Veneza vira-se para a política enquanto Hollywood recua
O momento transitório vivido pelos grandes estúdios norte-americanos está a alterar o perfil do Festival de Cinema de Veneza. A redução da presença de Hollywood abre espaço a um programa marcado pela política internacional e por documentários sobre temas contemporâneos, afirmou terça-feira o diretor, Alberto Barbera.
Alberto Barbera, diretor do Festival de Cinema de Veneza, afirma que a seleção deste ano reflecte o crescente interesse dos realizadores por acontecimentos da atualidade, desde a guerra em Gaza e a invasão russa da Ucrânia até à ascensão dos grandes magnatas tecnológicos e às operações contra imigrantes nos Estados Unidos.
O festival, o mais antigo do mundo, arranca quarta-feira e decorre até 12 de setembro. Considerado por alguns como o ponto de partida da temporada dos Óscares, volta a sentir a ausência de muitos candidatos apoiados pelos grandes estúdios, tal como já acontecera no Festival de Cannes, em maio.
“O problema é Hollywood. Estão a enfrentar uma enorme crise”, disse Barbera à Reuters. “Produzem menos filmes, mais caros. Alguns funcionam muito bem e outros acabam por ser um desastre comercial. Por isso, neste momento, não sabem bem o que fazer.”
Segundo profissionais da indústria, os orçamentos mais apertados reduziram o entusiasmo dos estúdios pelas estreias em Veneza, ao mesmo tempo que existe receio de críticas negativas capazes de comprometer um lançamento, como aconteceu com a sequela de “Joker” no festival de 2024.
Apesar desse recuo, Veneza continua a reunir grandes nomes. George Clooney e Ellen Burstyn receberão Leões de Ouro de carreira, enquanto Robert Pattinson, Penélope Cruz, Javier Bardem, John Malkovich e Rooney Mara estão entre as presenças esperadas no Lido.
Também Liam e Noel Gallagher marcarão presença na estreia de “Don’t Look Back in Anger”, documentário dedicado aos Oasis e à reunião da banda.
A competição de 2026 inclui novos filmes de Martin McDonagh, Florian Zeller, Danny Boyle e Werner Herzog, todos candidatos ao Leão de Ouro.
O festival abre com “Ink”, de Danny Boyle, um drama sobre a aquisição do tabloide britânico “The Sun” por Rupert Murdoch em 1969, episódio que ajudou a lançar o império mediático do empresário.
Barbera aponta precisamente “Ink” como um potencial candidato aos Óscares, juntamente com os novos filmes do sul-coreano Lee Chang-dong, do japonês Hirokazu Kore-eda e de Shinya Tsukamoto, que apresenta “Mr. Nelson, Did You Kill People?”, uma história em língua inglesa sobre a Guerra do Vietname.
Ao analisar um recorde de 4.500 candidaturas para esta edição, a equipa do festival constatou um aumento significativo de obras centradas em temas como guerra, migrações, alterações climáticas e fragilidade democrática.
Barbera destacou igualmente a evolução qualitativa dos documentários. “Os documentários tornaram-se extremamente fortes a abordar os grandes temas do mundo contemporâneo”, afirmou. “Não podia deixar de os convidar para o festival.” Entre os títulos mais aguardados neste género estão o retrato de quase quatro horas de Elon Musk realizado por Alex Gibney e “They’re Here”, de Laura Poitras e Rachel Lauren Mueller, sobre as operações do ICE contra imigrantes no Minnesota.
A guerra em Gaza ocupa um lugar particularmente relevante na programação. Entre as obras dedicadas ao conflito está o documentário “NAZA”, dos israelitas Yuval Abraham e Rachel Szor, que analisa a morte de civis palestinianos. “Selecionámos quatro obras sobre a situação em Israel e Gaza e sobre a questão palestiniana”, concluiu Barbera. “A nossa posição é bastante clara.”