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26 Jun 2026

“Duas vezes João Liberada” é a primeira longa-metragem de Paula Tomás Marques. Estreou no Festival de Cinema de Berlim, ganhou o Prémio de Melhor Realização no Indie Lisboa 2025 e fez caminho em vários festivais internacionais tendo conquistado vários prémios. É uma ficção sobre factos históricos e sobre a construção da biografia de uma pessoa dissidente de género no período da Inquisição Portuguesa.

A procura da existência de pessoas LGBT nos séculos passados e o facto de ser uma pessoa trans foram motivos que levaram a cineasta Paula Tomás Marques a avançar para a realização de “Duas Vezes João Liberada”:

Foi uma urgência também pessoal como uma pessoa trans que tem a ver com compreender que a existência trans é uma existência histórica, que há registos históricos desde antes da Inquisição. Mas vem principalmente da dúvida de como representar essas pessoas do passado que não tinham acesso às categorias que usamos hoje em dia, aos nomes que usamos hoje em dia, uma lógica comunitária que hoje em dia também vamos construindo, dos movimentos sociais.

As vivências eram outras e o filme pergunta-se um pouco sobre se existe uma forma fidedigna de representar as pessoas que já não estão cá para dizer como foram as suas vidas e como viveram, especialmente no caso das pessoas trans e LGBT.

A realizadora Paula Tomás Marques foi à procura das respostas em relatos de historiadores e aos arquivos da Torre do Tombo à procura de registos de julgamentos de pessoas dissidentes de género, nos séculos XVII e XVIII durante o período da Inquisição Portuguesa:

Foram pessoas silenciadas durante muitos anos e oprimidas durante muitos anos e continuam a ser numa altura que tinha um apagamento historiográfico muito claro e que só apareciam nos registos históricos quando se cruzavam com o poder. Por isso temos tanto material sobre pessoas LGBT na Torre do Tombo, no arquivo da Inquisição, porque aí é onde essas pessoas que foram marginalizadas se cruzam com esse poder. Portanto, aí temos um fragmento desses registos.

Esse trabalho foi feito através de cruzamento de informações, ler muitos livros de vários historiadores, alguns com os quais eu concordava, outros que não, outros que sim. Esses historiadores referiam casos específicos e aí, sim, fui procurar esses julgamentos que me interessavam em particular. A personagem da João Liberada, no fundo, é uma espécie de amálgama, uma mistura desses julgamentos. O filme, no fundo, é uma discussão sobre como se lida com esses fragmentos. Porque é impossível construir uma vida inteira, uma vida única, através desses fragmentos.

Durante a recolha de material para a escrita do argumento do filme “Duas Vezes João Liberada”, Paula Tomás Marques ficou surpreendida com a autodeterminação de género que encontrou em muitos dos arguidos nos julgamentos da época:

Uma das coisas que mais me surpreendeu foi, por exemplo, encontrar transcrições de julgamentos de pessoas que se recusavam a ser chamadas com o nome dado à nascença. Ou seja, uma pessoa tinha um nome masculino dado à nascença e, no próprio julgamento da Inquisição, diziam que queriam ser tratadas por um nome feminino. Portanto, casos muito claros de recusar o género atribuído à nascença em que essa existência, possivelmente trans ou dissidente de género, é muito clara e está lá.

Isso é fascinante porque permite à comunidade LGBT, a uma pessoa trans como eu, criar algum tipo de validação histórica. Acho que não deveríamos ter de necessitar dessa validação histórica, mas com os ataques que temos recebido da extrema-direita e desta ideia que se inventa de que as pessoas trans são uma coisa de agora e que é uma moda, etc. enfrenta isso, esses ataques. De repente, estes documentos também podem ser uma arma.

“Duas Vezes João Liberada” mistura vários julgamentos de pessoas LGBT durante o período da Inquisição Portuguesa. Ao mesmo tempo, é um filme dentro de um filme.

A cineasta Paula Tomás Marques imaginou a personagem de João, uma atriz no tempo atual que interpreta uma biografia sobre Liberada, uma jovem dissidente de género perseguida pelo Tribunal do Santo Ofício:

O filme segue uma atriz chamada João, convidada para fazer uma longa-metragem, a sua primeira longa-metragem como atriz principal. E esta longa-metragem é sobre uma figura histórica chamada Liberada, perseguida pela Inquisição por transgredir normas de género e sexualidade.

De repente, esta atriz tem de viver este desafio que muito a entusiasma no início, mas depois começa a perceber que não se identifica com a forma como o realizador está a representar esta figura histórica.

