AS ESTAÇÕES: Maureen Fazendeiro e as memórias do Alentejo
A realizadora luso-francesa estreia nos cinemas portugueses uma viagem documental e poética pelo Alentejo onde explora arquivos, paisagens e vozes.
A luso-francesa Maureen Fazendeiro é uma nova voz do cinema português e europeu. Realiza filmes há 10 anos e esteve em foco na última edição do Festival Curtas de Vila do Conde. Em entrevista ao CINEMAX reflete sobre o seu percurso e fala de “As Estações” que chega esta semana às salas de cinema.
Foi a primeira vez que um festival dedicou um foco ao meu trabalho e foi bom para perceber o meu caminho agora, as três curtas, duas médias-metragens e uma curta, “Os Diários de Otsoga” e “As Estações”, que incluí nesse percurso, porque foram feitos ao mesmo tempo. No meu percurso, acabei agora um ciclo, então este foco acho que tem a ver com esse momento do meu trabalho.
E é um ciclo de certa forma prolongado, não se reflete apenas no cinema, é também marcado por pensamentos, por pensar as pessoas, o território, os arquivos e outras possibilidades de filmar, posso colocar a questão desta forma?
Sim, é verdade. “As Estações”, o filme que vou estrear agora, foi o primeiro em que comecei a trabalhar quando cheguei a Portugal, há 10 anos, depois de “Motu Maeva”, que filmei em França e foi o meu primeiro filme. Ao longo desse tempo de escrita e de pesquisa que envolveu muito tempo no Alentejo e muita partilha com as pessoas que fui conhecendo, também apareceram outros projetos.
Houve um momento em que tivemos de parar tudo o que estávamos a fazer, foi a pandemia, então entraram “Os Diários de Otsoga”, mas “As Estações” foi o filme que acompanhou esse tempo todo.

Há um lado arqueológico no trabalho que é feito, arqueológico com dimensão cinematográfica, sonoro e visual?
Sim, gosto muito que se fale de arqueologia no ato de fazer filmes. Desde o meu primeiro filme usei sempre materiais exteriores, também filmo, escrevo e produzo imagens e sons, mas também gosto de incluir coisas que encontro pelo caminho. Em criança gostava de ter sido arqueóloga e tento incluir isso no meu trabalho. “As Estações”, talvez seja onde é mais óbvio, porque partiu realmente do trabalho de um casal de arqueólogos. E eu, tal como os arqueólogos, fui ao campo, ao Alentejo, e fui colecionando vestígios de tempos longínquos e menos longínquos para recompor uma história.
Isso explica a opção pela película, estamos a falar de um filme rodado em película de 16mm. A Maureen gosta de trabalhar com película, isso é determinante. Tem a ver também com essa relação com o tempo, com o material que depois vai sendo introduzido na narrativa e que é obviamente mais datado?
Considero que com a película também podemos fazer imagens muito nítidas e muito precisas. Depende como a trabalhamos. Já trabalhei com película de muitas maneiras. Fiz o meu primeiro filme em Super 8 porque não sabia filmar de nenhuma maneira e o Super 8 é um formato amador que me permitiu construir uma continuidade de tempo com as imagens de arquivo que usei no filme. O meu trabalho com película tem mais a ver com a criação de continuidade no tempo, como em quase todos os filmes também uso imagens de arquivo. Tem a ver também com a maneira como a película nos permite captar a luz, que é muito específica e nunca resultaria da mesma maneira em digital.
Nesta viagem que a Maureen foi fazendo há também um percurso em direção a Portugal. Esse percurso é feito e consolidado através do Alentejo, da relação que estabelece com o Alentejo?
Na verdade, vim para Portugal com a ideia de fazer um filme na região do meu pai que é a região da Leiria, no pinhal, só que o Pinhal ardeu e quase perdi a personagem principal do filme.
Antes disso já pensava rodar o filme “As Estações” no Alentejo. Nunca tinha estado no Alentejo e não tinha relação com o território, mas li um artigo no jornal sobre um casal de arqueólogos alemães que, nos anos 40, trabalharam na região a escavar monumentos megalíticos, monumentos funerários e tiveram que ficar devido à guerra. O artigo explicava que, enquanto trabalhavam em Portugal, recebiam cartas da família, dos amigos, dos colegas, a contar os bombardeamentos na Alemanha, e havia aí uma sobreposição de tempos entre os anos 40 em Portugal, o contexto da guerra, a pré-história.
Tudo isto despertou em mim o interesse de trabalhar os meios do cinema para que um filme seja uma máquina de tempo. Então, comecei a ir ao território, ver os lugares que eles tinham inventariado e escavado. A partir daí, comecei a conhecer as pessoas que vivem hoje no Alentejo e que completaram a visão com as suas histórias.

Haverá nesse percurso uma descoberta inicial aprofundada ao longo do tempo, também um trabalho arqueológico, como estávamos a falar, mas um processo igualmente pessoal, um filme amadurecido ao longo do tempo, uma máquina do tempo, também a partir da paisagem e do imaginário alentejano, porque o filme também é poético, convoca uma série de lendas, de mitos, de tradições. Notou muitas diferenças entre o Alentejo descoberto no início da viagem, quando do desvio de Leiria para o Alentejo, e o Alentejo de hoje?
De facto, notei nos últimos dez anos a transformação da paisagem, mas diria que o Alentejo que está no filme é um Alentejo ou reinventado, por mim e pelas pessoas que fizeram o filme comigo. Escrevi várias cenas do filme com poetas populares, com crianças.
O filme é um documentário que parte de um trabalho científico, da observação de como um pastor trabalha, como os arqueólogos trabalham, de uma observação da paisagem que também inclui lendas, poesia popular, canções, arquivos, o filme usa muitas maneiras de narrar o território e de reinventá-lo.
Para finalizar, o Alentejo tem essa força única, no presente?
Eu acho que podia ter ido fazer o filme noutra região e teria também encontrado as especificidades do território. Foi o Alentejo porque foi onde o casal de arqueólogos trabalhou.
Apesar de tudo, para mim havia também algo quase contraditório. Esse trabalho arqueológico permitiu perceber que há milhares de anos, no Neolítico, quando a humanidade começou a estabelecer-se, em toda a Península Ibérica foi o Alentejo o sítio onde se concentraram mais. Por isso é onde há mais monumentos megalíticos, tumbas, cemitérios. Foi um centro muito importante e hoje em dia o Alentejo está quase deserto.
Havia aqui um paradoxo, como um lugar que foi tão importante há milhares de anos hoje em dia tem muito pouca gente a viver. O filme também explora como essa relação com o território mudou.