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09 Jan 2026

O filme “Miroirs No. 3” segue a linha de realização de Christian Petzold. Parte de uma situação complexa, mas é contada de forma simples, diz o cineasta alemão:

O nosso mundo é complexo. Penso que no cinema atual há muitos filmes que querem mostrar um mundo mais simples, limpo e sem problemas. Muitos seguem uma linha como a da política de Trump nos Estados Unidos. Eles querem construir muros, mostrar que não há complexidade.

Para se perceber a complexidade do mundo é preciso saber pensar. Eu gosto de pensar e, por isso, gosto de fazer filmes em que há situações complexas, mas é preciso saber contá-las de uma forma simples.

Um acidente automóvel numa estrada secundária no meio do campo cruza o destino de duas mulheres.  Betty, a mais velha, é a dona da casa à beira da estrada. Laura é a jovem que sai ilesa, mas que perdeu o namorado nesse acidente. Em “Miroirs No. 3”, Petzold imagina uma mulher que, sem fazer perguntas, acolhe uma jovem estudante de piano e ajuda-a a superar um trauma.

Penso muitas vezes, ‘será que poderia ser outra pessoa’? Imagino uma nova biografia e, às vezes, nos meus sonhos, desejo ter uma vida mais simples. Então, para este filme, imaginei uma mulher jovem que sofre um acidente e uma mulher mais velha que a acolhe na sua casa.

A mulher mais velha, quando conhece a jovem, diz apenas, sou a Betty. E a jovem responde, sou a Laura. Só isto sem dizerem o apelido, sem perguntarem quem são, as origens, sem perguntarem quem é o teu pai, qual é o teu problema, onde moras, qual é a tua profissão, qual é o teu sonho. Nada. Apenas o nome.

Então, nesse momento, tu tens a possibilidade de te reconstruir, de criar uma identidade completamente nova, sem saber quem é ou de onde vem, de onde cama e de comer. Esta jovem tem de aprender tudo. Ela aprende coisas novas. Aprende a pintar a cerca da casa, recebe a sua primeira bicicleta. Era alguém que estava a construir uma nova vida. Essa nova vida podia partir de uma mentira, mas era uma mentira para superar um trauma.

A personagem Betty projeta na jovem Laura a filha que morreu e que também era pianista. Além da influência de Hitchcock, Christian Petzold reconhece que se inspirou num conto infantil dos irmãos Grimm:

Há um conto muito curto dos irmãos Grimm, que creio que foi a minha primeira ideia. Ter uma mulher mais velha que perdeu a filha e que agarra esta oportunidade de colocar a jovem que conheceu no lugar da filha que perdeu. Essa é a estrutura mais obscura que está por detrás desta narrativa.

O local de filmagem ajudou Christian Petzold a desenvolver a história:

Os arredores de Berlim transformaram-se com a queda do muro. Muitas das casas que existem no campo transformaram-se em segundas habitações e estão vazias. São o reflexo dos proprietários.

A casa onde filmamos fica hora e meia a norte de Berlim. Dizem que é uma parte bonita de Brandeburgo. Há várias casas, como a casa onde fizemos este filme. Fizemos vários melhoramentos. Ficou mais bonita. São casas que sonham com uma vida melhor. Que sonham ser uma casa com uma varanda, com um piano. Talvez muitas dessas casas tenham sorte e sejam espaços de felicidade. Mas muitas estão vazias e têm histórias de perda e de pouca sorte. Estas casas contam a história de perder a sorte.

Acolher a jovem pianista parece ser a salvação para uma família em ruínas. Tanto Laura, como Betty, o marido e o filho adulto, vão procurar reparar o que não está bem e sarar as feridas interiores. Dirigir o foco para uma família que tenta reconstruir-se é a intenção de Christian Petzold:

Este filme é sobre reparar e não sobre destruir. Para reparar algo, é preciso compreender o que está mal. Se tiver uma máquina de lavar a loiça estragada, é preciso compreender porque é que não funciona. É preciso ler os manuais e abrir o motor para compreender o que se passa.

O mesmo se aplica às nossas almas. Numa situação traumática, numa família, é preciso pensar sobre o que está a acontecer. Eu gosto de mostrar pessoas que tentam reparar algo. Quando se repara alguma coisa, ganha-se dignidade. Tem a ver com o trabalho e identidade. É isso que acontece no filme. Eles tentam reparar algo que não funciona na relação entre eles. A família repara as feridas, continua a viver e todos sobrevivem.

Para o cineasta alemão, o mundo esqueceu-se do valor e da importância que é saber reparar. As reparações materiais e emocionais podem deixar cicatrizes, mas são marcas da vida e permitem seguir em frente:

O mundo capitalista atual precisa que consumamos coisas. Se as coisas pudessem ser reparadas, não se ganharia dinheiro. Mas temos de aprender a reparar. Não sei como podemos fazer para mudar o mundo, mas com este filme tento mostrar que reparar o que está mal nos pode trazer conforto. Claro que uma coisa que foi reparada não é igual a uma coisa nova, tem marcas e pode não ser tão bonita, mas funciona e é útil. Penso que esta família, no final, não é a mesma, mas sobreviveu e a nós isso dá-nos conforto. Tal como essa sobrevivência traz conforto a esta família.

O título do filme, “Miroirs No. 3”, é o nome de um tema do compositor francês Maurice Ravel. É um dos temas preferidos do cineasta Christian Petzold:

Gosto das peças para piano do compositor francês Maurice Ravel. Gosto muito porque contam histórias. É um pouco como faz o cinema. Esta música não é apenas música, é também uma narrativa, por isso gosto muito dela.

E, depois, trabalho com a atriz Paula Beer há mais de oito anos. Este é o nosso quarto filme, juntos. Numa ocasião ela disse-me, ‘é tão aborrecido ser atriz, ter de andar de um lado para o outro e viver num hotel’. Então, perguntei-lhe, o que fazia para combater esse sentimento? Respondeu-me, ‘toco piano desde os oito anos e continuo a tocar nos meus tempos livres’. Então tive uma ideia. ‘No próximo filme, vais ser uma estudante de piano’. E assim foi.

Christian Petzold integra o grupo de realizadores do cinema contemporâneo alemão. Ganhou o prémio de melhor realizador no Festival de Berlim com o filme “Bárbara”. A primeira longa-metragem que dirigiu, em 2000, foi filmada em Portugal, recorda Petzold:

Há 25 anos fiz um filme que começa em Lisboa e é sobre terroristas, clandestinos alemães que vivem na cidade. Bárbara Auer, a atriz que interpreta a personagem Betty, a mãe, também interpretou nesse filme o papel de uma mãe que está em Lisboa com a filha. Recordo-me de tudo, de Cascais, da praia do Guincho, dos surfistas. Vivi lá durante seis semanas porque estávamos a filmar no local. Para mim, Lisboa sempre foi um bom local para filmar, não só para os meus próprios filmes, mas gosto de ver Lisboa retratada no cinema, como, por exemplo, em “Um Só Pecado”, de François Truffaut.

  • Margarida Vaz
  • 09 Jan 2026 18:45

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