O filme está muito centrado nesse conflito entre o que o realizador quer e o que a atriz, quer. E ela começa a perceber que, de facto, os documentos em que o realizador se baseia são mais fragmentos do que propriamente uma história completa.

Começa a questionar esta ideia de o realizador construir uma história completa quando ela não existe. Depois, começam a haver uns acontecimentos um pouco estranhos durante a rodagem, misteriosos, até o realizador ficar paralisado. O resto, convido-os a que vejam o filme para perceber o que vai acontecer nessa rodagem e como a atriz João vai lidar com a produção desse filme.

A escolha de June João para o papel principal surgiu de forma natural. A atriz participou também na escrita do guião. André Tecedeiro, Jenny Larrue, Tiago Aires Lêdo e Alice Azevedo, entre outros, compõem o elenco.

Paula Tomás Marques defende a diversidade na atribuição de papéis independentemente da identidade de género:

Principalmente, não dar só papéis de personagens trans a pessoas trans. Ou seja, dar papéis de personagens que não têm de ser necessariamente trans a pessoas que são trans. Poderem fazer outros tipos de papéis. Nesse sentido, no filme, temos pessoas trans a representarem personagens cis, pessoas trans a representarem personagens trans. Acho que isso é importante.

A realizadora Paula Tomás Marques reconhece que em “Duas Vezes João Liberada” há uma identificação dos atores com as personagens:

O filme tem um bocadinho de mim em vária personagens ao mesmo tempo. Lá está, é uma autocrítica. Acho que há um bocadinho de mim em várias das personagens. E acho que mesmo nas próprias atrizes e na equipa técnica e artística também, de alguma forma, porque também se interpretam a si próprias, mas também têm a possibilidade de se ficcionarem a si próprias dentro do filme, quando estão diante da câmara e acho que esse exercício é muito bonito porque nos permite pensar o que acontece na indústria do cinema em Portugal e percebermos que coisas desconfortáveis acontecem e que coisas nos unem mais e nos unem menos dentro da própria indústria do cinema.

Acho que fazer um filme meta pode propor também essa possibilidade de nos olharmos assim de fora, de repente, e perceber como estamos a fazer os filmes.

Sem estar a falar em nome de nenhum grupo, Paula Tomás Marques sente a obrigação de dirigir o foco e trazer para o debate a realidade das pessoas trans:

Tenho interesse em falar pelo menos sobre a minha experiência, a minha visão, ou pelo menos das pessoas que participam no filme que também são trans, de poderem transportar um pouco o seu ponto de vista para o filme. Acima de tudo, acho importante o contacto, é essencial por estarmos numa época de confronto.

Acho que o ódio às pessoas LGBT e às pessoas trans que se tem criado vem muitas vezes de um desconhecimento de uma falta de contacto e eu acho que, acima de tudo, é necessário ter essas conversas desconfortáveis.

Mesmo para nós, pelo menos para mim como pessoa trans, sinto que às vezes custa estarmos a falar com uma pessoa que nem sequer valida a minha própria identidade. Portanto, é uma coisa que magoa internamente, ou que mexe internamente connosco. Não é como dar só uma opinião. Nem todas as pessoas trans têm de estar nesse papel, mas eu sinto que é necessário haver esse confronto e sinto poder estar presente e discutir com as pessoas e poder ser uma ponte também.

Há movimentos sociais a fazer um trabalho para que as pessoas compreendam que existe e que faz parte da diversidade do mundo e que as pessoas devem poder expressar o seu eu. Não estão a intervir na vida de ninguém.

O filme Duas Vezes João Liberada não se reduz à comunidade LGBT. Paula Tomás Marques considera que se dirige a todas as pessoas:

A história deste filme vai mais além porque acho que a questão trans toca no fundo, a toda a gente, na verdade. Porque nós falarmos sobre transgeneridade é também falarmos sobre os limites do género e é falarmos sobre estereótipos de género, é falarmos sobre como cada pessoa, seja ela mulher, homem, não binária, ou outras identidades de género, também se sente constrangida por regras sociais.

O que a transgeneridade também traz é uma abertura para repensar aquilo que cada um de nós pode ser e poder mexer aquilo que necessitamos. Portanto, toca a todos. E o próprio filme também não fala só sobre a questão da identidade de género, fala mesmo sobre a questão da memória, como lidamos com a representação histórica.

  • Margarida Vaz
  • 26 de Junho de 2026, 11:31

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