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11 Mai 2026

“Soco a Soco” é o novo filme de Diogo Varela Silva, a história de uma lenda do boxe português. Podemos ver o filme agora no circuito comercial, após exibições em festivais, nomeadamente no Doclisboa. O realizador falou ao CINEMAX RTP e apresentou a figura do pugilista Orlando Jesus.

Estamos a falar de uma lenda do boxe nacional. Como o descobriste, considerando que fazemos aqui uma viagem no tempo?

Bom, a primeira vez que conheci o Orlando, foi no princípio dos anos 90. Em Lisboa havia o Johnny Guitar, onde cheguei a trabalhar quando era miúdo, e por baixo do Johnny Guitar havia uma casa de bas fond, a única que estava aberta quando nós fechávamos, e era o único sítio onde podíamos ir comer qualquer coisa antes de regressar a casa, às lindas horas da manhã em que regressávamos. Foi o primeiro contacto que tive com ele.

Mais tarde, comecei a praticar boxe com ele como treinador e fui ganhando uma amizade, por assim dizer, e fui conhecendo-o, e percebi que a história poderia dar um filme.

Na verdade, o filme não é sobre boxe, o boxe está lá, mas não parece que o foco do filme seja o boxe. É, sim, a maneira como ele conseguiu superar as amarguras todas da vida e sair do sítio onde tinha nascido e crescido através do boxe. É mais uma história de superação do que uma história à volta do boxe e acaba também por ser uma história sobre uma certa Lisboa que desapareceu.

Ou seja, interessa-te perceber como Orlando Jesus esgrimiu a arte do boxe, mais do que a arte do boxe, a arte da vida. Podemos colocar a questão dessa forma?

Eu acho que essa é a maneira mais certa, porque realmente foi o que ele conseguiu. Foi esgrimir a arte da vida e superar-se a ele próprio e conseguir pegar naquilo e encontrar um caminho, uma saída do sítio de onde vinha. Ou seja, o boxe deu-lhe uma via, deu-lhe um caminho.

Orlando Jesus continua a treinar imensos jovens. Ou seja, não deixou de utilizar o boxe para existir. Porém, estamos a falar de uma lenda da modalidade que remete para um tempo sobre o qual eventualmente não temos memória, enquanto espectadores, sobretudo os mais novos. O boxe não desapareceu e… contudo, parece que o boxe desapareceu. Dirias que hoje é diferente?

O auge do Orlando é a última época de ouro do boxe nacional, nos anos 1970 a 1976. Na altura em que o Parque Mayor volta a dar boxe e há boxe no Coliseu dos Recreios e as casas enchem para ver os combates.

Hoje não é assim. O boxe não é vivido da mesma maneira, nem existe nos mesmos parâmetros.

O que é interessante ver é que o Orlando, mesmo com as voltas todas que o boxe dá, conseguiu viver do boxe até hoje. Ele é árbitro internacional, vai lá fora arbitrar combates de títulos mundiais, por exemplo. É árbitro cá e treina, tem os alunos dele. Sendo um boxe diferente, sendo uma vida diferente, ele continua ligado a isto.

Realmente é um boxe diferente, é outra Lisboa. Essa Lisboa já não existe. Não o digo com saudosismo, mas digo com uma realidade e, como tal, acho que merecia ser retratada e merecia ser, de alguma maneira, lembrada.

“Ver o filme reconhecido pelo público num festival, acho que é um dos melhores prémios que se pode receber.”

Há uma dimensão nostálgica em “Soco a Soco” e também uma descoberta. Imagino que tenha sido para ti uma descoberta encontrar material de arquivo que depois integraste. O que é que isso revelou? O que foi mais surpreendente?

Foi a falta de condições com que eles se deparavam para poder praticar este desporto. Aliás, o Orlando conta que, quando chegou à Espanha pela primeira vez para treinar, ficou maravilhado. Achava que estava num outro planeta com outras condições que não havia cá. Na altura, ainda estávamos no regime e era tudo muito em pobrezinho.

Há uma diferença tremenda, em termos de época e de enquadramento. Gostava que apreciasses um pouco o modo como o Orlando Jesus combatia, como estava no ringue.

Ele tinha um estilo de boxe bastante bonito. Não era o maior bailarino, mas esgrimia muito bem, como se diz na gíria do boxe. Sabia jogar bem, sabia entrar, esquivar. Era completo. Depois, tinha realmente um poder de soco que lhe deu a alcunha dos punhos de ferro. Portanto, na altura dele era imbatível cá em Portugal. Foi um dos grandes campeões da história do boxe do nosso país.

“Soco a Soco” é a reconstituição de um tempo e inclui uma personagem que, de certa forma, é maior do que a vida, cinematográfica nesse sentido. O documentário é uma forma justa de valorizar isso em cinema. Apesar disso, ao ver o filme, imaginei que também dava uma ficção extraordinária.

Não tenho dúvidas, realmente dava. Tem lá os ingredientes todos. Eu faço documentários porque é o cinema que consigo fazer. Tenho uma equipa muito reduzida. Trabalhamos juntos há muitos filmes, conhecemo-nos muito bem uns aos outros, sabemos muito bem o que cada um consegue trazer ao filme e isso é o que me possibilita continuar a fazer cinema num país que é parco de meios e de apoios para ele existir.

Imagino que tenha sido muito satisfatório receber o Prémio do Público no último Doclisboa. O que sentes quando o público vê o teu filme com satisfação?

Temos de partir do princípio que os filmes não se medem aos prémios, obviamente. Agora, que dá muito gosto recebê-los, claro que dá, especialmente um prémio atribuído pelo público.

Quando faço um filme, tenho a pretensão de que ele seja visto por pessoas e, já agora, que gostem do que fiz, como é óbvio. Ver o filme reconhecido pelo público num festival, acho que é um dos melhores prémios que se pode receber.

O que te interessa no cinema que se dedica ao boxe e que tem uma longa tradição, existindo também um filme marcante na história do cinema português sobre o boxe?

Eu acho que é um dos melhores filmes da história do cinema português, ponto final. O Fernando Lopes era um mestre no que fazia e foi-o na altura em que filmou o “Belarmino”. Novamente, o “Belarmino” não é sobre o boxe. Em última análise, nem é sobre o Belarmino. É um filme sobre um país que vive em ditadura e as condições em que as pessoas vivem, as condições em que as pessoas vivem naquela Lisboa. Eu acho que essa beleza do filme do Lopes é magnífica.

A mim o que me interessa neste filme, ou nos filmes que faço é, de alguma maneira, tentar mostrar aquilo que fazia sentido preservar na memória coletiva. Ou seja, coisas que tiveram a ver com a maneira como nós chegámos onde chegámos e somos o que somos. Tanto pode ser com a história do Orlando como pode ser com os Caretos de Lazarim, como pode ser com um fadista em Alfama, ou um pintor em Moçambique.

“Soco a Soco” estreia esta quinta-feira nos cinemas nacionais.

  • tiago alves
  • 11 de Maio de 2026, 10:51

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