Saltar para o conteúdo principal

11 Jun 2026

A estreia nas salas de cinema de “O Dia da Revelação” assinala o regresso de Steven Spielberg à ficção científica, género que lhe cimentou a reputação e garantiu alguns dos maiores êxitos de bilheteira. Exercício de entretenimento, a nova longa-metragem é, ao mesmo tempo, um projeto profundamente pessoal, assente numa história escrita pelo próprio realizador.

O argumento explora as ramificações globais da divulgação de informações relativas a contactos com vida extraterrestre. A temática tem acompanhado Spielberg ao longo de várias décadas. Em declarações recentes à revista Empire, o cineasta sublinhou que lhe interessava responder à velha questão “estaremos sozinhos no cosmos?” uma dúvida que o acompanha há sete décadas.

“Encontros Imediatos do Terceiro Grau” (1977)

Ao longo do seu percurso, Spielberg assinou obras incontornáveis sobre a vida alienígena, abordando-a sob prismas distintos. Em 1977, “Encontros Imediatos do Terceiro Grau”, ofereceu uma visão de descoberta e deslumbramento. Cinco anos mais tarde, em 1982, “E.T. – O Extraterrestre” converteu-se num conto humanista sobre amizade e empatia. Já em 2005, o realizador inverteu o registo ao filmar o terror e a paranoia de uma invasão em “A Guerra dos Mundos”, adaptado da obra homónima de H.G. Wells.

Este renovado interesse pelo fenómeno foi impulsionado por uma reportagem publicada em 2017 pelo jornal “The New York Times”, sobre um programa do Departamento de Defesa dos Estados Unidos dedicado à investigação de fenómenos aéreos não identificados. Esse programa, dotado de 22 milhões de dólares, envolveu diretamente o empresário Robert Bigelow, colaborador da NASA que publicamente se declarou “absolutamente convencido” de que a Terra já foi visitada por objetos voadores não identificados.

Segredos, mentiras e aliens

Emily Blunt é a apresentadora da meteorologia que descobre ter misteriosas capacidades.

Com “O Dia da Revelação”, o realizador retoma as interrogações que lançara há quase meio século em “Encontros Imediatos do Terceiro Grau”, assumindo encontrar-se hoje ainda mais convicto da existência de vida inteligente fora da Terra do que quando rodou o clássico de 1977.

Para liderar o elenco, Spielberg escolheu Emily Blunt e Josh O’Connor.

Blunt interpreta Margaret Fairchild, apresentadora da meteorologia numa estação de televisão local em Kansas City, Missouri. Após o avistamento de um misterioso pássaro vermelho, Emily começa a manifestar faculdades mentais invulgares. Consegue falar várias línguas sem perceber que o está a fazer; consegue ler mentes; e, quando está em direto a apresentar o boletim meteorológico, a sua boca abre-se e começa a emitir cliques perturbadores, aparentemente não humanos, que transmitem notícias preocupantes.

O destino de Margaret cruza-se com o de Daniel Kellner, personagem interpretada por Josh O’Connor. Daniel é um especialista em cibersegurança que encontrou informações confidenciais sobre a atividade extraterrestre na Terra. Decide que são demasiado importantes para serem mantidas em segredo e planeia divulgá-las acompanhado pela namorada Jane (Eve Hewson), uma antiga noviça que desistiu de ser freira e agora luta por alinhar a vocação perdida com estas revelações.

Colin Firth interpreta Noah Scanlon, o antagonista que persegue Margaret e Daniel. Scanlon é o líder da Wardex, uma empresa contratada pelo governo para manter em segredo a existência de vida alienígena. Uma empresa que há décadas trabalha com sucessivos governos dos EUA, aconselhando-os sobre como devem lidar com incursões extraterrestres e como conter e suprimir as notícias sobre estes eventos.

Colman Domingo no papel de Hugo Wakefield.

O elenco principal de “O Dia da Revelação” completa-se com Colman Domingo no papel de Hugo Wakefield, um antigo chefe da Wardex que deixou recentemente a empresa e defende a divulgação da informação relativa à existência de vida extraterrestre. Wakefield estabelece contacto com Daniel e Margaret e vai coordenando as suas manobras de fuga.

