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10 Fev 2026

Gaza, janeiro de 2024. Uma menina de seis anos liga para o Crescente Vermelho e grita por socorro. O carro onde está com a família foi bombardeado pelo exército israelita.

A criança era Hind Rajab. O filme “A Voz de Hind Rajab” conta o que se passou naquela hora de medo e desespero.

Depois de ouvir na internet um excerto da chamada telefónica de Hind Rajab, a realizadora tunisina Kaouther Ben Hania não conseguiu ficar indiferente ao fim trágico desta menina palestiniana. Indignada com o que aconteceu, decidiu usar as armas que tem: fazer um filme.

Tudo começou com a voz de Hind Rajab, ouvi a voz na internet, era um excerto muito curto publicado pelo Crescente Vermelho palestiniano. Fiquei muito abalada, não conseguia fingir que não a estava a ouvir, não me saía da cabeça.

Disse para mim própria, vivemos num mundo onde há uma criança a suplicar para viver. Isto não pode acontecer.

Interroguei-me. O que poderia fazer a força do cinema? Quando o real está para lá do que se poderia imaginar, era necessário fazer alguma coisa, pois não o fazer seria uma forma de cumplicidade.

Acontece que eu sou realizadora e disse para mim própria, ‘a voz desta menina não pode ficar perdida na internet. Vou ter de encontrar uma forma que honre a sua voz e a sua memória’.

Liguei à mãe dela para lhe perguntar se me autorizava a fazer o filme, porque sem a autorização e a bênção da mãe nunca teria avançado.

É uma mulher excecional, de uma coragem incrível. Disse-me, ‘não quero que a minha filha seja esquecida, quero que seja feita justiça. Se o teu filme puder ajudar nesse sentido, por favor, faz o filme’.

Com a aprovação e a bênção da mãe da menina, Kaouther Ben Hania avançou para a realização do filme.

A gravação da chamada telefónica de Hind Rajab para o Crescente Vermelho palestiniano é a coluna vertebral do filme.

Ouvi um excerto muito pequeno na internet e percebi que o Crescente Vermelho tinha gravado toda a conversa.

Nos centros de chamadas, as conversas telefónicas são gravadas na íntegra, por isso contactei-os para ouvir toda a gravação. Confiaram em mim e partilharam a gravação. São cerca de 70 minutos, onde no início se ouve o assassinato da prima e, depois, toda a conversa.

Ouve-se também o bombardeamento da ambulância. A gravação telefónica continha todos os acontecimentos e era frequentemente interrompida porque a comunicação era má e porque não conseguiam contactar a menina.

Como queria honrar a voz de Hind, sabia que esta gravação seria a coluna vertebral do filme.

Além do registo telefónico, Kaouther Ben Hania decidiu também destacar o desempenho dos voluntários do Crescente Vermelho, que durante mais de uma hora estiveram ao telefone com Hind Rajab.

A cineasta recolheu os testemunhos dos verdadeiros técnicos de saúde e promoveu o encontro deles com os atores.

Quando decidi contar esta história do ponto de vista dos voluntários do Crescente Vermelho, aqueles que falaram com ela e que fizeram tudo para a salvar, precisava de saber o que se passou no centro de atendimento naquele dia. Para isso falei com os verdadeiros técnicos e com outros colegas deles.

A partir dos seus testemunhos, do que me contaram, da tristeza, dos seus gritos de revolta, da frustração, da solidariedade, escrevi o argumento.

Eles acompanharam a escrita porque queria ser fiel ao que eles viveram. Trabalharam muito com os atores que os iam interpretar.

Estiveram muito próximo porque os atores tinham a tarefa de interpretar pessoas ainda vivas. Era muito importante que estivessem em contacto, que falassem, que trocassem ideias, que lhes dessem conselhos.

No filme, foi recriado o centro de atendimento telefónico do Crescente Vermelho, uma organização humanitária da Cruz Vermelha Internacional.

A realizadora tunisina quis ser fiel ao que aconteceu naquele fatídico dia. Os atores e figurantes são palestinianos. O registo da voz de Hind Rajab é real e há imagens verdadeiras, numa mistura de documentário e ficção.

Os quatro técnicos que vemos no filme são atores, mas, a certa altura, até os atores não conseguem representar o que se passou. Então, no filme, vemos que eles param, por momentos, escutam os pessoas reais na gravação e vemos a cena com o telefone.

Os atores desaparecem e vemos os verdadeiros protagonistas a tentar compreender o que acabou de acontecer ao telefone, quando se ouve a explosão da ambulância com os colegas enviados para salvar a menina.

A partir desse momento, vemos o carro, a ambulância, temos acesso a algo de bastante documental.

Estas imagens foram vistas por todo o lado na internet, só que não se sabe qual é o contexto. Por isso, o cinema pode mudar a nossa relação com a imagem, porque aqui temos toda a história do que se passou antes. Quando vemos o carro, sabemos que a Hind passou ali horas e horas, em aflição, antes de morrer. Sabemos que estava presa entre os cadáveres da sua família.

Quando vemos a ambulância, sabemos que essa ambulância partiu para a salvar, portanto, essas imagens passam a ter um novo sentido e um novo peso.

Kaouther Ben Hania questiona como o mundo pôde deixar isto acontecer a uma criança. A realizadora compara o relato de Hind Rajab com o diário de Anne Frank. Neste caso, o testemunho é feito de viva a voz.

É preciso colocar a questão ao mundo. Fiz este filme contra a indiferença, para abalar consciências, para dar um rosto, dar voz a uma menina que tem uma voz muito forte.

Para mim, era muito importante e é um pouco como se fosse o diário de Anne Frank, mas aqui temos uma gravação de voz.

É um pouco como se disséssemos constantemente, nunca mais isto, nunca mais isto e, dizemo-lo, repetimo-lo, mas até quando? Infelizmente, não sei.

Impõe-se lutar contra a indiferença. Além de querer dar voz a uma criança de seis anos morta em Gaza a 29 de janeiro de 2024, a realizadora lança um grito de alerta.

É preciso ajudar a amplificar a voz de Hind Rajab. Ela precisa de ser ouvida, porque não podemos ignorar o que se passou em Gaza.

Nem sequer nos damos conta da escala do que está a acontecer, porque Gaza continua fechada. É proibida a entrada de jornalistas. Os jornalistas no local foram mortos. A humanidade ainda não compreendeu bem o que se passa em Gaza e por isso fiz este filme, neste momento.

Quero que este filme seja também um apelo à ação, porque vivemos num mundo em que aquele que tem a pistola maior é que impõe a lei. É o mundo de Trump. Israel comporta-se assim sem prestar contas. E isso é uma perspectiva muito triste para o nosso mundo e eu não sei viver num mundo de gangsters.

Precisamos de leis, precisamos de igualdade, de justiça. Fiz este filme também nesse sentido.

Eu digo aos espectadores portugueses, o filme é também vosso. Apropriem-se dele. Mostrem-no, façam debates, façam alguma coisa.

Não podemos viver num mundo onde uma criança grita por ajuda e se impede e se mata quem a vai socorrer e se deixa essa criança morrer e se mata toda a sua família. Isto não pode acontecer.

Kaouther Ben Hania é a realizadora dos filmes premiados “O Homem que Vendeu a Sua Pele” e “Quatro Filhas”. Com “A Voz de Hind Rajab”, a cineasta tunisina recebeu o Leão de Prata, o Grande Prémio do Júri no Festival de Veneza. É também um dos nomeados para os Óscares na categoria de melhor filme internacional.

Estreia esta semana nas salas portuguesas.

  • Margarida Vaz
  • 10 Fev 2026 16:37

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