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03 Set 2026

“Ink”, o novo filme do realizador britânico Danny Boyle, apresentado quarta-feira na sessão de abertura do Festival de Veneza, examina como o ataque de Rupert Murdoch aos tradicionais meios de comunicação britânicos foi inicialmente recebido como uma lufada de ar fresco, antes de se transformar numa história bastante mais sombria.

Boyle brincou, dizendo que muitas pessoas pensaram que era um filme sobre tatuagens e não sobre a indústria dos jornais. Adaptado de uma peça de teatro de James Graham, o filme acompanha a aquisição do “The Sun” por Murdoch em 1969 e a transformação da outrora convencional indústria britânica dos jornais.

“Era importante para nós que o público se sentisse cúmplice”, disse Boyle aos jornalistas. “Todos fomos cúmplices nesta viagem no início. Depois, a viagem leva-nos para a escuridão.”

Boyle, cuja filmografia inclui o filme de culto “Trainspotting” e o vencedor do Óscar “Quem Quer Ser Bilionário?”, afirma que Murdoch, então um jovem proprietário australiano de jornais em confronto com a velha ordem dos meios de comunicação britânicos, introduziu energia numa sociedade rígida.

“Não transformou Rupert Murdoch num monstro, como, evidentemente, muitas pessoas fazem hoje”, acrescentou o realizador na conferência de imprensa.

O filme mostra Murdoch a enfrentar o establishment inglês e os sindicatos, sugerindo ao mesmo tempo que desaprovava alguns dos excessos do seu jornal, entre eles a publicação diária de fotografias de modelos em topless.

Boyle afirmou, contudo, que a história o atraiu não tanto por Murdoch, interpretado por Guy Pearce, mas por Larry Lamb, o determinado editor recrutado para transformar o “The Sun”, papel interpretado por Jack O’Connell.

Em “Ink”, Boyle procura captar a excitação de uma época em que o domínio da Fleet Street parecia pronto para ser abalado, antes de mostrar como essa transformação acabaria por conduzir ao crescimento de um império global com uma influência política desproporcionada.

Embora a ação decorra há mais de meio século, Boyle assegura que pretendeu dar ao filme uma dimensão contemporânea que refletisse as preocupações atuais com o poder dos meios de comunicação, a informação e a verdade.

“O jornalismo é uma das grandes estruturas de qualquer civilização”, disse, acrescentando que os avanços na inteligência artificial podem ameaçar o seu papel tradicional de vigilante. “O perigo é que, com os gigantes tecnológicos e a sua IA, eles possam substituir o jornalismo”, disse. “Será que esse jornalista de IA vai dizer a verdade ao poder que o criou? Isso vai ser muito, muito difícil.”

O realizador refletiu também sobre o legado de Murdoch, hoje com 95 anos, numa altura em que o jornalismo impresso está em declínio. “A tinta corria-lhe nas veias. Era jornalista. Era um homem da imprensa. Adorava a imprensa”, disse Boyle. “Tenho a certeza de que o desaparecimento da indústria da imprensa o leva ao desespero.”

O dramaturgo James Graham disse que o empresário assistiu à sua peça em Londres e depois em Nova Iorque, sugerindo que tinha gostado do espectáculo.

Murdoch ainda não viu o filme, mas Pearce revelou ter recebido um inesperado sinal de aprovação por parte da família Murdoch. “Troquei algumas mensagens com Elisabeth, a filha dele”, disse Pearce. “E ela disse-me: ‘O pai está muito contente por seres tu a interpretá-lo’.”

O Festival de Cinema de Veneza decorre até 12 de setembro, com 21 filmes a disputar o prestigiado Leão de Ouro.

  • CINEMAX - RTP c/ Reuters
  • 02 de Setembro de 2026, 23:44

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