Apesar da densidade da premissa, “O Dia da Revelação” é, sobretudo, uma história de ação e aventura que não se deve levar demasiado a sério, onde o cineasta recicla os mitos habituais das conspirações com aliens, sejam os círculos nas colheitas, ou as atividades que ocorrem na misteriosa Área 51 em Roswell, no Novo México.

Uma Herança Complexa

Roy Scheider em “Tubarão” (1975).

A importância de Steven Spielberg — que completará 80 anos no próximo mês de dezembro — confunde-se com a própria evolução da indústria do cinema norte-americano. Ao lado de George Lucas, o realizador redefiniu os moldes da distribuição e exibição cinematográfica na década de 1970. Os lançamentos em larga escala de “Tubarão” (1975) e “Guerra das Estrelas” (1977, realizado por Lucas) fundaram o conceito do blockbuster moderno, estabelecendo a base de um modelo comercial que ainda hoje vigora, apesar da concorrência do streaming.

O impacto comercial do cineasta é mensurável: Spielberg partilha com Cecil B. DeMille o recorde de realizador com mais títulos no primeiro lugar da bilheteira norte-americana no ano de estreia, somando cinco filmes nessa posição (“Tubarão” em 1975, “Salteadores da Arca Perdida” em 1981, “E.T. O Extraterrestre” em 1982, “Indiana Jones e a Última Cruzada” em 1989 e “Parque Jurássico” em 1993). Supera, neste indicador, nomes como James Cameron, ou William Wyler, que contam com quatro títulos cada.

John Belushi em “1941 – Ano Louco em Hollywood” (1979).

Porém, a carreira de Spielberg não se fez sem alguns passos em falso como quando experimentou a comédia em “1941 – Ano Louco em Hollywood”, ou em fórmulas mais sentimentais como “Sempre”, ou “O Amigo Gigante”. Ainda assim, é justo reconhecer-lhe a coragem. Spielberg nunca receou experimentar fora dos géneros que lhe trouxeram fama. Provou-o no drama com “A Cor Púrpura”, na abordagem de temas delicados de forma arrojada em “A Lista de Schindler”, ou a reescrever o modo como se filmam cenas de combate em “O Resgate do Soldado Ryan” onde a extraordinária meia hora inicial, compensa a fragilidade do argumento que se segue.

Ao mesmo tempo, o impacto de Spielberg — indissociável do seu amigo George Lucas — deixou uma herança ambivalente e complexa. De forma inadvertida, a revolução dos blockbusters modernos que ambos iniciaram plantou a semente do problema que hoje afeta o cinema norte-americano, ao abrir caminho para uma dependência estrutural dos efeitos visuais, das grandes produções e da rentabilidade imediata.

“Tubarão” e “Star Wars” estrearam em 1975 e 1977, respetivamente. Em 1980, a mudança de paradigma já era evidente e o blockbuster de ação e aventuras passou a ser a receita para o sucesso de bilheteira. Este modelo económico e criativo levado ao extremo nas últimas décadas acabou por condicionar o espaço de produções de cariz mais adulto e diversificado, resultando na atual saturação de franquias e projetos baseados em propriedades intelectuais pré-existentes.

“Parque Jurássico” (1983).

Apesar deste apontar de dedo à influência de Spielberg no fraco estado do cinema americano do presente, é indiscutível reconhecer-lhe o génio em momentos marcantes. “Tubarão” continua a ser um daqueles filmes que é obrigatório ver e rever para perceber a beleza e as possibilidades da linguagem cinematográfica. Uma marca indelével que Spielberg deixa e se estende à frescura das primeiras aventuras de “Indiana Jones”, ao impacto visual de “Parque Jurássico”, ou à beleza épica de “O Império do Sol”.

“O Dia da Revelação” surge, assim, como o mais recente capítulo de um autor que, tendo moldado de forma indelével a máquina industrial de Hollywood, regressa ao território da juventude para encerrar o ciclo da sua mais antiga inquietação criativa.

  • António Quintas
  • 11 de Junho de 2026, 16:28

+ conteúdos