Saltar para o conteúdo principal

26 Fev 2026

“Terra Vil” é a primeira longa-metragem de Luís Campos em exibição nos cinemas a partir deste fim de semana. Um filme de certa forma marcado pelos acontecimentos de há vinte e cinco anos com a queda da ponte que ligava Entre-os-Rios e Castelo de Paiva que provocou cinquenta e nove mortos.

Que terra é esta, designada por “vil”, no título do filme?

Nós filmámos naquela região de Entre-os-Rios e em vários conselhos conexos. Não diria que o título vem de achar que aquela terra é vil, de facto, ou que as pessoas daquela terra são vis. Houve algumas inspirações temáticas que me levaram a chegar a esse título, nomeadamente um poema de Fernando Pessoa e uma citação bíblica.

Achei que era um título que fazia sentido nesta relação entre o ser humano e a natureza que nos rodeia e como há a tentação de achar que a natureza é culpada de tudo e que é vil, quando, acima de tudo, é o comportamento humano que inicial uma série de vicissitudes negativas para a vida das pessoas.

Qual é o ensinamento bíblico que orientou, digamos assim, o teu pensamento na escrita do argumento, ou na filmagem?

Não consigo citar já de cabeça, foi um processo ao longo da escrita e um processo longo. Comecei a escrever este guião em 2012. Inicialmente tinha o título “Entre-os-Rios”. Com o tempo fui percebendo que não talvez não fosse o mais correto, no sentido de levar as pessoas a pensarem que era um filme de reconstituição de tragédia, ou que remetesse especificamente para a tragédia. A tragédia está lá, é um pano de fundo, é um contexto, talvez, das personagens que o filme retrata.

O ensinamento especificamente da Bíblia já não consigo citar de cabeça, mas consigo citar o poema de Fernando Pessoa, se não estou em erro, que é algo como ‘pois cai um grande e calmo efeito, sem nada ter razão de ser, do céu nulo como um direito, na terra vil como um dever’. Por alguma razão, consegui associar este poema a um certo patriarcado dominante, quase estabelecido por ordem divina, e que efeitos isso tem em termos de dever na relação interpessoal.

Foi algo que me acompanhou e que chegou a estar até à versão de montagem do filme como uma citação inicial, mas que depois acabei por abandonar por sentir que era impor um pensamento logo no início.

Mas há esse pensamento acompanha de certa forma o filme, porque na nota de intenções que acompanhou o filme escreves que pretendias ‘questionar os pontos de vista de uma sociedade liderada por homens, no que diz respeito ao comportamento com o sexo oposto e como algumas convenções morais pré-estabelecidas relacionadas com o modo como lidamos com os outros, são mais complexas do que parecem’. Portanto, esse foi o objetivo, justamente filmar algo muito português, uma sociedade profundamente patriarcal?

Sim, está na base do que foi a intenção, quando comecei a imaginar, primeiro o desejo de retratar aquele território específico, uma atmosfera particular que fui conhecendo cada vez que visitava esta região em concreto. E uma intenção mais ampla do que aquele território em concreto.

Ou seja, de refletir sobre o conservadorismo latente, o patriarcado dominante na nossa sociedade, e como esse questionamento tradicionalmente não tem sido feito a partir dos homens, ou da perspetiva masculina.

Foi algo que me motivou a começar a escrever esta história com duas famílias, um avô, um pai e um filho que representassem também esta relação entre gerações.

Esta alegoria, ou analogia, a queda da Ponte Hintze Ribeiro, também permite essa leitura a partir destas personagens. Ou seja, como este neto pode ser diferente deste avô, de alguma forma, que tipo de fundamentos pode transportar na relação com terceiros que por herança talvez não estivessem lá.

E nessa disfunção geracional, porque, no fundo, é isso que se reflete na família, no presente, há uma personagem que cresce, feminina, obviamente, que faz de ponto, podemos colocar a questão dessa forma, a personagem da Lúcia Moniz?

Sim, muito sucintamente o filme retrata estas duas famílias que vivem numa casa ao lado uma da outra, de um lado, um pai e um filho, do outro lado, uma mãe e duas filhas adolescentes. Estas duas famílias fragmentadas, de forma direta ou indireta, como resultado da queda da ponte, conseguiram desenvolver uma dinâmica de sustentabilidade relacionada com a pesca e venda de lampreias, e habituaram-se a coexistir quase como uma família só.

E este protagonista do filme, o João, que tem 12 anos, é uma espécie de pêndulo entre as duas casas, ele fica muito na sombra do pai, que tem comportamentos erráticos derivados também de uma adição ao álcool, e na casa do lado, esse conforto, esse carinho que encontra das vizinhas. 

