“Playback”: o lado íntimo e melancólico de Carlos Paião
Sérgio Graciano regressa às salas de cinema com a biopic sobre Carlos Paião. Em entrevista, o realizador explica o desafio de erguer um musical invulgar, revela como a descoberta de maquetas inéditas influenciou o projeto e elogia a entrega de Rafael Ferreira no papel do cantor e compositor.
Nesta temporada de verão nos cinemas, escuta-se de novo Carlos Paião, interpretado por Rafael Ferreira, que também canta os principais temas num filme biográfico e musical realizado por Sérgio Graciano.
Entre as biografias dedicadas a políticos, como Salgueiro Maia, Mário Soares, ou Álvaro Cunhal e os artistas como Carlos Paião, qual é o mais interessante de trabalhar?
São todos interessantes. Como sou muito ligado à música este é especial para mim. Os outros são figuras incontornáveis da história portuguesa. O Carlos Paião tem um peso completamente diferente de alguém que teve uma morte muito precoce quando estava assim no auge da carreira.
Está encerrada a atividade cinematográfica em torno de figuras da vida portuguesa?
Não sei responder a isso, os projetos vão aparecendo, não os escolho, são eles que me escolhem, por isso, se alguma figura portuguesa me escolher, lá terei de fazer, com muito prazer.
O que foi mais determinante na construção do filme?
Nós tivemos uma relação muito próxima com a viúva do Carlos, a Zaida, e ela foi-nos pondo a par de tudo o que o Carlos era. As pessoas conheciam muito pouco dele, e eu fui conhecendo um bocadinho mais por causa das conversas que fui tendo com ela e com a Marisa, que é a prima da Zaida.
Começámos a achar que o Carlos era muito esta pessoa que está no filme, com o desconto romântico de contar uma história na imagem, mas quisermos contar aquela parte do Carlos Paião que ninguém conhece. As coisas que o atormentavam, as coisas que o faziam andar para a frente, as coisas que o faziam rir. Ele já não viveu nesta nossa época, já não existem muitos registos do Carlos Paião e foi muito interessante criar a vida e a cabeça desta pessoa, e dar-lhe uma roupagem moderna.
A presença da Zaida Cardoso, interpretada pela Laura Dutra, é determinante em praticamente todas as cenas e esse lado mais romântico que se reflete nas músicas acaba por também ser algo que deliberadamente valorizaste na linha narrativa do filme?
Sim, para já eu acho que nada se faz sem o amor, e aqueles dois amavam-se profundamente. Basta falar com ela, a Zaida voltou a casar e adora o marido, mas enquanto viveu com o Carlos foi muito feliz. Isto também era a coisa difícil deste filme, contar uma história feliz, porque quando não há conflito é muito mais difícil arranjar caminho para uma história. Por isso, servimo-nos muito da Zaida, por isso é que ela está muito presente no filme que também é muito uma visão dela sobre ele, e foi uma linha difícil, mas fácil de se cozer, porque ela era muito ligada ao Carlos.
A Laura esteve algumas vezes com ela e foi trocando bastantes palavras com ela, e a Laura consegue um trabalho incrível neste filme também devido às conversas que foi tendo com a Zaida.

E no processo de investigação, escrita de argumento, concretização do próprio filme, refletindo o imaginário de Carlos Paião, o que foi mais surpreendente para alguém, como já assumiste, que não conhecia tão bem Carlos Paião?
Bom, a música é incrível, ele estava muito à frente da sua época no que diz respeito à composição musical. É um ‘pop’ bem-disposto, mas lá por baixo há qualquer coisa melancólica e eu não conhecia esse lado do Paião, eu era miúdo, eu não tenho assim tanta idade como isso.
Carlos Paião morreu em 1988, com 30 anos.
