Park Chan-Wook: “Um filme político nunca deveria ser considerado inimigo do cinema”
Na conferência de imprensa antes da abertura do festival, o júri presidido por Park Chan-Wook falou sobre a dimensão artística da política e os desafios da inteligência artificial.
A 79.ª edição do Festival de Cannes começa esta terça-feira, 12 de maio de 2026. No encontro com os jornalistas antes do início das projeções, o júri da competição principal, liderado pelo realizador Park Chan-Wook, fixou as coordenadas éticas e artísticas que orientarão os trabalhos até 23 de maio.
O cineasta sul-coreano rejeita a clivagem entre estética e ideologia, salientando que a qualidade artística é o único antídoto contra a manipulação. “É estranho opor arte e política. Um filme político nunca deveria ser considerado inimigo do cinema. Mas um filme político sem uma verdadeira dimensão artística torna-se propaganda”, afirmou o presidente do júri. Park acrescentou ainda que “um grande filme, mesmo não sendo político, nunca deveria ser ignorado”.
No mesmo encontro, Demi Moore abordou a ascensão da inteligência artificial. A atriz considera a luta contra esta tecnologia como uma batalha perdida e apela à descoberta de formas de colaboração que preservem a alma humana na arte por meio de uma postura de adaptação em vez de negação: “A inteligência artificial já aqui está. Querer combatê-la totalmente é, provavelmente, uma batalha perdida. É preciso refletir sobre a forma de trabalhar com ela”, defendeu. No entanto, Moore ressalvou a singularidade do criador ao afirmar que “o que nunca poderá ser substituído é a alma humana na arte”.
O tom político da conferência acentuou-se com as declarações de Paul Laverty. O argumentista britânico, colaborador habitual de Ken Loach, elogiou a escolha da imagem de Susan Sarandon para o cartaz oficial, aproveitando para manifestar solidariedade com os profissionais que têm sofrido represálias laborais em Hollywood devido às posições públicas sobre o conflito em Gaza.
Posição idêntica sobre a função social da imagem foi partilhada por Isaach De Bankolé, que lembrou a etimologia da palavra política: “Vem de ‘politis’, os assuntos do povo. Um cinema que não aborda os assuntos do povo não seria cinema”.
Por seu turno, o chileno Diego Céspedes, sublinhou a necessidade de democratizar o acesso à realização, vincando que “é importante que não sejam apenas as pessoas ricas a poder fazer filmes”.
O ator Stellan Skarsgård provocou risos ao comentar com ironia a sua tardia inclusão no júri: “Finalmente! Já era hora. Ainda não morri”, gracejou o ator dinamarquês.
Na outra conferência de imprensa antes da abertura das salas, Thierry Frémaux, delegado-geral do festival, regressou aos temas quentes que rodeiam esta edição. Abordou as mudanças estruturais que marcam o panorama cinematográfico norte-americano. Segundo o responsável, a indústria atravessa uma fase de fusões e aquisições que altera o ritmo de produção tradicional, influenciando diretamente a composição das seleções nos grandes festivais internacionais.
O Festival de Cannes abre esta noite com a exibição de “La Vénus Electric”, do realizador francês Pierre Salvadori e a entrega de uma Palma de Ouro honorária a Peter Jackson, realizador de “O Senhor dos Anéis”.