Vier: “Não há palco melhor para a estreia de ‘Lúcido’ do que Cannes”
Vier faz história em Cannes ao tornar-se o primeiro realizador português na seleção oficial imersiva do festival. Com "Lúcido", o artista transpõe a sua estética para a realidade virtual, explorando o corpo do utilizador como motor narrativo.
“Lúcido” é uma experiência narrativa interativa em realidade virtual e a primeira obra de um realizador português presente na seleção oficial da programação imersiva do Festival de Cannes.
Os espaços de “Lúcido” surgiram de uma tentativa de traduzir a prática visual de Vier para a realidade virtual. Imagens duplas marcam momentos de transição entre sonhos comuns e sonhos lúcidos
Em “Lúcido”, essas imagens adquirem movimento e tridimensionalidade. A imagem dupla torna-se um limiar – um ponto de passagem transitório. O grau de controle em Lúcido espelha o nível de lucidez do protagonista. À medida que a lucidez aumenta, os participantes ganham progressivamente influência sobre a paisagem onírica, aprendendo a voar e a desenhar vastas estruturas impossíveis no céu.
O filme conta a história de um casal que aprende a controlar os seus sonhos, viajando por estranhas paisagens oníricas, descobrindo que os piores sonhos são aqueles dos quais não querem acordar.
A criação de espaços seguros para a expressão queer dentro de famílias escolhidas encontra um paralelo na construção consciente de mundos durante sonhos lúcidos
Vier é realizador da curta-metragem de imagem animada “Mão de Sangue” (2019), e artista multidisciplinar, trabalhando com animação, pintura e meios imersivos.
Vier, o que é que este projeto, “Lúcido”, e a dimensão imersiva que ele tem, acrescenta ao trabalho que já tinhas desenvolvido do ponto de vista artístico e criativo em cinema de imagem animada?
O “Lúcido” propõe novas abordagens do ponto de vista de contar uma narrativa. Isso advém muito da utilização do corpo do utilizador. Durante a experiência do “Lúcido”, a pessoa pode encarnar a personagem principal e a personagem às vezes foge do utilizador e isso tem um significado do ponto de vista da narrativa. Ou seja, a realidade virtual permite-me fazer interações, incluir o utilizador nos mundos da história de uma forma que o cinema tradicional ainda não consegue fazer.
É também uma forma de eu pensar as minhas imagens duplas de outra forma. O meu trabalho ilustrativo, o meu trabalho visual passa muito pela criação de imagens que podem ser lidas de duas formas e em realidade virtual eu consigo dar-lhes tridimensionalidade e profundidade.
Isso permite-me criar estas transições entre cenas que surpreendem o espectador porque há uma certa segurança na materialidade daquilo que estamos a ver. Quando aquilo que estamos a ver está à nossa frente e que podemos tocar, de repente se altera isso tem um poder que me fascina bastante.
Para alguém que trabalha o universo plástico da imagem animada a possibilidade de colocar o espectador como co-protagonista, mas num espaço que expande o formato de uma grande tela de cinema, ou do formato mais pequeno de uma televisão, isso é desafiador e estimulante? Coloca-te num lugar mais interessante?
É desafiante do ponto de vista da realização. Não podemos confiar na segurança do plano e do foco que a tela nos dá. Aqui estamos completamente sujeitos à vontade do utilizador nomeadamente para onde é que escolhe olhar num determinado momento. Por isso temos de ser mais inteligentes na forma como construímos o espaço.
Temos de alguma forma a desenhar o espaço da narrativa de forma a guiar o utilizador para os pontos de foco interessantes da narrativa. Isso pode ser feito tanto a nível da composição do espaço, do desenho de luz, do som.
Adiciona uma camada interessante do ponto de vista de características a ter atenção durante a realização. Mas não é o único de realidade virtual. Para fazermos isto há muitas aprendizagens interessantes.
Podemos ir buscar ao teatro imersivo, a instalações, ou seja, ao design de experiências do mundo real que já tiveram estas preocupações. Não é por ser digital que estas preocupações são completamente novas.
Consegue aumentá-las, ou seja, no “Lúcido” o utilizador consegue voar e isso é uma liberdade de movimento que não é propriamente possível numa outra instalação, ou teatro imersivo, mas algumas das aprendizagens da forma como construímos um local, como construímos um palco para a ação são claramente influenciadas por outras artes.

O que te parece que pode suceder no momento em que estamos com este novo meio cinematográfico?
Não sei se consigo fazer previsões desse género. Sei que, no respeito à minha obra, gostaria de realizar uma experiência em realidade virtual e tentar pensar noutras formas de usar o meio para criar experiências originais. Não me interessa criar uma experiência de realidade virtual que possa ser simplesmente convertida num filme.
Quero usar as peculiaridades da realidade virtual para criar experiências de alguma forma novas, ou que de alguma forma me entusiasmem por estar a fazer alguma coisa pioneira.
Acho que ainda há muito que quero explorar na forma como uso as minhas imagens no espaço virtual. Talvez consiga ver mais projetos pequenos, mais rápidos. O “Lucido” ainda demorou bastantes anos a se concretizar.
Consigo imaginar projetos mais focados num conceito específico, numa cena específica e desenvolvidos de uma forma mais otimizada.
Ao mesmo tempo, faço filmes para tela, estou agora a realizar uma nova curta-metragem chamada “A Dança dos Fanchonos”, sobre pessoas queer durante a ditadura do Estado Novo.
Por isso, consigo ver o meu futuro em ambos os mundos.

Isto é um grande salto para o cinema português, o que está a acontecer com esta seleção no Festival de Cannes?
O cinema português é muito produtivo, é fascinante. Não tenho dúvida que se não fosse eu, outra pessoa que acabaria por colocar aqui os pés.
Acho que a realidade virtual é fascinante e interessa um número grande de autores. Por acaso, fui a primeira pessoa portuguesa a estar nesta seleção, mas sei que há vários projetos portugueses que poderiam ter sido selecionados.
O mundo da realidade virtual ainda é relativamente pequeno em Portugal, principalmente o mundo artístico da realidade virtual, mas não tenho dúvida que crescerá se houver os apoios para isso.
O que significa para ti estar a estrear o filme numa seleção oficial de Cannes?
Estou muito, muito feliz. É um salto considerável desde o meu último filme.
É a primeira vez que tenho uma estreia com esta escala e tendo em conta que a distribuição para a realidade virtual ainda é um desafio grande, termos este palco, esta oportunidade de lançamento inigualável, não há nenhum outro festival que consiga pensar que fosse de melhor estreia do que Cannes. Deixa-me muito feliz e entusiasmado para o futuro do projeto.
A tua pequena reflexão sobre esta importante seleção sugere-me outra pergunta. Como é que os espectadores portugueses vão poder ver o teu filme?
Ainda não posso anunciar, mas quero acreditar que haverá formas de exibição em Portugal: festivais, espaços culturais que tenham interesse em, em algum ponto, exibir a experiência em Portugal.
É com isso que estamos a contar, conseguirmos de alguma forma estabelecer acordos com instituições, espaços culturais, galerias, museus, ou festivais que estejam disponíveis a ter a experiências de realidade virtual na sua programação. Isso pode acontecer.