Descobri esse lado do Carlos Paião que eu acho que ninguém conhece que é o talento infindável, porque ele tinha mais de 200 músicas ainda em maquetas, e nós arranjámos, a Zaida tem todas e isso foi incrível de descobrir. Trabalhei muito com o Paulo, o Legendary Tigerman, e ele tem exatamente a mesma opinião que eu. As pessoas desenham uma memória de uma pessoa e de repente são surpreendidos. Foi isso que me aconteceu a mim e ao Paulo e foi uma história que gostámos muito de contar também por causa disso.
Diria que as músicas são determinantes na construção de todo o eixo dramático, mesmo quando aquilo que está a ser contado é íntimo, porque há uma série de cenas que correspondem a canções que reconhecemos como o “Pó de Arroz”, como o “Cinderela, o próprio “Playback”, obviamente, sucesso no Festival da Canção.
Essa é talvez a maior originalidade do filme. Foi um desafio para ti encontrar a forma de coreografar esses momentos dentro da própria história como na tradição do musical, no fundo?
Foi, foi porque as músicas são narrativas neste filme. E os vídeos também são narrativos neste filme e queria fazer uma linguagem nesta linha, que é uma linguagem menos comum no nosso país, mas tentei fazer um musical que não fosse cantado, e com momentos narrativos que empurravam a história, neste caso.
Foi difícil porque é como atirar-me de um penhasco e não saber quando vou chegar lá abaixo, por ser diferente. Inspirei-me em muitos filmes musicais, revi alguns…
Tens alguma referência?
A grande inspiração deste filme diria que foi o “One from the Heart”, do Coppola, porque é uma visão muito romântica num musical, muito cheia de cor e de luz que foi completamente diferente de todos os outros.
Não sou arrogante ao ponto de dizer que o “Playback” é um musical diferente de todos os outros, mas é a minha leitura do que pode ser um musical em Portugal com a música a avançar na história, e eu acho que o “One from the Heart” também tem essa componente.

Vamos falar das músicas, porque o “Playback” é a música óbvia, mas não é a mais surpreendente deste filme. Perante três centenas de canções e algumas descobertas no arquivo da Zaida Cardoso, como escolheste as nove que ficaram no filme?
Não fui só eu, foi também o Mário Cenicante, que é um dos argumentistas. Quis que fossem as mais conhecidas, e a nona música, a última, a original, nem sequer fui eu. Tinha cinco músicas que a Zaida me tinha passado, ouvi-as, entreguei-as ao Paulo Furtado e ele disse, ‘olha, acho que esta aqui é a melhor’, e chegamos àquela música do “Lisboa Lisboa”. As outras foram mais ou menos escolhas óbvias, sei que no “Variações” o caminho foi outro, não escolheram todas as músicas mais conhecidas, aqui quis que fossem, porque são todas músicas muito ‘orelhudas ‘e as pessoas identificam-se com as músicas, identificam-nas e diria que pode ser uma ajuda muito grande nesta coisa das pessoas irem ao cinema.
Ouvi-las de novo, agora coreografadas para cinema e também com opções cénicas que vão ser descobertas no filme com um momento visual para cada música. Foi fácil para o Rafael Ferreira que aceitou o desafio de interpretar Carlos Paião, mas sobretudo cantá-lo?
Foi. Isto foi uma condição, ou seja, foi um casting grande que fizemos. A primeira fase de casting era cantar e, depois, quem cantasse melhor vinha fazer a parte narrativa.
O Rafael foi o melhor neste processo e já sabia ao que ia porque percebeu nos castings o que lhe ia acontecer à vida. É um ator incrível, faz este filme muito bem e as pessoas nem imaginam o que ele tem em cima da cara porque ele tem o nariz, tem dentes, cortaram-lhe as sobrancelhas, deixou crescer a barba, ou seja, não sei se o conheces ou se já o viste, quando o vires não vais perceber que é o Carlos Paião. Foi muito corajoso, muito voluntarioso e esteve sempre ao nosso lado, a respeitar e a fazer aquilo que lhe íamos pedindo.