Saltar para o conteúdo principal

21 Abr 2026

A narrativa de “Projecto Global” fixa-se num país que enfrentava as amarguras de uma democracia jovem e frágil. Entre fábricas encerradas e a desilusão de quem via os ideais de Abril fragmentarem-se surge uma organização armada de extrema-esquerda que vive na clandestinidade, entre assaltos e perseguições policiais.

Jani Zhao, Rodrigo Tomás e José Pimentão interpretam os principais papéis no novo filme de Ivo Ferreira que iniciou o seu percurso com documentários e curtas-metragens, para se consolidar nas longas-metragens de ficção, primeiro com “Cartas da Guerra” (2016), baseado na obra de António Lobo Antunes, e depois com “Hotel Império” (2018), obra rodada em Macau — onde o realizador residiu durante vários anos.

Em “Projecto Global”, Ivo Ferreira opta por um thriller político de cariz humano. Mais do que uma análise histórica é um exercício de memória sobre um momento em que a resistência política se transforma em violência.

O filme teve apresentação mundial no Festival Internacional de Cinema de Roterdão e chega esta semana às salas nacionais.

Ivo, considerando que nasceste em 1975, em que momento surgiu o teu interesse pelo processo revolucionário das FP, Forças Populares 25 de Abril?

Eu sou filho de atores e vivia mais ou menos no Teatro A Comuna, onde estava também O Bando – os meus pais foram fundadores do O Bando – era um espaço muito específico, onde estava uma série de grupos de teatro, havia até ilusionistas, uma série de malta que passava por ali, cantores de intervenção, uma série de associações civis e culturais que rodavam à volta da Comuna e, entre eles, com certeza, alguns elementos ligados, de alguma forma, não faço ideia o quanto, sinceramente, às FPs 25.

Foi no seguimento de tudo isso que assisti, em miúdo, a ver a polícia ir ao teatro e levar uma pessoa presa.

“…um país que não enfrenta os seus traumas de frente, vai demorar mais tempo a ultrapassá-los.”

“Projecto Global” é uma ficção do real, ou uma ficção livremente inspirada em factos reais? Esta pergunta também está relacionada com a complexidade da tua investigação para consolidares o argumento.

É verdade que entre esse momento em que vi alguém ser preso e  perceber que queria fazer filmes e chegarmos a hoje, demorei alguns anos a ter a coragem de abordar este assunto, não só pela dificuldade, pela ambivalência moral e também porque tecnicamente era um filme muito complexo.

O que me valeu foi que, desde início, falámos com o Francisco Bairrão Ruivo, historiador com um doutoramento sobre história contemporânea portuguesa e até sobre o PREC. Levámos a cabo uma investigação sólida e profunda.

Há coisas que não são fáceis,  podes ter acesso aos apensos que estão em tribunal, mas ir lá depois realmente vê-los… Eles dão-te licença para procurar, mas juro-te que parece uma brincadeira, parece mesmo à filme. Imagina o Francisco a sair lá de dentro com um monte de papéis agarrados com corda e, depois, tanto querem que tu investigues sobre o assunto que te dão aquelas mesas que temos na escola, aquelas pequeninas.  Ou seja, ao pousares ali aquela resma, imagina, sem cadeira nem nada, a facilidade que tens realmente de andar a viajar nessa documentação que está disponível para investigar, mas pouco, digamos.

Por outro lado, houve um trabalho muito importante, que era falar com os ex-operacionais, evidentemente com aqueles que se disponibilizavam a falar e que achavam que tinham alguma coisa a dizer, e até com alguns do outro lado da barricada, com inspectores da Polícia Judiciária que estavam no ativo na altura e que acompanharam as investigações, ou as prisões, já numa fase posterior quando a organização é desmantelada, no início da Operação Órion, uma grande operação policial que envolve cerca de 300 ou mais polícias.

O Francisco e eu fomos fazendo essa pesquisa e, ao mesmo tempo, íamos descobrindo pérolas e pérolas. Quando digo pérolas é porque há histórias fabulosas. Claro que, a partir de certa altura, o filme fica mais duro e há violência, mas no início há uma série de histórias meio escabrosas que fomos recolhendo com muito entusiasmo.

“…à medida que o tempo foi passando, fomos olhando uns para os outros e percebemos que o filme fazia cada vez mais sentido.”

Há uma de que até se fala no filme, eles tinham de fazer um assalto,  viviam de recuperações de fundos, como lhe chamavam, que eram assaltos a bancos, para financiarem a organização, segundo eles para não ficarem dependentes de grandes patrocinadores, para não ficarem dependentes politicamente nem da União Soviética, nem deste, nem daquele.

E depois faziam muitas falsificações para a documentação dos operacionais e para para saírem do país. Então, uma vez, foram roubar aos Correios, roubar uns carimbos, só que se esqueceram que a esquadra da polícia se tinha mudado mesmo para o lado.

Entretanto, como não tinham armas de médio e pequeno porte, o que havia muito em Portugal eram G3, uma metralhadora gigante e pesadíssima, acabaram, por ter de andar com gabardines de inverno em pleno verão para fazer este tipo de operações. Está aqui um lado rocambolesco, de uma certa portugalidade. Claro que estamos a falar de um grupo que tirou a vida a pessoas, mas há um lado cómico, sim.

