Veneza: Martin McDonagh apresenta “Wild Horse Nine”, o seu filme “mais abertamente político”
Ambientado em 1973, durante os preparativos para o golpe de Estado contra Salvador Allende no Chile, o filme alia o humor mordaz do realizador a uma reflexão sobre a culpa, o arrependimento e as intervenções secretas norte-americanas que traça paralelos com a geopolítica atual.
No quinto filme de Martin McDonagh, rodado em grande parte nas paisagens exuberantes da ilha vulcânica no meio do Pacífico, John Malkovich, de 72 anos, interpreta Chris, um cínico agente dos serviços secretos norte-americanos, atormentado pela consciência à medida que se aproxima o derrube, apoiado pelos Estados Unidos, do presidente chileno de esquerda Salvador Allende, eleito democraticamente três anos antes. É acompanhado por Lee, seu parceiro de longa data, interpretado por Sam Rockwell.
“A ideia de que, afinal, a América nem sempre se interessa pela democracia fascinava-me”, acrescentou o realizador, que começou por se destacar como dramaturgo.
O facto de Chris, atormentado pelo remorso, decidir escrever as suas memórias, permite-lhe evocar as operações em que participou, desde a Guatemala ao Congo, passando por Cuba e pelo assassinato de John F. Kennedy.
“Interessei-me muito pela verdade sobre aquilo que a CIA fez nos últimos 50 ou 60 anos”, explicou Martin McDonagh durante a conferência de imprensa na quinta-feira. “Sabemos bem o que era o KGB, mas provavelmente questionamos menos do que deveríamos as atividades da CIA”, acrescentou.
“Não sou normalmente um realizador muito político. Algumas das minhas peças foram políticas, mas este é provavelmente o filme mais abertamente político que fiz”, declarou à AFP o realizador de “Três Cartazes à Beira da Estrada”.
O humor mordaz que atravessa o filme do princípio ao fim, assente em grande medida na dupla excêntrica formada por John Malkovich e Sam Rockwell, permite abordar com maior leveza o seu tema sombrio.
“Queria que fosse o mais divertido possível e que toda essa dimensão política se infiltrasse subtilmente na narrativa. Mas também queria que o filme falasse da culpa e do arrependimento de um homem em relação às coisas horríveis que fez”, sublinhou Martin McDonagh, definindo o seu trabalho como “sempre simultaneamente divertido e sombrio”.
“Era importante que a relação entre os dois agentes da CIA fosse quase uma história de amor entre estes dois homens (…) que trabalharam juntos, que passaram por coisas boas e horríveis”, prosseguiu o realizador, cujo filme anterior, “Os Espíritos de Inisherin”, foi nomeado para nove Óscares em 2023.
“Wild Horse Nine” (que em Portugal terá o título “Cavalo Selvagem Nove” e estreia comercial em novembro) decorre em 1973, mas a representação do intervencionismo norte-americano na América Latina adquire forte atualidade numa altura em que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, pôs em prática um programa agressivo visando dominar a região das Américas.
“Honestamente, enquanto o escrevia, não estava a tentar comentar o mundo atual, ou a atual conjuntura política, mas (…) desde que o terminei e o vejo com o público, as ligações com a atualidade parecem bastante tangíveis e acho isso muito interessante”, afirmou Martin McDonagh.
Em janeiro, as forças norte-americanas derrubaram e prenderam Nicolás Maduro, o autoritário líder de esquerda da Venezuela, e, desde então, a administração Trump celebrou acordos para controlar uma grande parte das reservas petrolíferas do país.
“Uma das coisas assustadoras é que já nem parecem tentar manter isso secreto”, disse Martin McDonagh aos jornalistas. “Nos anos 70, estas pessoas horríveis tinham pelo menos a inteligência de manter os seus atos em segredo.”
Foto: Aleksander Kalka / cortesia do Archivio Storico La Biennale di Venezia