Ruben Alves celebra a identidade lisboeta
"Santo António, O Casamenteiro de Lisboa" é uma comédia sobre a tradição de casar sob a bênção de um dos padroeiros da cidade.
Depois do sucesso de “A Gaiola Dourada”, Ruben Alves realiza “Santo António, O Casamenteiro de Lisboa”. O cineasta luso-francês concretiza o desejo de se filmar em Portugal e contar uma história tipicamente portuguesa. A tradição que sobrevive à globalização da cidade, cativou o realizador que vê no Santo António um super-herói:
Queria mesmo realizar o filme aqui em Lisboa com atores portugueses, cenários portugueses, técnicos portugueses e orçamento português. Achei muito interessante esta tradição única da cidade de Lisboa e com um super-herói por cima disso tudo que é o Santo António.
É a metáfora disto tudo. Embora acreditar no nosso super-herói português. Este filme acaba também por ser uma crítica. Embora não fazer tudo como o que se está a passar com esta globalização, esta modernização, que está tudo a parecer igual e nós temos coisas maravilhosas. Obviamente, temos de evoluir, mas vamos pensar como podemos salvaguardar o que é nosso.

Em “Santo António, O Casamenteiro de Lisboa”, há seis casais. Ruben Alves imaginou características diferentes para cada um deles:
A ideia aqui é um leque de várias emoções. Casais que já não acreditam e querem separar-se, mas vão a este evento pela vontade de um filho, por exemplo. Um casal, a Lídia Franco e o Rui Mendes, que acreditam tanto no amor, reencontram-se no lar e, de repente, querem viver esse amor. Temos um casal improvável que nunca pensou casar-se e veio pela mentira de uma mãe vão descobrir que afinal pode ser bonito.
A Igreja de Santo António de Lisboa, a Sé e a Câmara Municipal são os principais cenários do filme. Durante a escrita do guião, Ruben Alves cruzou-se com os verdadeiros organizadores dos casamentos:
Fiquei muito emocionado pela luta dos dois casamenteiros. Há anos que trabalham e tentam salvaguardar esta tradição. E eu disse, é a partir daqui que eu vou pegar no filme e passar muitas mensagens emocionais.
Apesar de ser uma comédia, Ruben Alves traz para o filme uma reflexão sobre a solidão, a transformação e a perda de identidade das cidades:
O que prevalece é a essência das coisas. Hoje em dia, esquecemo-nos disso porque é a imagem e o dinheiro que contam. Queremos cada vez mais. É esta coisa que o mundo virtual traz, de parecer que toda a gente está ótima, nas melhores condições, a viajar, não sei o quê. Mas a realidade, quando vês, é outra. O individualismo e a solidão das pessoas hoje em dia está no meu filme, com os dois casamenteiros que estão a unir pessoas e afinal são muito sós.

Joaquim Monchique e Rita Blanco foram as escolhas para interpretar os dois casamenteiros, Valentim e Carmo:
Esta mulher, com a personagem do Joaquim Monchique, são os responsáveis pelos casamentos durante muitos anos. Vivem para aquilo porque acham que é importante para a vida das pessoas que não têm possibilidades e tudo isso. Depois, a coisa começa a piorar e começam a ser questionados e começam a reagir e a tentar, por uma última vez, fazer um espetáculo excecional para não serem postos fora.
Rita Blanco conheceu a verdadeira Carmo, que durante vários anos esteve à frente da organização dos casamentos de Santo António em Lisboa:
Fui com o Ruben conhecer a verdadeira Carmo, porque existe uma verdadeira Carmo. E usei, se calhar, alguma coisa para me inspirar, obviamente. Quis ler ali alguma solidão. Nesta comédia, a minha personagem não é uma personagem de comédia. Também na “Gaiola Dourada” a minha personagem não era uma personagem de comédia.
Joaquim Monchique trouxe para a personagem Valentim a experiência que tem das festas populares de Lisboa:
O meu personagem é o Valentim, o mestre de cerimónias dos casamentos de Santo António. Fui 25 anos padrinho das Marchas de Lisboa, portanto vi, se calhar, 25 casamentos de Santo António e sempre achei tão bonito. É uma tradição tão engraçada e é única no mundo, ver a alegria daqueles casais que sonharam com muitas dificuldades. No fundo, o que eu faço com a minha personagem é fazer com que tudo seja feito, tudo seja para aquele dia.
Alfacinha, o ator Joaquim Monchique, tem uma ligação afetiva ao santo lisboeta:
A minha mãe, no dia que me estreei como profissional, tive uma estreia brilhante e ela disse ‘agora vais levar essas flores todas que te deram ao Santo de António, como agradecimento’.

João Catarré é António, o noivo da Fafá, personagem de Jacqueline Conrado que tem uma história diferente:
Procuraram as características do puro lisboeta de bairro para inserir na construção desta personagem. Portanto, há uma história muito louca e muito grande por trás deste casal, o António e a Fátima, e incluir esta personagem dentro desta história tão bonita, tão apaixonada, cheia de amor, foi muito especial.
A personagem de Inês Aires Pereira é uma noiva que foi parar por acaso aos casamentos de Santo António:
Ficou muito pouco à vontade de ser noiva. Foi ali parar um bocado por acaso e depois, olha, deixou-se levar e lá foi na experiência. A última coisa que ela imaginava era casar nos casamentos de Santo António. O filho escreveu-os por achar que iria ser uma ótima ideia os pais casarem-se porque assim iam voltar a gostar um do outro.
Para o realizador Ruben Alves o Santo António é uma ‘popstar’:
A imagem do Santo António é tão forte pelo mundo, pensei, caramba, realmente, devia ter um carisma inacreditável. Para mim é uma mega popstar, com um carisma gigantesco para continuar a existir hoje em dia.