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12 Set 2026

O drama de pós-guerra “Woman Unknown”, da realizadora dinamarquesa May el-Toukhy, venceu este sábado o Leão de Ouro no Festival de Cinema de Veneza, enquanto a protagonista Mathilde Arcel recebeu também o prémio de melhor atriz, numa rara dupla distinção.

El-Toukhy era a única mulher a realizar uma longa-metragem da principal competição, composta por 21 filmes, uma disparidade que suscitou críticas durante o festival e voltou a colocar em evidência os obstáculos enfrentados pelas mulheres no cinema.

Ambientado no período que se seguiu à Segunda Guerra Mundial, “Woman Unknown” acompanha uma empregada doméstica interpretada por Arcel, cujo passado relacionamento com um soldado alemão ameaça destruir o seu futuro. O filme decorre numa Dinamarca recém-libertada, onde as mulheres acusadas de confraternizar com as forças de ocupação alemãs eram frequentemente alvo de atos de justiça pelas próprias mãos.

“Para mim, pessoalmente, ‘Woman Unknown’ é sobre o corpo feminino enquanto campo de batalha e assunto público. Ao mesmo tempo, o filme conta a história de mulheres que são invisíveis, que não são vistas e que não têm voz”, afirmou el-Toukhy no discurso de agradecimento.

O sul-coreano Lee Chang-dong recebeu o Leão de Prata, atribuído ao segundo classificado, por “Promised Love”, enquanto o realizador russo Ilya Khrzhanovsky venceu o prémio de melhor realização por “DAU”, um projeto de enormes dimensões rodado em grande parte na Ucrânia antes da atual guerra e que tem sido alvo de intenso escrutínio e controvérsia. Khrzhanovsky, que renunciou à cidadania russa e é um crítico feroz de Moscovo, dedicou o prémio à Ucrânia.

John Malkovich recebeu o prémio de melhor ator pela interpretação de um veterano e excêntrico agente da CIA na comédia “Wild Horse Nine”, de Martin McDonagh.

O Festival de Veneza assinala o início da temporada de prémios e é frequentemente palco de filmes que se tornam fortes candidatos aos Óscares. No entanto, muitos dos filmes apoiados pelos grandes estúdios que anteriormente dominavam a programação de Veneza estiveram ausentes este ano, numa altura em que Hollywood reavalia a forma de promover os seus filmes e procura reduzir custos.

Numa mudança de tom, o festival apresentou uma programação marcada pela política internacional e pela convulsão social, incluindo “NAZA”, um contundente documentário dos realizadores israelitas Yuval Abraham e Rachel Szor que recebeu o Prémio Especial do Júri.

Baseado em entrevistas anónimas a 24 oficiais dos serviços de informações e soldados israelitas, o filme acusa as forças armadas de Israel de aprovarem regularmente a morte em massa de civis quando têm como alvo militantes na Faixa de Gaza. Israel negou a acusação.

O documentário recebeu uma ovação de pé de 25 minutos, um recorde, na estreia na quinta-feira, no segundo ano consecutivo em que um filme sobre Gaza teve forte impacto em Veneza, depois de “A Voz de Hind Rajab”, um relato baseado em acontecimentos reais sobre a morte de uma menina palestiniana durante a guerra.

“Os oficiais dos serviços de informações israelitas com quem falámos disseram-nos que esta morte em massa é sistémica, não acontece por acidente, mas por decisão deliberada”, afirmou Abraham no sábado. “Acreditamos que a negação de um crime é aquilo que permite que ele persista.”

Stephane Brizé, Coralie Amedeo e Olivier Gorce receberam o prémio de melhor argumento pelo bem recebido drama francês sobre o mundo empresarial “A Good Little Soldier”, enquanto Malou Khebizi foi distinguida como melhor jovem atriz revelação pela sua interpretação noutra produção francesa também bem recebida, “A Place To Heal”.

O diretor do festival, Alberto Barbera, defendeu a predominância masculina da seleção deste ano, insistindo que as decisões foram tomadas com base no mérito artístico e não em quotas, e apelando à indústria para fazer mais no sentido de ajudar as mulheres a entrar no sector.

El-Toukhy afirmou que as realizadoras continuam a enfrentar maiores dificuldades para obter financiamento, o que limita os orçamentos, as oportunidades de escolha de atores e, em última análise, o acesso aos principais festivais.

A presidente do júri principal, a atriz e realizadora norte-americana Maggie Gyllenhaal, também se pronunciou sobre a questão, afirmando aos jornalistas que as realizadoras enfrentam frequentemente dificuldades em obter financiamento porque as histórias que querem contar não são consideradas suficientemente importantes.

  • CINEMAX - RTP c/ Reuters
  • 12 de Setembro de 2026, 19:32

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