9.º Porto Femme lamenta que ainda falte paridade no trabalho
Com arranque marcado para o Batalha Centro de Cinema, o Porto Femme dedica a nona edição às desigualdades laborais no setor audiovisual e destaca o legado de pioneiras como Raquel Soeiro de Brito e Bárbara Virgínia em diversas salas da cidade.
A nona edição do Festival Internacional de Cinema Porto Femme, de segunda-feira a domingo em várias salas da cidade, tem o trabalho como tema central porque ainda “falta muito” para a paridade de género neste campo.
Rita Capucho, fundadora e co-diretora do evento, nota que o trabalho foi um tema já presente “ao longo de todas as edições”, “até na própria génese do festival, que nasce para dar visibilidade a este trabalho das pessoas, das mulheres cineastas”.
O contexto atual, afirma, também pesou na escolha, num país “com uma lei laboral em discussão e em que as desigualdades, as diferenças salariais entre homens e mulheres, continuam a existir”.
No segundo ano de apoio do Instituto do Cinema e Audiovisual, quiseram olhar também para a própria estrutura do evento, para o trabalho no setor, onde ainda falta “um bom caminho até à verdadeira paridade”. “Também a questão do trabalho muitas vezes invisível, o trabalho do cuidado, do parto. Quisemos trazer também este trabalho que fica nas margens para o centro, porque consideramos urgente este foco, alertar que muitas coisas têm de ser alteradas”, diz.
Ao todo, o comité de seleção escolheu 128 obras, de 37 países diferentes, entre 966 submissões, entre elas “Fantasy”, de Katarina Resek, para o drama passado na Suíça dos anos 1940 “Silent Rebellion”, de Marie-Elsa Sgualdo, a greve sexual em “The Strike”, de Gabrielle Stemmer, o protesto de 1975 na Islândia pela lente de Pamela Hogan, em “The Day Iceland Stood Still”, ou “Naima”, de Anna Thommen.
A extensa seleção nacional inclui “Fragmented”, de Balolas Carvalho e Tanya Marar, “Eu queria ser tudo”, de Luísa Costa Pinto, “The inhabitants”, de Maureen Fazendeiro, “Cleópatra & António”, de Diego Bragá, e “Porque hoje é sábado”, de Alice Eça Guimarães.
Programados estão também filmes de Mónica Martins Nunes, Sara N. Santos, Inês Sena, Mariana Leal, Sofia Bost, Maria Inês Gonçalves e Marta Reis Andrade, entre outros.
O festival vai arrancar no Batalha – Centro de Cinema, no dia 21 de abril, com a sessão de abertura a contar com a projeção de “Sugar Island” (2024), de Johanné Gómez Terrero.
A nona edição do certame decidiu ainda homenagear Raquel Soeiro de Brito, nascida em 1925 e que trabalhou como geógrafa e cineasta, de quem o público poderá ver três filmes, em sessão agendada para 22 de abril.
Na mostra “Lavores”, é evocada a resistência feminina no cinema, refletindo sobre as várias facetas do trabalho, da casa à luta, do parto à sombra, para “ocupar as entrelinhas, as fronteiras entre géneros, o social e o pessoal, o documentário e a ficção, a memória e o arquivo”, num trabalho com cinco sessões com curadoria de Amarante Abramovici e Beatriz Dinis.
Outro dos ciclos temáticos visa antecipar um programa da Cinemateca Portuguesa, ao trazer obras de três pioneiras do cinema português, também no dia 22 de abril: Soeiro de Brito, Amélia Borges Rodrigues e Bárbara Virgínia, que filmaram “quando isso ainda era uma ousadia”.
“Quisemos uma vez mais visibilizar e homenagear o trabalho que elas realizaram, e muitas delas tiveram impacto na história. (…) Bárbara Virgínia, que esteve no festival de Cannes, depois não é referenciada nos livros, acabou por se afastar do cinema, por lhe ser negado o seu lugar. Temos várias na história do cinema português”, recorda.
Certo é que hoje, décadas volvidas desde o trabalho destas pioneiras, “ainda falta fazer muito” para as mulheres que hoje trabalham na indústria cinematográfica no país, aponta. “Ainda falta fazer muito e precisamos aqui que haja realmente uma atenção, políticas, medidas, para que nós possamos chegar a um momento em que estamos a falar de paridade, que existe igualdade a nível do acesso”, refere.
Além do Batalha, principal centro do festival, a programação passa também pela Casa Comum da Universidade do Porto, a Universidade Lusófona, o Passos Manuel, o Maus Hábitos, a Galeria Nuno Centeno e as Galerias MIRA, incluindo conversas e festas.