Valery Carnoy mostra a dor psicológica em “A Dança das Raposas”
O realizador Valery Carnoy e o protagonista Samuel Kircher abordam a luta contra uma dor psicossomática e exploram a fragilidade mental na alta competição.
“A Dança das Raposas” é a história de Camille, um jovem adolescente, talentoso, pugilista promissor, que sofre um acidente fora do ringue. É também a primeira longa-metragem do cineasta belga Valery Carnoy que parte de um acontecimento vivido na adolescência para realizar o filme:
Queria falar de alta competição, colocar frente a frente a dor física e a dor psicológica. Queria falar de um campeão, de alguém que é colocado num pedestal, honrado e idolatrado pelos amigos, mas que, de repente, sofre um acidente que vai mudar completamente a visão sobre tudo o que lhe acontece, tudo o que o rodeia. E, acima de tudo, que lhe permite compreender que não é invencível, que é vulnerável.
Ao aceitar essa vulnerabilidade, ele vai evoluir e tornar-se uma pessoa melhor. Foi daí que nasceram as ideias sobre um pugilista, sobre esta dor psicossomática.
Porque quando se é pugilista, está-se habituado ao sofrimento, pelo menos à dor física, mas não se está habituado à dor mental, que é o que perturba o Camille, que de repente pergunta, mas de onde vem esta minha dor? Por que é que sinto isto?
E é o cérebro que lhe transmite uma mensagem que lhe diz, tens de parar agora, isto já não serve para ti. Porque ele é um jovem sensível, que gosta de observar raposas, que gosta de as alimentar, que tem uma relação especial com a natureza.
A partir da personagem do jovem pugilista, Valery Carnoy, desenvolve uma reflexão sobre as dores psicossomáticas, uma área da saúde ainda pouco compreendida:
Ele é totalmente incompreendido, é esse também o grande problema da saúde mental, é invisível e é muito difícil comunicar sobre o assunto.
Era importante fazer este filme para sensibilizar para a necessidade de ouvir o outro, mesmo que não se veja nada, mesmo que pareça que não há nenhum problema. Se o outro nos diz que está a sofrer e que não se sente bem, então há um momento em que é preciso ouvi-lo. Neste caso, não se trata de depressão, mas de uma espécie de esgotamento que este jovem está a sofrer, desde o momento em que sofre uma violência muito grande, desde que sofre o acidente.

A rodagem de “A Dança das Raposas” decorreu numa floresta na região das Ardenas, na Bélgica. O realizador traz as raposas para o filme como uma metáfora da história e para passar para a tela o fascínio que tem por estes animais:
Para o filme fomos buscar um filhote de raposa, porque é mais fácil de treinar. Era um raposinho que foi encontrado e estava num abrigo de animais. Alimentavam-no com comida numa corda pendurada numa árvore, tal como se vê no filme, por isso estava habituado. Assim, nas filmagens, quando viu a comida na árvore, pronto, foi logo para lá, saltou e pegou no pedaço de carne.
Ter as raposas também foi importante para mim, porque é um animal muito presente na minha cidade, Bruxelas. É um animal que observava muito, que encontrava frequentemente na rua à noite. Por isso, quis trazer para o filme essa minha fascinação de adolescente.
Ao mesmo tempo, permite tornar a realidade um pouco mágica, ter estes animais a acompanhar o quotidiano destes jovens. Trazem uma espécie de brutalidade, mas também trazem ternura. Vêm preencher aquilo que não se vê, que é a ferida mental, que só existe na cabeça da personagem.

Samuel Kircher, que se revelou em “No Verão Passado”, ao lado de Léa Drucker, tem o papel de Camille, um jovem interno numa escola de desporto com o objetivo de se tornar um pugilista profissional. Um acidente na floresta interrompe-lhe os treinos. Ele recupera, mas diz continuar a sentir dor:
Tem a esperança de alcançar esse sonho. É o mais talentoso de todos os colegas da escola. Todos esperam que tenha sucesso, que consiga viver aquilo com que todos os outros jovens sonham.
Todos têm interesse em que ele se torne um campeão de boxe. Todos têm algo a ganhar com isso. São muito elevadas as expectativas em relação.
Um dia, tem um acidente, lesiona-se e passa a sentir uma dor psicossomática que vai permanecer e que o impedirá de fazer boxe. Quando luta, sente dor. A dor vai obrigá-lo a questionar-se se quer mesmo continuar a praticar boxe.
O filme fala de competição, da relação com os outros, do que estamos dispostos a fazer para ter sucesso e se, no fim de contas, queremos mesmo ter sucesso.
No filme, não há duplos. Samuel Kircher teve de aprender boxe para interpretar as cenas de luta:
No filme, não há figurantes, são os atores que lutam. Treinei durante quatro meses e ia ao boxe todos os dias. Muitos dos atores já eram bons pugilistas e ajudaram-me imenso. Gostei muito de praticar boxe. Aprende-se que, se o adversário se aproximar, em vez de se recuar, devemos analisá-lo e ver como nos podemos esquivar ou mesmo enfrentá-lo, lançando golpes.
A lição de boxe é valiosa. Aprende-se a reagir perante os problemas. Se um problema vier na tua direção, um adversário, como vais fazer? Vais-te esconder ou defender? Vais aprender a enfrentá-lo? É muito interessante. É uma boa lição para a vida.
“A Dança das Raposas” é um drama sobre as escolhas na juventude e traumas físicos e psicológicos. Estreia esta semana nas salas de cinema.