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10 Jul 2026

O filme “Pelo Adam” tem como cenário um serviço de pediatria. A cineasta belga, Laura Wandel, teve curiosidade de perceber que histórias de vida podem acontecer nesse local. Para realizar a longa-metragem fez uma imersão num hospital:

O filme foi um processo gradual. Para começar, senti-me atraída pelo mundo da pediatria e decidi fazer uma imersão, tal como fiz no meu filme anterior, “Recreio”, porque tenho a sensação de que todas as personagens e todas as histórias já estão presentes nos locais.

Durante essa imersão, conheci um pediatra que me contou a história desta mãe convencida de que alimentava corretamente o filho e que não conseguia aceitar que ele tivesse problemas de saúde por culpa dela. O assunto tocou-me profundamente e pensei que devia haver um sofrimento por trás disso. Ao mesmo tempo, durante as minhas observações, deparei-me com a falta de recursos e com profissionais de saúde que têm de trabalhar em condições verdadeiramente difíceis.

Além disso, apercebi-me de toda a importância do aspeto social na pediatria e até que ponto a relação com os pais pode ser determinante na recuperação da criança.

A realizadora parte de um caso clínico verdadeiro. No filme, acompanha o pequeno Adam, uma criança de quatro anos, que sofre de desnutrição.

Por decisão do juiz, o menino está internado e a mãe tem visitas limitadas. Porém, a enfermeira-chefe Lucy autoriza que Rebeca fique ao lado do filho para além do horário. Pouco ou nada se sabe sobre esta mãe e esta criança e o que leva a estes problemas de alimentação:

É uma mãe que não tem confiança em si própria e como o hospital é uma instituição onde tempo é sempre muito importante, acabam por não conseguir compreender o que se passa realmente. É muito mais fácil julgá-la como uma má mãe do que tentar compreendê-la e tentar devolver-lhe a confiança.

E é isso que a enfermeira Lucy compreende, que é preciso devolver a confiança a esta mãe, que o problema é mais vasto do que simplesmente a questão da alimentação. Queria também que o espectador ficasse, no fim de contas, quase na mesma situação que a enfermeira, que não sabe grande coisa, mas que perceba a dor, a falta de confiança e a fragilidade desta mulher e vai lidar com ela.

As filmagens decorreram em diferentes hospitais na Bélgica, perto da cidade de Liège. O trabalho de pesquisa e imersão decorreu no hospital de Saint-Pierre, em Bruxelas. A realizadora acompanhou a azáfama dos profissionais de saúde:

Quando se passa muito tempo a observar as enfermeiras, vê-se que elas andam quilómetros e quilómetros. Na maioria das vezes não andam com o cabelo solto por uma questão de higiene. Há o caráter repetitivo do trabalho, muitas vezes mal têm tempo para se sentarem a comer. Foi precisamente essa pressão que quis captar e retratar.

O fato de seguir a personagem, de filmar de costas, acho que é também uma forma de envolver o espectador. Além disso, quando estive em imersão no hospital, era eu que as acompanhava.

Filmei com a câmara no ombro, porque é a melhor forma de filmar para conseguir esse aspeto, um aspeto imersivo. A ideia era que o espectador também pudesse sentir o filme, que não fosse apenas uma experiência intelectual, mas também uma experiência física.

Na escolha dos atores, Laura Wandel escreveu o papel da enfermeira Lucy para a atriz Léa Drucker. O desempenho de Anamaria Vartolomei no filme “O Acontecimento” ajudou na decisão para o papel da mãe, Rebeca. O pequeno Adam é interpretado por dois irmãos gémeos, Jules e Léo:

São dois gémeos, na verdade. O que me tocou mais profundamente no Jules, o que vemos mais no ecrã, é que tinha cinco anos e uma maneira de olhar nos olhos os adultos que achei muito impressionante.

Como estes gémeos nunca tinham atuado para entrarem na história, explicámos-lhe mais ou menos a cena, pedimos-lhes para brincarem, para representarem com os bonecos, para que compreendessem bem que não eram eles, mas eram personagens. Fizemos todas as cenas assim.

No momento das filmagens, tinham os desenhos e, ao mesmo tempo, eu podia dirigi-los em direto. Para eles, foi sempre algo lúdico.