A Lúcia, que faz de Teresa, a mãe, é quase como uma força maternal desta criança que vive refém do facto da mãe o ter abandonado, ou seja, encontra ali quase uma segunda mãe.

Considerando que o filme tem um tempo de maturação prolongado, à medida que foste conhecendo vivências, histórias pessoais e particulares, isso consolidou mais o teu desejo de filmar ali? Como é que essas histórias te marcaram?

Sem dúvida, o facto de ir conhecendo familiares de vítimas e instituições locais, algumas comunidades locais, foi influenciando a escrita do argumento.

Uma primeira versão do argumento já tinha cinco personagens, mas partilhava as perspetivas, tínhamos cenas com um personagem, cenas com outro. Depois, foi ficando cada vez mais o filme do João, o filme do miúdo, muito influenciado pelo contacto que tive com uma instituição local criada por familiares das vítimas da tragédia. É uma associação, uma casa de acolhimento, e foi muito simbólica para mim nesta forma de lidar com a dor para benefício de outros.

Essa experiência e também alguns contactos com crianças que foram residentes dessa casa de acolhimento influenciaram a escrita e a história do João em particular, entre outros elementos, mesmo próprio da etnografia da pesca da Lampreia, que fui também conhecendo cada vez mais, as subidas de rio nos barcos com pescadores locais, nomeadamente a comunidade de Arnelas, que foi sempre muito colaborativa, tudo isso influenciou a escrita do argumento a partir dos locais em concreto.

O complexo mineiro do Pejão, por exemplo, encerrado nos anos 90, também foi uma tragédia muito impactante para aquela comunidade, mas no guião a história cresceu em função destes locais e de pessoas que fui conhecendo, não sendo um filme em concreto sobre a pessoa A, B ou C. É uma história de ficção, mas muito ancorada na paisagem, nas particularidades daquele território.

Como é que o filme foi recebido? Como é que eles reagiram ao filme quando o viram?

Tivemos uma primeira experiência recentemente no Cinema Trindade, no Porto, onde tivemos a oportunidade de convidar familiares das vítimas e alguns representantes da comunidade local e o filme foi recebido de forma emocional.

Independentemente das geografias onde tem sido mostrado – já foi exibido em festivais internacionais- e a reação é semelhante nessa forma como as pessoas ficam comovidas com a história do filme e como há ali uma conexão emocional que se estabelece.

O que procurei saber de imediato junto destas pessoas da comunidade local foi se achavam que o filme acabava por ser positivo nesse processo constante de superação com o qual estas pessoas lidam e o feedback que me foi dado foi positivo, acham que as pessoas vão ficar contentes por conhecer este filme, por sentirem que este filme olha para essa questão de uma forma respeitosa e estou muito curioso, muito ansioso, porque vamos ter duas sessões especiais, uma a 3 de março em Castelo de Paiva e outra a 4 de março em Penafiel, onde estarão presentes vários elementos da comunidade local e estou muito curioso para saber como recebem o filme.

O filme foi desenvolvido durante cerca de uma década a partir de uma tragédia sucedida há 25 anos. É inevitável perguntar, o trauma persiste, ainda hoje?

Penso que sim e de forma muito marcada na região. Não só na região, acho que há uma memória coletiva nacional deste acontecimento e que se replica por outras tragédias locais, ou outros contextos particulares locais, na forma como há uma sensação transversal de abandono, de desconsideração pelas  pequenas comunidades mais rurais, longe dos grandes centros urbanos, dos grandes centros de poder.

O filme acaba por fazer esse retrato de pessoas simples, através de uma história envolvente e sofisticada, mas acessível. Não é preciso um léxico muito próprio de cinefilia para entender o que este filme propõe e eu tenho muito esse desejo de fazer com que o filme chegue às várias comunidades longe dos grandes centros de poder.

No fundo, que noutros locais, de certa forma, esquecidos, menos considerados, menos cuidados, as pessoas possam rever-se naquilo que está a ser filmado.

Penso que sim, há aqui uma portugalidade que o filme retrata, também através de rituais ou tradições, por exemplo, o filme retrata duas procissões específicas, a Procissão das Endoenças, que é deslumbrante, noturna, com milhares de velas, milhares de participantes nas margens do Douro e do Tâmega e o filme retrata essa procissão com uma cena dramática em particular, também a Festa da Senhora da Saúde no Bustelo, em Penafiel, com uma procissão diurna.

Há ali vários elementos que eu acho que vão ser reconhecíveis por estarem intrínsecos ao que é esta realidade portuguesa.

  • tiago alves
  • 26 Fev 2026 16:04

+ conteúdos