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25 Mai 2026

Terminado o festival e atribuídos os prémios, apresentamos a nossa seleção, uma dezena de obras, entre as vistas pelo CINEMAX RTP durante as duas semanas em Cannes.

Uma escolha que não se limita à competição principal e olha também para a secção Cannes Prémiere, para o programa Un certain Regard e ainda para a secção paralela da Quinzena dos Cineastas.

COMPETIÇÃO

FJORD, Cristian Mungiu (Roménia)

Elenco: Sebastian Stan, Renate Reinsve

Palma de Ouro

A família Gheorghiu, composta por um pai romeno e uma mãe norueguesa, instala-se na aldeia natal desta, um pequeno povoado isolado na Noruega, onde estabelece amizade com a família Halberg, os vizinhos. Quando os Gheorghiu passam a ser suspeitos de comportamentos inquietantes em relação aos filhos, as suas vidas mergulham no caos e tornam-se o centro de todas as atenções.

O realizador diz que “Fjord” é um apelo à tolerância, à inclusão e à empatia. “Precisamos de questionar as nossas convicções de tempos a tempos e perceber que o facto de alguém não partilhar as mesmas ideias, não significa necessariamente que essa pessoa esteja certa ou errada — tal como nós também podemos não estar”, declarou Mungiu após receber a Palma de Ouro.

COMPETIÇÃO

MINOTAUR, Andrey Zvyagintsev (Rússia)

Elenco: Dmitriy Mazurov, Iris Lebedeva, Varvara Shmykova, Juris Žagars 

Grande Prémio

Rússia, em 2022. Gleb vive com a mulher, Galina, e o filho numa cidade do interior. Dirige com sucesso uma empresa. A sua vida, cuidadosamente organizada, começa a desmoronar-se sob a pressão de responsabilidades profissionais crescentes e de um mundo cada vez mais instável. Com o início da invasão da Ucrânia, Gleb perde colaboradores importantes e uma decisão do governo obriga-o a mobilizar 14 funcionários. Ao mesmo tempo, Gleb descobre que Galina o está a trair. O seu colapso acelera e ele começa a reagir de forma cada vez mais violenta para com quem o rodeia.

“É impossível filmar um conto de fadas, ou um melodrama, desligado de contexto social ou político. Foi assim que a guerra se infiltrou no nosso filme”, explicou Zvyagintsev num encontro com jornalistas durante o festival, após a apresentação do filme. A ligação com a guerra na Ucrânia assombra “Minotaur”, exilado, o cineasta tornou clara a sua posição: “Quem acredita que está na altura de pôr fim a este inferno, que isto é um pesadelo e uma catástrofe para a Rússia, verá o filme com lucidez e em solidariedade com os seus autores. E essas pessoas serão muitas”, afirmou.

COMPETIÇÃO

FATHERLAND, Paweł Pawlikowski (Polónia)

Elenco: Hanns Zischler, Sandra Hüller, August Diehl

Prémio da melhor realização

No auge da Guerra Fria, o escritor Thomas Mann regressa pela primeira vez à Alemanha acompanhado pela filha Erika. A bordo de um Buick preto, partem de Frankfurt am Main e atravessam o país devastado pela Segunda Guerra Mundial. O destino é Weimar, situado na zona de ocupação soviética. Thomas Mann deve proferir discursos por ocasião do 200.º aniversário de Johann Wolfgang von Goethe. Quando uma notícia trágica chega ao pai e à filha, ambos procuram consolar-se.

O realizador polaco Pawel Pawlikowski afirmou querer mostrar as complexidades da História, em vez de impor uma narrativa excessivamente simplista: “Muitos filmes históricos que vejo têm uma tese muito clara e organizam a História de acordo com a narrativa que os seus autores nos querem vender”, declarou o cineasta na conferência de imprensa em Cannes.

“Eu tento apenas mostrar como tudo isto é complicado, o que considero algo muito saudável para transmitir às pessoas hoje em dia”, acrescentou. “Quando alguém tem a certeza absoluta de que a sua narrativa está certa, isso é perigoso.”

COMPETIÇÃO

LA BOLA NEGRA, Javier Ambrossi, Javier Calvo (Espanha)

Elenco: Guitarricadelafuente, Carlos González, Miguel Bernardeau, Lola Dueñas, Penélope Cruz

Prémio da melhor realização

Segunda longa-metragem da dupla conhecida como “Los Javis”, formada por Javier Calvo e Javier Ambrossi, “La bola negra” atravessa três épocas, na Espanha em 1932 (República Espanhola), 1937 (Guerra Civil Espanhola) e 2017 (Espanha contemporânea) para retratar amores homossexuais reprimidos pela vergonha e pelo segredo. Começa durante a Guerra Civil espanhola e alterna constantemente entre o passado e a atualidade, construindo um retrato de relações marcadas pela ocultação e repressão social.

“É importante que um filme como este esteja em competição em Cannes com dois realizadores gays e três protagonistas gays interpretados por atores assumidamente gays”, afirmaram os cineastas à AFP.

COMPETIÇÃO

SOUDAIN, Ryûsuke Hamaguchi (Japão)

Elenco: Virginie Efira, Tao Okamoto, Kyōzō Nagatsuka

Prémio de interpretação feminina

Diretora de um lar de idosos, Marie-Lou tenta implementar uma filosofia de cuidados inovadora, baseada na escuta e na dignidade dos residentes, apesar da relutância de parte da equipa. O encontro com Mari, uma encenadora japonesa que luta contra um cancro, vai mudar o rumo da sua vida. Ao estabelecerem uma amizade profunda, as duas mulheres empenham-se numa luta para “tornar possível o impossível”.

