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18 Abr 2026

“La Grazia”, de Paolo Sorrentino, coloca o poder político perante a fragilidade humana. O enredo acompanha Mariano De Santis, interpretado por Toni Servillo, um Presidente da República Italiana em fim de mandato. Viúvo e católico, o protagonista divide o quotidiano entre o rigor institucional e a proximidade com a filha, Dorotea, uma jurista que partilha a mesma base ética do pai.

A estabilidade dos últimos dias de De Santis no palácio presidencial do Quirinale é interrompida pela necessidade de decidir sobre dois pedidos de indulto. Estes casos, que envolvem crimes de homicídio em contextos ambíguos, cruzam-se com a vida íntima de De Santis e forçam-no a questionar os limites do direito e da compaixão.

Na génese do argumento está um episódio real protagonizado pelo atual Presidente italiano, Sergio Mattarella, que concedeu perdão a um homem responsável pela morte da esposa, doente de Alzheimer.

Na conferência de imprensa no Festival de Veneza, onde “La Grazia” foi o filme de abertura, Paolo Sorrentino desenvolveu a génese do filme:

“O filme nasce a partir de uma notícia, de um facto de que tinha ouvido falar há alguns anos: o presidente Mattarella concedera a graça a um homem que tinha matado a mulher, doente de Alzheimer. Pareceu-me de imediato um dilema moral interessante de explorar.

Há anos que pensava que o dilema moral era um poderoso motor narrativo, mais do que qualquer outro instrumento que normalmente se utiliza no cinema.

A partir daí surgiu a ideia de centrar o filme na figura de um Presidente da República. Como o título era “A Graça” — que não é apenas um instrumento jurídico ao dispor do Presidente da República, mas também uma espécie de atitude perante o mundo e a vida, uma atitude de amor — imaginei um Presidente que, por detrás do seu aspeto rigoroso, sério, por vezes aborrecido, fosse, na verdade, um homem apaixonado. Não apenas pela mulher, que já morreu, nem apenas pela filha, mas também pelo Direito e por toda uma série de valores que, a meu ver, a política deveria encarnar, mas que hoje são cada vez mais raros.

Agradava-me a ideia de retratar um político que representasse uma visão elevada da política – tal como, na minha opinião, deveria ser, e como tantas vezes não é.”

Sorrentino utiliza este facto como alicerce para construir uma narrativa onde a dúvida prevalece sobre as certezas absolutas. A partir daí, propõe uma reflexão sobre a ética na política, contrastando a postura austera e reflexiva de De Santis com a agressividade e o dogmatismo que caracterizam o discurso político atual.

Dividido entre as convicções religiosas do estadista e a responsabilidade das decisões, De Santis vê o puro ato administrativo transformado num exercício de introspeção profunda.

Através da interpretação de Toni Servillo, o filme despe a figura do poder da couraça burocrática para revelar um homem movido pelo amor e pela responsabilidade coletiva.

O ator crê que nada tem a ver com a personagem que interpreta em “La Grazia” e que isso o entusiasmou ainda mais a desenvolver uma personalidade que vai buscar referências a várias figuras que ocuparam a presidência em Itália:

“São inúmeros os Presidentes da República democrata-cristãos; são inúmeros os Presidentes da República viúvos; são vários os Presidentes da República homens de lei; são vários os Presidentes da República com uma só filha; são vários os Presidentes da República napolitanos.

Portanto, tínhamos um leque de figuras a que recorrer e assim não fizemos referência apenas a uma. Depois, se este tipo de Presidente que o Paolo conta se parece com alguém que amamos, que vocês amam, isso decide-o cada um no seu íntimo.

Não vou atrás disso, porque não foi isso que me orientou; significaria, em certa medida, diminuir aquilo que é verdadeiramente fascinante que tivemos diante de nós (…) e que nos foi colocado em cima de um prato de prata pelo Paolo: construir uma relação entre um pai e uma filha, afastando-a do cliché de um relato sentimental simplista e colocando-a numa moldura de confronto intelectual, porque os dois são apaixonados pela lei.

Creio que este é o aspeto que verdadeiramente torna única esta relação entre pai e filha: são dois juristas. Por isso, o confronto, quando dávamos conta de que podia descer para a deriva do sentimento fácil, tinha de ser devolvido a um confronto de ideias: como pensas tu nisto e como penso eu; como pensas tu, que tens um pé totalmente no passado, e como penso eu, que tenho um pé projetado no futuro.”

Ao transpor o dilema ético para a esfera do íntimo, Paolo Sorrentino resgata a política como um exercício de humanidade e rigor intelectual. Através do olhar melancólico de Toni Servillo, “La Grazia” prefere a dignidade e a coragem de agir com compaixão à volatilidade do debate público contemporâneo.

  • CINEMAX - RTP
  • 18 Abr 2026 17:14

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