8 MULHERES (2002)
No actual panorama da produção francesa, François Ozon é um caso invulgar de versatilidade, capaz de se exprimir nos registos mais dramáticos, mas também à vontade no universo musical — deste universo, "8 Mulheres" é um exemplo esclarecedor.
Fascinante e desconcertante cineasta, François Ozon: por um lado, recentemente, através desse belíssimo filme que é “Frantz”, descobrimo-lo como talentoso herdeiro do grande melodrama clássico; por outro lado, a sua obra apresenta-se como um ágil ziguezague entre os mais diversos géneros e registos — incluindo o musical.
Exactamente: Catherine Deneuve a cantar. O filme chama-se “8 Mulheres” e foi realizado por François Ozon no ano de 2002. Digamos que se trata de uma comédia (ou talvez, melhor, uma farsa) sobre as tensões entre masculino e feminino — esta é mesmo a história de um grupo de mulheres que fazem o inventário das suas existências depois da morte de um homem que é uma espécie de patriarca do seu universo.
Ludivine Sagnier e Virginie Ledoyen são nomes de uma geração mais jovem também presentes no elenco — uma geração, afinal, herdeira da tradição que Catherine Deneuve exemplarmente representa. Aliás, “8 Mulheres” apresenta-se como uma reunião de gerações no feminino, incluindo a lendária Danielle Darrieux, Isabelle Huppert, Emmanuelle Béart e Fanny Ardant.
Através de um objecto tão insólito e tão sedutor como “8 Mulheres”, François Ozon conseguiu essa coisa simples, mas prodigiosa, que consiste em reafirmar a possibilidade contemporânea do musical — não apenas um registo mais ou menos distante e nostálgico, mas de facto um modo de expressão que vale a pena reinvestir e reinventar.