A investigação, por um lado, deu origem a um documento científico,  por outro lado, libertou-me completamente para a minha história, para a ficção.

Respondendo concretamente à tua pergunta, o que é verdade é que eu confundo muito o que penso, o que imagino, o que sonho, tenho grande facilidade em misturar os temas, há muitas coisas, hoje em dia, que já não sei de onde foram retiradas, se foi algo contado pelos operacionais, se foi contado pela Polícia Judiciária, se foi lido algures, ou se foi uma história já meio contada. O que é verdade é que o filme teve de se libertar completamente dessa carga, até porque, apesar de tudo, há vítimas mortais e, por respeito, houve uma tentativa de criar episódios, ou seja, há uma invenção absolutamente inspirada em factos e pequenas histórias gerais, é uma obra de ficção.

Por outro lado, no dia 23, no mesmo dia da estreia do “Projecto Global”, vai ser editado pela Tinta da China um livro do Francisco Bairrão Ruivo que, esse sim é científico e se situa exatamente durante o mesmo período em que acontece o filme.

“A discussão para mim é uma coisa fundamental e importantíssima para a manutenção da democracia.”

Olhando para a realidade política do país, porque é que é importante hoje ver o “Projecto Global”?

Quando o filme começou a ser pensado, ou seja, em dezembro de 2017, o contexto político não era este, ou seja, a sociedade não estava polarizada como hoje está.

Eu não sou nada oportunista, nem o filme é oportunista e não vou dizer que foi feito em resposta, por termos uma assembleia com 60 representantes… seria muito interessante. Nas não é verdade que assim seja, mas é verdade que foi um filme feito sempre com as tensões do presente.

Há uns anos, eu, o Luís Urbano e o Sandro Aguilar, que são os produtores do filme, olhávamos para isto e dizíamos, mas porque raio é que se vai fazer um filme sobre uma coisa que ninguém sabe, nem se lembra, nem o raio, ninguém conhece, e sobretudo que era uma época muito polarizada, que era irreconhecível e que hoje não é.

E à medida que o tempo foi passando, fomos olhando uns para os outros e percebemos que o filme fazia cada vez mais sentido.

Os crimes e aquilo que aconteceu com as Forças Populares 25 de Abril é mais interessante do ponto de vista cinematográfico do que a violência armada dos movimentos de direita e de direita radicalizada?

Vão ter que fazer esses filmes para vermos quais é que serão…

É interessante e difícil, à luz de hoje, pensarmos estes movimentos, mas é bom que se tenha em mente que, não vou dizer todos, poderia estar a dizer um disparate, mas grande parte dos partidos tiveram de alguma forma, ou seja, legitimamente durante a ditadura e mesmo a seguir até ao processo revolucionário em curso, um braço armado, ou pelo menos pensaram muito em tê-lo. Por isso, aos olhos de hoje, claro que tudo isto não faz sentido, felizmente ainda não faz sentido.

Não tínhamos, ao contrário do Brasil, um filme que pudesse ser visto neste contexto tão polarizado da mesma forma que “O Agente Secreto” e o “Ainda Estou Aqui”. Portanto, faço-te a mesma pergunta que fiz ao Kléber Mendonça Filho e ao Walter Salles em entrevistas recentes: como esperas que o filme seja recebido num país polarizado?

Quando vês o filme do Salles, vês assim, Brasil, 1980, ditadura militar. Pumba. É tudo o que tu precisas de saber para ver o filme. Podes não saber a história do Brasil, podes não saber de nada, e pronto, de repente fica arrumado assim.

Imagina que queres pôr um cartão no princípio do projeto global, a contextualizar o movimento, a contextualizar a ação. Nunca mais acabava, ou seja, há precisamente algumas dificuldades que tentámos não enfrentar de peito aberto. A coisa mais importante para mim foi que o filme fosse uma espécie de um comboio onde estávamos e onde íamos recebendo as personagens, ou íamos atrás das personagens e que pudéssemos estar contagiados por esse ambiente, como uma tentativa de reviver de alguma forma essa energia.

Receias que o filme suscite alguma controvérsia ou ações mais agressivas?

A discussão para mim é uma coisa fundamental e importantíssima para a manutenção da democracia. Eu acho que há aqui uma grande confusão. O conflito é importante para a manutenção da democracia. O conflito não é o ódio, não é a violência. O conflito é nós discutirmos e defendermos até à morte que tu possas ter a tua opinião, ainda que seja contrária à minha. Muita gente não está de acordo com esta ideia e daí pode haver alguma coisa negativa.

Faltava este filme na cinematografia portuguesa, ou seja, pensando nos anos de chumbo e pensando que temos toda uma tradição de ficção riquíssima e estimulante sobre outros movimentos violentos, terroristas, como sucedeu com o IRA na Irlanda, a ETA em Espanha, o Exército Vermelho na Alemanha, as Brigadas Vermelhas em Itália, sentiste ao longo destes anos que este filme também deveria ser feito para preencher essa lacuna no nosso imaginário cinematográfico?

