráveis: A História de Jean Valjean”, vai ao encontro do passado da personagem da obra-prima de Vitor Hugo, uma das figuras mais marcantes da literatura mundial. Éric Besnard quis prestar homenagem ao mestre da literatura francesa. Realizar um filme sobre Jean Valjean, uma das personagens centrais do livro “Os Miseráveis”, pareceu-lhe a escolha certa:
Queria homenagear Vitor Hugo. Homenagear o pensamento do escritor, a sua forma de se expressar nos diálogos, a sintaxe e a gramática, que são muito ricas. Para tal, era preciso encontrar uma abordagem que permitisse sustentar o ritmo do filme.
Pensei que as primeiras 80 páginas de “Os Miseráveis” ofereciam uma espécie de história completa, a transformação de um homem. O filme é a história da criação desse herói e mostra que, para o criar, foi preciso que outra pessoa lhe estendesse a mão, tal como ele, mais tarde, o irá fazer a quem precisa. É uma cadeia virtuosa e essa ideia agradou-me muito.

Vitor Hugo, escritor do século XIX, dirigia-se ao povo. No livro “Os Miseráveis”, transformou em herói um homem condenado à prisão e condenado pela sociedade.
O realizador Éric Besnard deixou-se atrair pela vertente política e humanista da personagem de Jean Valjean, um símbolo de redenção, generosidade e bondade:
Há uma dimensão política neste filme. Outros filmes que realizei abordam sempre a intensidade francesa. A culinária e os restaurantes, a revolução, a escola, o ensino no secundário, o ensino no século XIX, etc.
Este filme é sobre o humanismo de Vitor Hugo. Os europeus têm como uma cultura baseada em muitos erros, mas também no humanismo cristão e no humanismo ateu do século XIX, o que leva à preocupação e ao interesse pelo ser humano.
Depois, há outra dimensão, o encontro em vez do julgamento. Acredito muito no universalismo e no humanismo, daí defender essa ideia de um homem que parece ser um condenado perigoso, mas que tem a sua própria visão e a quem se pode mostrar que é outra coisa. Aliás, esta figura vai tornar-se o símbolo da bondade.
A rodagem de “Os Miseráveis: A História de Jean Valjean” decorreu no Louberon, uma região montanhosa na Provença, no sul da França. O local trazia a Éric Besnard a dimensão bíblica que pretendia dar ao filme:
Queria um filme bíblico, queria ter oliveiras, caminhos de pedra branca, mostrar o sentimento de culpa, lembrar a figura bíblica de Barrabás. Para invocar essas imagens, filmei na zona montanhosa da Provença, onde o inverno é rigoroso.
Toda a gente conhece esta região, mas mais na primavera e no verão, quando há frutos e alfazema e está muito calor e se ouvem as cigarras. Mas quando sopra o mistral, faz muito frio.
Pensei num filme como se fosse a preto e branco, mas com cores que dessem essa ideia. Como é um filme em formato widescreen, isto implica grandes planos e planos gerais. É como um western, na verdade.
“Os Miseráveis: A História de Jean Valjean” mostra como se dá a mudança de um homem cujo destino parecia ficar marcado pelo ódio. O ator francês, Grégory Gadebois, aceitou interpretar a personagem:
Jean Valjean é um nome que ultrapassa a literatura, faz parte do vocabulário popular. Simboliza a força, a gentileza, a generosidade, a bondade. É ao que associamos esta personagem. É a passagem, o regresso à humanidade de alguém esmagado pela sociedade e que, no fim das contas, não fez nada de grave, apenas roubou um pedaço de pão para alimentar os sobrinhos.
Na preparação do papel, Grégory Gadebois seguiu a riqueza do texto e as características humanistas da personagem. A preparação física é que foi mais exigente:
Perdi 30 quilos para interpretar o papel. A perda de peso ocupou muito tempo da minha preparação.
Também foi preciso acrescentar outros ingredientes que compõem Jean Valjean. A raiva, a noção de perdão que se pode conceder ou não. Enfim, eram tonalidades bastante fortes, mas, ao mesmo tempo, também simples. Depois era preciso colocá-las nos sítios certos. Foi muito natural. A personagem acabou por se fazer por si só, estava tudo no texto.

Grégory Gadebois salienta a importância do encontro de Jean Valjean com o padre que o acolheu e levou à redenção da personagem:
Para mim, Jean Valjean era uma pessoa boa no início, porque não roubou para si próprio, mas sim para alimentar os filhos da irmã. Acho que ele era bom no início e que o presídio o transformou noutra coisa, numa bola de ódio, de raiva, de rancor.
Aquele padre que ele encontra, o simples facto deste padre lhe estender a mão, leva-o a questionar-se, leva-o a fazer uma escolha. Gosto muito disso, de termos a possibilidade de escolher, essa noção de escolha, de termos a liberdade de escolher. E podemos sempre escolher ser bondosos.