A primeira longa-metragem de Laura Wandel foi “Recreio”, um filme sobre o ‘bullying’ numa escola. Na segunda longa-metragem, “Pelo Adam”, repete o drama social. A cineasta tem como inspiração o cinema dos realizadores belgas, os irmãos Dardenne:

Eles são coprodutores e é verdade que aprendi muito com o cinema que eles fazem. É, acima de tudo, uma reflexão sobre o ser humano. E sobre a forma de mostrar a sociedade em que vivemos. Para mim, isso é algo bastante importante.

Não estou a dizer que vou necessariamente fazer sempre filmes sociais. O meu filme anterior foi sobre a escola. Agora, é sobre o hospital, são sempre instituições. O que gosto é que, na verdade, isso representa uma espécie de pequena sociedade e é sempre um espelho de como a sociedade funciona.

Em breve, se tudo correr bem para o próximo filme, irei partir de uma personagem, mais do que de um local. Será outra coisa.

A atriz franco-romena Anamaria Vartolomei, que recebeu vários prémios pelo desempenho no filme francês “O Acontecimento”, tem aqui o papel de Rebeca, a mãe de Adam:

É uma jovem mãe, bastante desorientada, que acaba por tomar, de certa forma, algumas decisões erradas para o seu filho, porque ela própria está um pouco perdida. Mas, para que a criança se sinta bem, é preciso que os pais se sintam bem.

A verdade é que ela está completamente perdida e precisa de se reencontrar. Tenho a impressão de que é alguém que se apagou completamente por trás do seu papel de mãe; por isso, coloca muita pressão sobre si própria para ser uma boa mãe, para fazer as coisas certas e proíbe-se de falhar no seu dever.

Essa pressão pode levá-la a agir de forma errada aos olhos dos outros, mas, no fundo, não é alguém que procure intencionalmente fazer mal ao filho, porque é a si própria que ela prejudica acima de tudo.

Vai estabelecer-se uma relação entre ela e a enfermeira Lucy e as duas vão, de certa forma, salvar-se mutuamente.

A vida de Rebeca, a mãe de Adam, é um enigma, mas Anamaria Vartolomei acredita que esta jovem mãe não quer intencionalmente fazer mal ao filho:

A Rebeca é, de certa forma, um enigma para nós. Se ela não dá de comer ao filho, poderá sempre ter tido problemas anteriores com a alimentação, por motivos psicológicos, ou ecológicos. No fim de contas, não era muito importante perceber o porquê, mas sim ver o quanto ela está mal e precisa de fugir, sair daquela situação.

A reconhecida atriz francesa Léa Drucker interpreta a enfermeira Lucy, que compreende o drama desta família monoparental e vai ajudar o Adam e a mãe, mesmo indo contra as chefias e a decisão judicial:

A Lucy é uma mulher de 50 anos, enfermeira no serviço de pediatria de um hospital. É uma profissional muito competente, que conhece bem a profissão e lida com crianças que têm não só problemas físicos, mas também, por vezes, problemas com os pais.

São enfermeiras com várias responsabilidades, responsabilidades administrativas, da sua vida pessoal. Têm de conciliá-las com o tempo de que dispõem e, ao mesmo tempo, com a carga emocional de lidar com crianças, de compreender que, para que a criança se sinta bem, é preciso que a mãe também se sinta bem e a mãe está a passar por dificuldades. Ao mesmo tempo, a administração hospitalar diz que não há tempo para cuidar dos pais, pelo que elas se encontram realmente em situações difíceis.

O interesse desta história está na forma como esta enfermeira vai lutar, a partir de dentro, para defender o interesse do Adam para que ele melhore, algo que passa por cuidar da mãe dele num contexto em que isso não é possível.

Léa Drucker valoriza o trabalho dos profissionais de saúde. Ao longo da carreira, já interpretou diversos papéis, mas este foi o que a mais sensibilizou:

Foi muito comovente, mexeu muito comigo, porque pude conhecer o dia-a-dia de uma enfermeira de uma forma mais realista e perceber as dificuldades desta profissão, a importância que elas têm na nossa sociedade.

Fiquei feliz por poder fazer um filme em que se retrata este trabalho e que lhes preste homenagem, porque os profissionais de enfermagem são realmente pessoas que devemos proteger e valorizar.

  • Margarida Vaz
  • 10 de Julho de 2026, 18:20

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