Faltava-me a mim fazer este filme, antes de tudo. Depois, se faltava ao país, o futuro dirá. Acho que, apesar de tudo, um país que não enfrenta os seus traumas de frente, vai demorar mais tempo a ultrapassá-los.

Eu diria que demorou muito tempo a surgir um filme com esta narrativa, sobre esta acção.

E é estranho, como cria tantos nervosismos. Compreendo da parte das familiares das vítimas que seja sempre muito doloroso…. Apesar de tudo, já quando foi com o “Cartas da Guerra”, dizer que ia tratar a guerra colonial, no ponto de vista do António Lobo Antunes. Também diziam que ia ter ameaças de morte: ‘Angola não vai querer, e Portugal não vai querer e o exército não vai querer’. E, no fim, eu acho que o cinema pode ajudar a sarar cicatrizes, ou pelo menos… Isto não tem que ser condenador, não tem que ser nada disso, mas pode ser, apesar de tudo o facto de nós termos consciência que torcemos um pé, pode nos ajudar a ultrapassar a dor, porque vamos ter necessariamente mais cuidado e tal.

Há mais algum momento da história recente de Portugal, que gostarias de filmar, além daqueles que já imaginaste no teu cinema?

Eu quero um dia ver-me livre disto, mas os meus próximos dois filmes ainda são à volta disto. O meu próximo filme chama-se “Mágicos do Império”. Era uma coisa que começou a ser sobre a tortura do sono, uma coisa que estudei desde muito miúdo, quis fazer um espetáculo sobre isso quando tinha 16 anos, imagina, na altura a Secretaria de Estado da Cultura disse que era muito novo, agora que já tenho 18, acho que já me deixam fazer isso.

O meu próximo filme também tem a ver com a tortura do sono, os “Mágicos do Império” são um grupo de ilusionistas que anda de terra em terra até que é apanhado pela PIDE e é torturado e percebe-se que eles também aproveitavam e passavam pessoas, já em 73, passavam estudantes e malta fugida à guerra e fugida à PIDE para o outro lado do rio, para Espanha, para depois se refugiarem em França, ou na Argélia.

O filme logo a seguir é o “Comissão de Verdade” e espero logo depois acabar completamente esta fase.

Já agora, “Comissão de Verdade” foi o nome que usou a Maria José Oliveira quando editou no Público, na P2, durante sete semanas, a descoberta que foi feita na Torre do Tombo de 12 caixas fechadas com uma série de segredos e eu, como gosto muito de segredos da nossa história contemporânea e gosto muito daquelas páginas ausentes dos livros de história quando estávamos na escola, ainda vou andar à volta disto, mas espero depois reformar-me, ou de vez, mas como não sei, não sei que raio de reforma terei eu, ou reformar-me deste tema.

Há algo que é estimulante no projeto e é obviamente a dimensão cinematográfica, falamos muito de política, mas não havia como evitar essa dimensão que passa pela reconstituição da época, pela estética, pela sonoridade, pela plasticidade, pela cor, pelo guarda-roupa. Isso foi muito estimulante?

Isso foi muito estimulante, mas isso foi, digamos, um dos principais desafios, o facto de estar a trabalhar a ambivalência moral das personagens e do filme, ou seja, o facto do filme começar a existir a partir da dúvida e desta ambivalência moral não permitia que eu tivesse falhas no sentido de que não podes confundir ambivalência com uma coisa vaga, não é? Então, tinha de ter um grande rigor estético e histórico.

Pegámos em largos vazios, por exemplo, onde vês o grande assalto, que está lá, o Largo é vazio, quer dizer, não existia banco nenhum, foi construída uma super estrutura que encaixa naquele edifício para ser feito ali um banco, quando se entra nesse banco está-se num estúdio no Luxemburgo.

Há uma dimensão de produção e também foi por isso que o filme demorou tanto tempo a fazer e foi tão caro, mas era muito importante para mim fazer o filme sem espinhas, sem este tipo de espinhas que costumamos ter, às vezes, pelas nossas condições. Tens muitos tiros, explosões, uma série de coisas que são normalmente muito caras. Houve uma grande teimosia em fazer tudo, ou seja, são tudo efeitos práticos. Quando as armas disparam, disparam mesmo e há sempre uma bala que toca na parede.

Todo esse trabalho foi absolutamente fantástico e nós tínhamos a consciência, todos os dias, de que o que tínhamos feito nesse dia parecia impossível e ia-nos dando energia e força para repetir no dia a seguir.

Mas posso dizer, por exemplo, que a maior parte dessas cenas não poderiam ter segundo take, porque o reset de uma cena de explosão, quer dizer, limpar todo um largo, tirar o pó da roupa de setenta figurantes, não era possível, já não teríamos filmado, e toda essa concentração, e mesmo para os atores, o facto das armas darem mesmo um coice, fazerem mesmo ruído, tudo isso, eu acho que nos ajudou a ter o corpo e a mente nesta drive que é o filme, que é o “Projecto Global”.

  • tiago alves
  • 21 Abr 2026 12:18

+ conteúdos