“Ryūsuke fez-nos viver uma aventura — não, ‘aventura’ é uma palavra demasiado pequena — uma experiência de vida que ficará para sempre gravada em nós”, reagiu a atriz Virginie Efira ao receber o prémio de melhor interpretação feminina em conjunto com a japonesa Tao Okamoto.

Presente pela terceira vez na competição principal de Cannes, o realizador japonês quis filmar um tema que fosse “comum ao Japão e à França” e seguir o registo de “um cinema muito verbal” na senda de Jean Eustache, ou Éric Rohmer.

COMPETIÇÃO

NOTRE SALUT, Emmanuel Marre (França)

Elenco: Swann Arlaud, Sandrine Blancke, Mathieu Perotto, Harpo Guit

Melhor argumento

Setembro de 1940, o regime de Pétain entra em vigor. Henri Marre, de 49 anos, chega a Vichy sem um tostão, sem contactos, longe da mulher e dos filhos. Vê na nova administração a oportunidade de finalmente encontrar o lugar que merece. Na sua mala, um tratado político publicado por conta própria, “Notre Salut”, onde defende as suas convicções patrióticas e os seus métodos de engenheiro. O seu credo: «ganhar em eficácia» para tirar a França da derrota. Mas talvez Henri procure, acima de tudo, fugir da sua própria derrota…

Emmanuel Marre apoiou-se na história da sua família para começar a escrever o argumento premiado em Cannes. Numa entrevista durante o festival descreveu o desejo de transmitir ao espectador a sensação que teve ao abrir o arquivo onde estavam os documentos de Henri Marre: “É uma sensação quase física, porque a pasta continha documentos da época com formatos diferentes, qualidades de papel distintas e tintas variadas.” Defende ainda que é nos “detalhes que se revelam as coisas. Não num sistema apresentado desde o início como diabólico, mas numa escadaria percorrida degrau após degrau, em que cada passo parece inofensivo e em que se recusa ver até onde esse caminho conduz.”

COMPETIÇÃO

PAPER TIGER, James Gray (EUA)

Elenco: Adam Driver, Scarlett Johansson, Miles Teller

Dois irmãos perseguem o sonho americano, mas acabam por se ver envolvidos num perigoso esquema da máfia russa que aterroriza a sua família, pondo à prova o seu vínculo à medida que a traição se torna uma forte possibilidade.

Realizador e argumentista, James Gray descreveu “Paper Tiger” como uma crítica à natureza frequentemente “transacional” dos Estados Unidos. “Tal como o atual presidente dos Estados Unidos, que é um sintoma daquilo de que estou a falar. Totalmente transacional. Só pensa em como ganhar mais dinheiro”, afirmou. “Este ethos torna-se tudo. E o que faz isso às nossas almas? Se dissermos aos jovens que não importa serem boas pessoas ou não… deixamo-los à deriva.” Segundo Gray, foi por isso que decidiu ambientar o filme em meados da década de 1980: “Foi o início do momento em que o mercado se tornou Deus.”

UN CERTAIN REGARD

TEENAGE SEX AND DEATH AT CAMP MIASMA, Jane Schoenbrun (EUA)

Elenco: Hannah Einbinder, Gillian Anderson, Patrick Fischler

Queer Palm

Na sua terceira longa-metragem, Jane Schoenbrun inverte as regras dos slashers de terror, criticados por transfobia, ao associarem a não conformidade de género à doença mental, ou ao perigo. “Cresci apaixonada por esses filmes e não creio ser a única pessoa trans a encontrar um estranho conforto nestas representações do monstro transexual, mesmo sendo obviamente problemáticas”, afirmou Schoenbrun. “Também me incutiram uma profunda transfobia internalizada e uma grande parte do início da minha transição passou por superar isso”, acrescentou.

Em “Teenage Sex and Death at Camp Miasma”, uma argumentista visita a misteriosa atriz de um filme fictício, “Camp Miasma”, para a convencer a participar numa nova versão. A relação entre ambas aprofunda-se rapidamente numa exploração de sexo e imagem corporal enquanto começam a suspeitar de que o assassino de “Camp Miasma”, Little Death, despertou novamente, no fundo do lago do campo de férias, numa fusão entre realidade e ficção.

CANNES PREMIÈRE

EL PARTIDO, Juan Cabral e Santiago Franco (ARGENTINA)

Quarenta anos depois do encontro entre Argentina e Inglaterra nos quartos-de-final do Mundial de 1986, disputado na Cidade do México, Juan Cabral e o co-realizador Santiago Franco assinam “El Partido”, um documentário que ultrapassa o universo do futebol para explorar aquele jogo como o culminar de mais de dois séculos de tensões e conflitos entre as duas nações.

A partir do livro homónimo de Andrés Burgo, o documentário liga uma enorme teia de acontecimentos e pequenos episódios. Recua na História para explicar o conflito em torno das Malvinas e combima imagens de arquivo com testemunhos atuais de futebolistas argentinos e ingleses que se defrontaram em 1986 e disseca os dois golos de Diego Maradona, incluindo o primeiro, marcado com a célebre “mão de Deus”.

QUINZAINE DES CINEASTES

L’ESPÈCE EXPLOSIVE, Sarah Arnold (França)

Elenco: Alexis Manenti, Ella Rumpf, Vincent Dedienne, Jean-Louis Coulloc’h

Prémio Europa Cinemas Label

No nordeste de França, agricultores e caçadores vivem em guerra aberta. Os javalis, demasiado numerosos e agressivos, devastam as culturas. Brun, um produtor de cereais à beira do colapso, acaba por ceder à pressão e desaparece. Um ano depois, Fulda, um explosivo agente da polícia, e Stéphane, uma psicóloga em crise, investigam o caso. O que descobrem ultrapassa-os. O que nasce entre ambos também.

  • CINEMAX - RTP
  • 25 de Maio de 2026, 19:16

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